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São Paulo vista por Satã / Álvares de Azevedo

O poeta Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, mas muito cedo mudou-se para a Corte, voltando para cá duas vezes, sendo que na última frequentou o Curso Jurídico instalado no velho mosteiro franciscano.

A sua correspondência com sua mãe –  a parte que sobreviveu e foi publicada –  mostra muito do rapaz acostumado com as mordomias da capital do império em detrimento à vida enfadonha da capital da província paulista. Mas, além de fofocas de baile, dos vestidos, penteados e jóias, que estranhamente parecem encantar o autor de “Se eu morresse amanhã”, ele nos legou uma saborossíssima crônica sobre São Paulo no seu “Macário”, onde fala sobre os tipos paulistas e os hábitos da época (final da década de 1840 e começo dos 50).

Macário, o personagem da peça, é um estudante e poeta romântico que vem estudar na capital, e em uma taverna, após vencer a Serra do Mar, encontra um misteriosos companheiro de viagem, que revela-se depois ser Satã. É através do próprio Tinhoso que Álvares de Azevedo despeja toda sua crítica à capital paulista.

MACÁRIO

– Tudo isso não prova que ele não trota danadamente. Falta-nos muito para chegar?

SATÃ

– Não. Daqui a cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Hás de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma essa de enterro.

Vista da cidade de São Paulo da estrada de Santos, 1839

MACÁRIO

– Tenho ânsia de lá chegar. É bonita?

SATÃ ( boceja )

– Ah! é divertida.

MACÁRIO

– Por acaso também há mulheres ali?

SATÃ

– Mulheres, padres, soldados e estudantes. As mulheres são mulheres, os padres são soldados, os soldados são padres, e os estudantes são estudantes: para falar mais claro: as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isto salvo honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante, tu.

MACÁRIO

– Esta cidade deveria ter o teu nome.

SATÃ

– Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge. Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calçadas!

MACÁRIO

– Que têm?

SATÃ

– São intransitáveis. Parecem encastoadas as tais pedras. As calçadas do inferno são mil vezes melhores. Mas o pior da história é que as beatas e os cônegos cada vez que saem, a cada topada, blasfemam tanto com o rosário na mão que já estou enjoado. Admiras-te? por que abres essa boca espantada? Antigamente o diabo corria atrás dos homens, hoje são eles que rezam pelo diabo. Acredita que faço-te um favor muito grande em preferir-te à moça de um frade que me trocaria pelo seu Menino Jesus, e a um cento de padres que dariam a alma, que já não têm, por uma candidatura.

Uma das pontes de alvenaria sobre o Tamanduatei, com o mosteiro e a igreja do Carmo no alto da ladeira

MACÁRIO

– Mas, como dizias, as mulheres…

SATÃ

– Debaixo do pano luzidio da mantilha, entre a renda do véu, com suas faces cor-de-rosa, olhos e cabelos pretos (e que olhos e que longos cabelos!) são bonitas. Demais, são beatas como uma bisavó; e sabem a arte moderna de entremear uma Ave-Maria com um namoro; e soltando uma conta do rosário lançar uma olhadela.

Detalhe de uma aquarela de Eduard Hildebrandt mostrando as mulheres paulistas, tanto criança quanto adulta, cobertas dos pés a cabeça, para sairem à rua. O desenho é de 1844

MACÁRIO

– Oh! a mantilha acetinada! os olhares de andaluza! e a tez fresca como uma rosa! os olhos negros, muito negros, entre o véu de seda dos cílios!.. Apertá-las ao seio com seus ais, seus suspiros, suas orações entrecortadas de soluços! Beijar-lhes o seio palpitante e a cruz que se agita no seu colo, apertar-lhes a cintura, e sufocar-lhes nos lábios uma oração… Deve ser delicioso!

SATÃ

– Tá! tá! tá… Que ladainha… parece que já estás enamorado, meu Dom Quixote, antes de ver as Dulcinéias!

