Início > Personagens da História Paulista, São Paulo, Sem categoria, Tradições Paulistanas > O dia de finados: a marquesa de Santos é pop

O dia de finados: a marquesa de Santos é pop

Regina Cascão, do Colégio Brasileiro de Genealogia, todo ano, à época do dia de finados, envia para a GenealBr, uma lista de genealogia da qual participo, uma bonita mensagem sobre as três mortes do ser humano, que reproduzo em parte abaixo:

“No México existe a crença de que cada pessoa morre três vezes. A primeira é no momento em que suas funções vitais cessam. A segunda é quando o seu corpo é colocado na tumba. A terceira acontece em algum momento no futuro, no qual o nome do falecido é pronunciado pela última vez. Aí então a pessoa realmente morre.” (Para ver o texto origial clique)

Miniatura retratando a Marquesa de Santos (col. particular)

Há exatos 143 anos, em 3 de novembro de 1867, falecia no Palacete de Carmo, vizinho ao Pátio do Colégio, no centro de São Paulo, Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos. Se os mexicanos estiverem certos, a marquesa não terá com que se preocupar durante sua eternidade! Soube no fim de semana que Paula Lavigne irá produzir um filme sobre a ilustre paulistana, e hoje li que Rosi Young afirma que ela é quem vai transportar para a tela a história de Domitila. Faço votos para que alguém realmente faça, e que a película não chova no molhado sem acrescentar novidades sobre uma das principais figuras femininas do Primeiro Reinado.

Além desse futuro filme, a Geração Editorial relançou no ano passado o Marquesa de Santos, do Paulo Setubal, e sei, de fonte bastante fidedigna, que um novo livro sobre d. Pedro I e a Marquesa de Santos será lançado no ano que vem, tranzendo muitas novidades sobre os amores imperiais do primeiro governante do Brasil independente.

Espero que alguém, além de Maria Fernanda Cândido na belíssima palestra produzida pela Casa do Saber para a exposição sobre Domitila no ano passado, aborde as diversas facetas dessa mulher.

Pistoleira, alpinista social, canalha, ela já foi chamada de tudo um pouco, mas quem realmente foi Domitila? Uma mulher, como diversas outras, que se viu nas graças de alguém poderoso que a amou a ponto de elevá-la.

Em 1819, após ter sido esfaqueada em São Paulo pelo primeiro marido, alguns dizem por traição, outros porque ele era um mau-caráter que fazia ela e os filhos passarem necessidades, Domitila resolveu se separar.  Um escândalo para a época, mas não para os Toledo Ribas e nem para os Canto e Melo, pois a tia materna também era uma divorciada. A briga que se seguiu pela guarda dos filhos a levou a pedir intercessão de d. Pedro I, que estava em São Paulo em agosto de 1822. Apaixonaram-se e… bem, aí ele chamou-a para morar no Rio de Janeiro e manteve praticamente uma segunda família além da oficial, com Domitila ficando grávida praticamente junto com a imperatriz Leopoldina diversas vezes, tanto que o único filho homem que d. Pedro teve com a marquesa tinha diferença de dias com o futuro Pedro II. Vivos desse relacionamento só sobraram duas meninas, Isabel Maria, Duquesa de Goiás, e Maria Isabel, Condessa de Iguaçu por casamento (OK, eles não foram criativos). Isabel Maria foi mandada para ser educada em Paris, com cinco anos. Belinha, como Pedro I a chamava, era a sua filha preferida. Casou-se na nobreza alemã, onde deixou uma grande descendência. A outra filha, Maria Isabel, epilética como o pai, nasceu após o banimento da mãe da corte e foi criada por Domitila em São Paulo. Casou-se com um filho do Marquês de Barbacena, o mesmo que trouxe a bela e virgem princesa alemã Amélia de Leuchtenberg, de 17 aninhos, para ser nossa segunda imperatriz.

Detalhe do túmulo da Marquesa de Santos no Cemitério da Consolação, São Paulo

Milhares de pessoas que visitaram seus parentes ontem no cemitério da Consolação, em São Paulo, devem ter rezado na capela, que fica praticamente na frente do túmulo em que jazem os restos mortais de Domitila. Mas poucos sabem que é à marquesa que São Paulo deve a edificação dessa capela. No seu testamento, além de lembrar-se de dar alforria aos escravos e providenciar que os filhos cuidassem deles, de ajudar seus parentes e doar dinheiro para os pobres que não solicitavam esmolas, ela também deixou determinada a doação de dinheiro para a capela do novo cemitério. Como história é para os que têm memória, ou que gostam de determinado assunto, acho que vou entrar com uma reclamação no Ministério Público (está na moda) para que a Prefeitura seja obrigada a tirar aquela placa falando que Domitila foi a doadora das terras para constituir o cemitério da Consolação. Além de paulista não gostar de sua história, ainda a Prefeitura contribui com a situação contando de forma errada!

