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Onde morou a Marquesa de Santos em São Paulo?

“Estou com ideia dum romance histórico, Titila. Tenho de estudar o primeiro império para romancear historicamente a famosa marquesa do Pedro I. (…) A Titila titilava. Prendeu aquele garanhão durante oito anos”, escreveu Lobato para o seu amigo Godofredo Rangel em maio de 1923. Pena que o pai da Emília não chegou a escrever o livro. Por certo seria bastante saboroso, se mantivesse o tom picante da carta.

Não tenho a veleidade de dissecar o relacionamento de Domitila de Castro Canto e Mello, a Marquesa de Santos (1797-1867) com o nosso primeiro imperador, até porque muitos já o fizeram e nada melhor do que ler a correspondência trocada entre ela e D. Pedro I para se ter uma ideia da paixão entre ambos, a ponto de levar nosso primeiro imperador a assinar as cartas que lhe enviava como: “Seu demonão”, “Seu fogo, foguinho”, além de outros.

A vida da Marquesa de Santos já se prestou de enredo de livro a tema de minissérie, de música composta por Villa Lobos a ópera, mas se muito é lembrada por seu amor com o monarca brasileiro, pouco ou nada se diz a respeito de sua vida em São Paulo. Por isso comecei a realizar um levantamento, que agora apresento, sobre os locais onde Domitila, ou Titila, para os íntimos – que apesar das lendas foram poucos -, morou em São Paulo.

O pai de Domitila, João de Castro do Canto e Melo (1740-1826), chegou a São Paulo em 1772. Era militar e teve, até onde consegui descobrir, três residências. Uma, que até parece lenda e como tal é encarada pelo DPH, ainda está de pé. É a famosa Casa do Grito:

Localizada dentro do Parque da Independência, serviria de casa de campo da família. Tanto Alberto Rangel quanto Nuto Santana citam que a casa pertencia ao pai de Domitila e que a edificação foi bastante modificada, a ponto de se retirar uma água-furtada que existia. Mario de Andrade, em relatório de 1937, afirma que a casa havia sido muito mexida, inclusive com abertura de portas e janelas, sendo que da original, pouca coisa restava.

Domitila passou parte de sua juventude em um sobrado na rua do Ouvidor atual Rua José Bonifácio (não confundir com Ladeira do Ouvidor), e dava fundos para o Largo de São Francisco.

Dessa última morada, Titila saiu casada com o Alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça (1789–1833), de mudança para Minas Gerais. Retornaram para São Paulo em meados da década de vinte do século retrasado. Domitila, separada, voltou para a casa paterna, que então localizava-se onde hoje está o bairro da Liberdade e era conhecida como Chácara dos Ingleses, apelido devido a um proprietário anterior, de nome João Rademaker.

Sobre essa construção, Affonso A. de Freitas diz: “(..) residência solarenga, sob o seu teto acachapado de arquitetura colonial, cupido travesso fez diabruras(…)”. Sim… fez mesmo… Segundo consta, nesse sobrado, mais tarde transformado em república estudantil onde moraram Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães, o futuro imperador do Brasil conheceu em 30 de agosto de 1822 aquela que dominaria seu coração e mente pelos próximos sete anos.

Chácara dos Ingleses, segundo concepção do pintor Pedro Alexandrino

Eis que, como tudo na vida, o amor acaba, e após ter morado na corte de 1823 até 1829 a ex-favorita é banida, por decreto, para abrir espaço à nova imperatriz do Brasil, Dona Amélia de Leuchtenberg, que ironicamente embarcou para o Brasil em agosto, exatos sete anos depois do começo do relacionamento entre Pedro I e Domitila de Castro. Com isso nossa Marquesa retorna a São Paulo, e aí vem o nosso segundo problema… Nuto Santana, Antonio Barreto do Amaral e outros afirmam que ela teria ido morar em uma chácara que adquiriu do casal João Antonio de Oliveira, por nove contos de réis. Essa chácara ficava próximo da Rua da Alegria (Av. Ipiranga), entre a Rua Triste (Av. Cásper Líbero) e a Rua do Bom Retiro (R. do Triunfo).

Segundo Alberto Rangel, ela foi morar na propriedade de Francisco Ignácio de Souza Queiroz. Esperamos um dia resolver essa dúvida.

Em 31 de maio de 1834, a Marquesa adquire o famoso imóvel da Rua do Carmo (atual Roberto Simonsen) conhecido durante anos como Palacete do Carmo, hoje chamado de Solar da Marquesa de Santos, onde funciona o Museu da Cidade de São Paulo. Ele foi comprado por onze contos de réis. Em 1880, vários anos após sua morte, a residência foi adquirida pela Cúria Metropolitana e serviu de palácio episcopal até a década de dez do século passado. Depois de diversos usos, foi encampada pela prefeitura.

A Marquesa, em seu exílio paulista, viveu durante vários anos com Rafael Tobias de Aguiar (1794-1857), líder da Revolução Liberal. Eles se casaram em Sorocaba em 1842, pouco antes dele fugir para o sul do país. devido ao fracasso da revolta. Tobias de Aguiar morou em um casarão entre a Rua Alegre (atual R. Tobias de Aguiar) e a Ladeira de Santa Efigênia (R. Santa Efigênia). Portanto, eis mais um local onde nossa Marquesa passou.

Palacete do Acu, também conhecido como Solar do Brigadeiro Tobias

No local funcionaram a Escola de Farmácia, a Pensão Suissa, o Conservatório Musical e uma seção da Faculdade de Medicina, até o prédio ser demolido, em 1925.

Por fim, mas não por último (ainda existem fazendas e outros locais a serem investigados), Domitila possuiu a Chácara da Figueira, que ela deveria conseguir avistar de seu Solar na Rua do Carmo (Atual Roberto Simonsen).

A chácara ficava do outro lado do Rio Tamanduateí e parte dela, após o desmembramento do terreno, foi adquirido pela Companhia de Gás, que ali instalou o Gasômetro. A Rua da Figueira e a Rua Maria Domitila são velhas lembranças da antiga chácara e sua proprietária.

Atualmente, a polêmica marquesa habita, desde 1867, um singelo túmulo de mármore branco, próximo da capela do Cemitério da Consolação, à qual destinou, em testamento, dinheiro para a compra das alfaias litúrgicas. Sempre pintado e florido, é guardado por um tristonho querubim apoiado em uma trombeta e exibe um medalhão com a foto de Domitila já em idade avançada. O tom curioso fica por conta de placas e bilhetes agradecendo graças alcançadas. Corre a lenda de que a ex-amante imperial, de onde quer que esteja, intercede por homens e mulheres em busca do amor.

Fontes utilizadas:
– Nuto Santana: São Paulo Histórico
– Afonso A. de Freitas: Tradições e Reminiscências Paulistanas
– Hernani Silva Bruno: História da Cidade de São Paulo.
– Alberto Rangel: Dom Pedro I e a Marquesa de Santos
– Antonio Barreto do Amaral: Dicionário de História de São Paulo
– Maria C. Naclério Homem: O Palacete Paulistano

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  1. Neuza Guerreiro de Carvalho
    16/05/2010 às 13:25

    Gostei muito do texto sobre a Marquesa de Santos. Vou colocá-lo no meu banco de dados.

    • 18/05/2010 às 13:26

      Obrigado pela visita, fique á vontade para arquivar-me mais vezes :-)

  2. 19/05/2014 às 12:57

    Belo trabalho de pesquisa. Parabéns!

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