MACÁRIO

– Que boa terra! É o Paraíso de Mafoma!

SATÃ

– Mas as moças poucas vezes tem bons dentes. A cidade colocada na montanha, envolta de várzeas relvosas, tem ladeiras íngremes e ruas péssimas. É raro o minuto em que não se esbarra a gente com um burro ou com um padre. Um médico que ali viveu e morreu deixou escrito numa obra inédita, que para sua desgraça o mundo não há-de ler, que a virgindade era uma ilusão. E contudo não há em parte alguma mulheres que tenham sido mais vezes virgens que ali.

MACÁRIO

– Têm-se-me contado muito bonitas histórias. Dizem na minha terra que aí, à noite, as moças procuram os mancebos, que lhes batem à porta, e na rua os puxam pelo capote Deve ser delicioso! Quanto a mim, quadra-me essa vida excelentemente; nem mais nem menos que um Sultão escolherei entre essas belezas vagabundas a mais bela. Aplicarei contudo o ecletismo ao amor. Hoje uma, amanhã outra: experimentarei todas as taças. A mais doce embriaguez é a que resulta da mistura dos vinhos.

SATÃ

– A única que tu ganharás será nojenta. Aquelas mulheres são repulsivas. O rosto é macio, os olhos lânguidos, o seio morno… Mas o corpo é imundo. Têm uma lepra que ocultam num sorriso. Bofarinheiras de infâmia dão em troco do gozo o veneno da sífilis. Antes amar uma lazarenta!

MACÁRIO

– És o diabo em pessoa. Para ti nada há bom. Pelo que vejo, na criação só há uma perfeição, a tua. Tudo o mais nada vale para ti. Substância da soberba, ris de tudo o mais embuçado no teu desdém. Há uma tradição, que quando Deus fez o homem, veio SATÃ; achou a criatura adormecida, apalpou-lhe o corpo: achou-o perfeito, e deitou aí as paixões.

SATÃ

– Essa história é uma mentira. O que Satã pôs aí foi o orgulho. E o que são vossas virtudes humanas senão a encarnação do orgulho?

MACÁRIO

– Oh! Ali vejo luzes ao longe. Uma montanha oculta no horizonte. Disséreis um pântano escuro cheio de fogos errantes. Por que paras o teu animal?

SATÃ
– Tenho uma casa aqui na entrada da cidade. Entrando à direita, defronte docemitério. Sturn, meu pajem, lá está preparando a ceia. Levanta-te sobre meus ombros: não vês naquele palácio uma luz correr uma por uma as janelas? Sentiram a minha chegada.

Chácara dos Ingleses, localizada próximo ao cemitério dos Aflitos, na entrada da cidade. Transformada em uma república de estudades, Alvares de Azevedo ai morou

MACÁRIO

– Que ruínas são estas? É uma igreja esquecida? A lua se levanta ao longe nas montanhas. Sua luz horizontal banha o vale, e branqueia os pardieiros escuros do convento. Não mora ali ninguém? Eu tinha desejo de correr aquela solidão.

SATÃ

– É uma propensão singular a do homem pelas ruínas. Devia ser um frade bem sombrio, ébrio de sua crença profunda, o Jesuíta que aí lançou nas montanhas a semente dessa cidade. Seria o acaso quem lhe pôs no caminho, à entrada mesmo, um cemitério à esquerda e umas ruínas à direita?

MACÁRIO

– Se quisesses, Satã, podíamos descer pelo despenhadeiro, e ir ter lá embaixo, enquanto Sturn prepara ceia.

SATÃ

– Não, Macário. Minha barriga está seca como a de um eremita; deves também ter fome. Molhar os pés no orvalho não deve ser bom para quem vem de viagem. Vamos cear. Daqui a pouco o luar estará claro e poderemos vir.

MACÁRIO

Fiat voluntas tua.

SATÃ

Amen! (…)

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