Será que a eleição de Dilma Rousseff como primeira presidente do Brasil fará com que os olhos dos brasileiros voltem-se para as suas figuras femininas do passado? É torcer!

Anúncios
  1. Paulo Ribeiro
    09/11/2010 às 15:09

    Conheci hoje seu blog, muito interessante, parabéns. Gostaria de saber qual a versão correta para a historia de que foi Domitila que doou as terras onde foi feito o cemitério da Consolação…obrigado.

    • 09/11/2010 às 16:56

      Olá Paulo. No testamento de Domitila consta apenas o seguinte relativo ao cemitério: “Declaro que deixo para edificação ou alfaias da capela do cemitério que se está erigindo na Freguesia de Santa Efigênia com a invocação de Nossa Senhora dos Aflitos quatro contos de réis; e se aconteça que mude-se o cemitério para outro lugar antes de ser empregada esta quantia, o meu testamento não deixará de aplicar este legado na capela que for ereta em outro cemitério que se construir ainda que seja em outra freguesia e com outra invocação.” Além dessa passagem no testamento não existe nenhum outro documento pesquisado, no Departamento Patrimonial da Prefeitura, no Arquivo Histórico Washington Luís e em outras instituições com qualquer referência a terras que pertenceriam a marquesa ou doadas por ela para a construção do Cemitério. Somente vinte anos após a morte de Domitila é que aparece nas atas da Câmara, em 15 de novembro de 1887 novamente alguma referência a seu respeito e ao cemitério da consolação, existe uma espécie de prestação de constas a respeito do que foi feito com o dinheiro, o que foi comprado, as estátuas, as dorações que foram realizadas, etc. Segundo alguns documentos encontrados parece que o terreno onde está edificado o cemitério pertenceria a um senhor chamado Marciano Pires de Oliveira que em 5 de janeiro de 1856 mandou avisar a Câmara que cederia a quantidade de terreno de seu pasto na metragem que fosse necessária para a construção do cemitério, desde que recebesse a correta indenização. Espero ter esclarecido. Abs, Paulo

  2. Paulo Ribeiro
    11/11/2010 às 12:51

    Muito obrigado…esclareceu sim, parece ser um daqueles fatos onde entre a realidade e a lenda a história ficou com a lenda. Virei leitor do seu blog, sou colecionador de livros sobre a historia de São Paulo, adoro o tema. Abraço, Paulo.

  3. Marcelo Freitas
    27/12/2010 às 16:35

    Quantos filhos vivos a sra Marquesa de Santos teve com seu primeiro marido, o tal Alferes?

    A Baronesa de Sorocaba, então irmã da Marquesa de Santos, não aplicara o golpe do baú no imperador D. Pedro I, ao fazê-lo reconhecer seu filho assim como fora feito com as 2 filhas da Marquesa, condessas Maria Izabel e Izabel Maria? Como seu marido, o então Barão de Sorocaba aceitou esta situação? Ou pode-se sugerir golpe mesmo?

    • 27/12/2010 às 18:57

      Olá Marcelo, obrigado pela sua visita. Quanto as suas questões:

      1 – Ela teve três filhos com o Felício, os que “vingaram” foram a Francisca Pinto Coelho de Mendonça e Castro (1813-1833) e o Felício (1816-1879)

      2 – Temos que ter em mente que na época, ser “corno” do rei poderia ser entendido por alguns como um honra, e até que não era um péssimo negócio. O Boaventura Delfim Pereira, marido da Maria Benedita, irmã da Domitila, ao reconhecer como seu o filho que dom Pedro tivera com sua esposa entrou para o serviço da casa imperial e chegou a ser administrador de todas as propriedades de Pedro I no Brasil, além de ter ganho o título de Barão de Sorocaba. Quanto ao reconhecimento da criança, foi bem diferente das meninas que Pedro I teve com Domitila, essas foram reconhecidas em vida. A primeira demorou dois anos, a segunda foi no ato do batismo, e a terceira, a futura Condessa de Iguaçu ele deu indícios que reconhecia como filha e acabou mencionando ela no testamento, onde expressava seu desejo que a menina fosse mandada ser educada na Europa junto com a Duquesa de Goias. Existe uma carta do Pedro I, de abril de 1830, que está no Arquivo Histórico do Museu Imperial em Petrópolis onde ele menciona todos os filhos que teve durante a vida e fala uma frase interessante a respeito do Rodrigo, filho que teve com a Sorocaba: “aquele que foi feito (…) por um motivo bem simples, que a mãe não era burra” Realmente, foi bastante esperta, e o Pedro, ou Demonão, como assinava suas cartas para a Marquesa, acabou se transformando no amante da irmã da amante!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: