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Jânio Quadros e o Monumento a Olavo Bilac

Detalhe de um postal da época

Quem está acostumado com o folclore urbano paulista sabe que não é de hoje que os alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco sequestram estátuas para embelezar sua escola. A velha estátua de José Bonifácio, O Moço (sobrinho e neto* do patriarca), que se encontra em um nicho no hall de entrada do edifício, está lá como prova do velho hábito. Sendo, provavelmente, a primeira estátua em memória a um personagem erguida em espaço público na cidade, foi inaugurada em 1890.  Localizava-se no Largo de São Francisco, em um alto pedestal, defronte à Rua São Bento, foi retirada pela prefeitura em 1936 devido a execução de melhoramentos na praça. Alguns estudantes foram até o gabinete do prefeito Fábio Prado tentar reaver a estátua. Como não

Largo na década de 30

conseguiram contar com sua compaixão, um acadêmico, que trabalhava no local, furtou um papel timbrado. Com ele, o grupo falsificou o pedido de entrega da obra, e assim conseguiram retirá-la do depósito e levá-la para dentro da faculdade.

Uma das peças que ornam o largo, a estátua O Idílio, também conhecida como O Beijo Eterno, no qual o bronze eternizou o ósculo de um francês com uma índia, ainda hoje chama a atenção. O que poucos sabem é a história dessa obra.

Na década de 10 do século passado, Olavo Bilac e sua campanha civilista chegaram a São Paulo e encontraram adeptos nas Arcadas. O movimento paulista, capitaneado pelo professor Vergueiro Steidel, fundou a Liga Nacionalista, que entre outras coisas pregava a instrução pública gratuita, o alistamento militar e diversas outras ações. A Liga teve destaque em grandes momentos da história paulistana, como quando da Gripe Espanhola e da Revolução de 1924, o que acabou lhe valendo a dissolução oficial pelo presidente Arthur Bernardes. Quando Bilac faleceu, em 1918, aos 53 anos, os membros da Liga Nacionalista, cuja direção e maioria dos membros eram estudantes e professores da Academia de Direito, e em menor número da Politécnica e da Faculdade de Medicina, resolveram fazer uma homenagem ao poeta. Após o levantamento dos fundos necessários, contrataram o escultor sueco William Zading, professor do Liceu de Artes e Ofícios, para esculpir um conjunto monumental em honra a Bilac. O monumento foi inaugurado em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência, pelo então governador Washington Luís.

A obra foi instalada na praça Minas Gerais, no final da Av. Paulista. Contava com cinco peças de bronze. O busto de Bilac aparecia no centro da composição; nas laterais, encontravam-se A Tarde, O Caçador de Esmeraldas, O Beijo Eterno e Pátria e Família, representando os escritos do poeta.

Monumento a Bilac no final da Av. Paulista, década de 20

Em 1936, por conta de controvérsias com os modernistas e alegando ser necessária a remodelação do local para adequar-se ao volume do tráfego, o monumento foi desmontado, e as estátuas foram todas para o depósito municipal. Quando Jânio Quadros assumiu a prefeitura, em 1953, durante uma visita ao viveiro municipal Manequinho Lopes (hoje integrado ao Parque Ibirapuera), deu de cara com a estátua O Beijo Eterno e mandou que o chefe de Parques e Jardins, Artur Etzel, instalasse-a no Largo do Cambuci. Segundo relata Barros Ferreira, o motivo seria que o prefeito, antigo morador daquele bairro, sabia o quanto o local era esquecido pela administração pública.

Logo as reclamações começaram. Um pai, ao buscar a filha na escola, viu a

Idílio, ou O Beijo Eterno, hoje diante da faculdade

estátua do casal se beijando e achou imoral. Protestos começaram a ser enviados para redações de jornais e para a própria prefeitura. Por fim, o prefeito capitulou e ordenou a remoção do bronze para o depósito novamente. O prefeito Faria Lima foi mais um que tirou O Beijo Eterno do depósito para dar uma volta, quando ordenou que a obra fosse colocada na entrada do túnel da Av. Nove de Julho. Não demorou muito e o vereador Antonio Sampaio passou pelo local, lembrou-se do caso ocorrido no Cambuci e soltou o verbo na Câmara. Fartos das idas e vindas da estátua, paga pelos ex-alunos da Faculdade de Direito, os estudantes mobilizaram-se. Na calada da noite, retiraram o francês e a índia e levaram-nos para o seu agarramento eterno bem guardado de eventual retórica moralista diante da faculdade.

As demais peças esculpidas por Zading para o monumento encontram-se espalhadas pela cidade. O Caçador de Esmeraldas, que representa Fernão Dias Paes e seu genro, Borba Gato, encontra-se na Av. Pedroso de Moraes, no jardim da Escola Estadual Fernão Dias, no local em que, segundo o Prof. Alfredo Gomes, existiu a sede do Sítio do Capão, pertencente ao bandeirante.

De volta à prefeitura de São Paulo em 1985, Jânio Quadros parece ter ficado bastante ocupado desenterrando estátuas do depósito municipal. Inaugurou o busto de Bilac na praça da Av. Sargento Mario Kozel Filho, próximo do Círculo Militar, no Ibirapuera; implantou O Pensador, ou A Tarde, no Parque da Independência, no Ipiranga; e levou Pátria e Família para a Av. Salim Farah Maluf, remanejada em 1999 para a Praça Presidente Kennedy, na Mooca.

Francisco Pati, orador da Faculdade quando da inauguração do monumento, em 1922, recorda o que lhe foi dito pela irmã do poeta, presente à homenagem:

Os senhores, paulistas, são os primeiros a lembrar-se de dar à imagem do meu irmão a perpetuidade do bronze. Com esse gesto, os senhores respondem às acusações de regionalismo intolerante. Bilac não nasceu em São Paulo, nasceu no Rio, mas é São Paulo que o consagra. Estou certa de que ele está contente lá onde se encontra. São Paulo era a sua fábrica de entusiasmo.”

Será que ela soube que desmembraram a homenagem e exilaram a estatuaria que ainda hoje se encontra vagando por Sampa sem destino fixo? Bem, fica aí a dica se o pessoal da São Francisco quiser recolher o que lhes pertence de volta!

José Bonifácio de Andrada e Silva (1827-1886), apelidado de  “O Moço” era filho de Martin Francisco Ribeiro de Andrada, irmão do Patriarca da Independência, e de Gabriela Frederica Ribeiro de Andrade, filha de José Bonfiácio (O Patriarca, ou O Velho).

Fontes:

– Pati, Francisco: O Espírito das Arcadas. São Paulo, Associação dos Antigos Alunos, 1950.

– Bandecchi, Brasil: A Liga Nacionalista. São Paulo, Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. LXXIII.

– S/autor: Obras de Artes em logradouros públicos de São Paulo. Regional Vila Mariana. Coleção Registros vol 16. Secretaria Municipal de São Paulo. 1993

– Ferreira, Barros: O nobre e antigo bairro da Sé. São Paulo, Departamento de Patrimônio Histórico, 1971

– Lima de Toledo, Benedito: Album Iconográfico da Avenida Paulista. São Paulo, Ex-Libris, 1987.

– Martins, Ana Luisa e Barbuy, Helena: Arcadas – Largo de São Francisco. São Paulo, Melhoramentos, 1999.

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  1. 29/06/2010 às 16:54

    Muito legal seu texto. Nem sabia deste monumento a Olavo Bilac, no final da Av. Paulista. Esta cidade, suas histórias, mistérios e novidades.

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