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12 de outubro

Tive um professor de urbanismo que me deixou uma marca indelével. Não somente por ter se fantasiado de Carmem Miranda em um baile de máscaras, mas por ter-nos levado a passear diversas vezes pelo centro de São Paulo, contando sobre a história de determinados edifícios e a respeito da evolução urbana da área central.

Lembro-me de uma vez especificamente, no começo dos anos noventa. Estávamos andando pela rua 24 de Maio, na República, apreciando um projeto de Niemeyer, quando começou a juntar uma muldião atrás da classe. As pessoas paravam, movidas por algum princípio pavloviano, e ficavam olhando para cima, como nós. Mas, diferente dos alunos de arquitetura, os transeuntes buscavam enxergar ou um princípio de incêndio, ou algum candidato a suícida. Em determinado momento, um pedestre apressado perguntou passando por nós: “O que vocês estão buscando?”, no que uma colega brincalhona respondeu: “O corpo do Dr. Ulisses”. Ulisses Guimarães, o senador Severo Gomes, suas respectivas esposas e o piloto do helicóptero que os transportava em Angra dos Reis faleceram em um acidente aéreo em 12 de outubro de 1992. O corpo de Ulisses foi o único a não ser encontrado. A ninfa marinha Ino deve ter chegado tarde para ajudá-lo contra Poseidon…


D. Pedro I - Esboço de Domingo António de Sequeira para a litografia: Juramento da Constituição

A proximidade desta data trouxe à lembrança duas outras. O dia 12 de outubro não é apenas Dia da Criança ou de Nossa Senhora Aparecida, e por consequência feriado nacional. É também a data do aniversário de d. Pedro I, que tão intimamente está ligado à história de São Paulo por ter posto o arrabalde do Ipiranga no mapa. Também existe outra efeméride a ser comemorada e essa mais provinciana, mais pequena, porém não medíocre. Em 12 de outubro de 1814 foi inaugurado o Obelisco da Memória, que se encontra no mesmo lugar há quase duzentos anos. Quem desce no metrô Anhangabaú e sobe as escadas rolantes para chegar até a rua Xavier de Toledo tem ele a sua esquerda, no Largo da Memória. Esse obelisco, ou, como chamavam os antigas paulistas, essa “Pirâmide do Piques”, tão acanhada, suja e pichada, é o primeiro monumento urbano da cidade de São Paulo. Para quem não é paulista pode parecer uma enorme bobagem, mas encontrar vestígios do passado na “cidade que não pode parar” é uma glória – estou falando de vestígios originais, não daquela farsa cenográfica que conhecemos por Páteo do Colégio, mas isso já é tema de outro post.

Foto de Militão Augusto de Azevedo

O Obelisco do Piques foi projetado pelo engenheiro militar Daniel Pedro Müller e executado pelo Mestre Vicentinho. O local assinalava uma das portas de entrada da cidade. Os tropeiros vindos de Sorocaba passavam por lá e comercializavam seus gêneros para os atacadistas da região. No local funcionava o que podemos, a grosso modo, chamar de o primeiro centro de abastacimento da capital paulista. Também por ali transitavam os viajantes rumando para o centro da cidade, cruzando a ponte do Piques sobre o rio Anhangabaú. Saint-Hilaire deixou-nos diversas impressões sobre o local alguns anos depois da inauguração: gostou da fonte, que não existe mais, e do obelisco, e detestou a pousada do tal português Bexiga, que ficava na região e que teria contribuído para dar nome ao bairro.

Após um longo e tenebroso inverno, estou tentando voltar. Histórias para contar é o que não faltam, afinal, uma cidade com mais de quatrocentos anos produziu-as aos milhares. O problema é o tempo para se dedicar a isso! Mas vou tentar não deixar o blog tão abandonado.

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  1. 04/12/2010 às 18:35

    amei saber sobre o Álvares.amei amei eu o amo elaine-11-@hotmail.com (msn)

  2. Neuza Guerreiro de Carvalho
    28/01/2011 às 09:39

    Gostei muito de seu Blog. Vai servir de subsídios para muitos dos meus textos. Logo separo e coloco em um arquivo próprio. continue. Tem que haver continuidade. Neuza

    • 31/01/2011 às 18:36

      Olá Vovó Neuza, agradeço muito a re-visita! Fico bastante honrado em lhe servir de fonte, e mais honrado ainda se citar de onde tirou as informações para os seus próximos textos. O Blog está mais devagar do que eu gostaria, mas é por uma boa razão, em abril deve ser o lançamento de um livro meu sobre história. A senhora já está na lista de convidados! Um forte abraço, Paulo

  3. Fatima Antunes
    22/01/2014 às 23:16

    Caro Paulo,
    Interessantíssimos os dados e fatos que você traz sobre o passado de São Paulo.
    Faço uma pesquisa sobre o Obelisco do Largo da Memória e gostaria de saber quais fontes consultou para chegar à data de inauguração do monumento, que você afirma ser 12 de outubro de 1814.
    Abraço
    Fatima

    • 23/01/2014 às 07:17

      Olá Fátima, foi num ofício, agora não me recordo se foi nas Atas da Câmara ou no Registro.

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