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Avenida Paulista, ou rua das casas fatiadas

Quando criança adorava ver as casas fatiadas, como me referia na época ao surto demolitório que grassava na Avenida Paulista, já faz mais de trinta anos. Nunca vou me esquecer de um casarão cortado ao meio onde podia-se ainda ver o restante de um banheiro, os ladrilhos hidráulicos e uma velha banheira, praticamente pendurada pelo encanamento, uma vez que parte do piso já havia desaparecido.

As residências unifamiliares neomouriscas, neogóticas, neo-qualquer coisa do início do século, patrocinadas por famílias, em sua maioria, neorricas, iam desaparecendo e cedendo espaço aos arranha-céus envelhecidos que ainda estão lá, aguardando a sua hora de ser jogados ao solo como seus antecessores no constante constrói e demole de nossa cidade, que faz com que uma geração não conheça os lugares que foram caros e familiares à geração anterior.

Uma de suas travesssas, a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, lembra um dos seus idealizadores. Eugênio de Lima, junto com João Borges de Figueiredo e João Augusto Garcia, adquiriram parte da antiga Chácara do Capão e no espigão traçaram a Rua Real Grandeza, primeiro nome da Paulista. Inicialmente a avenida, com leito de terra batida, era dividida em três faixas viárias, separadas por plátanos, ipês e magnólias. Essas pistas eram ocupadas por carruagens, bondes puxados a burro e cavaleiros, respectivamente.  Difícil imaginá-la assim hoje em dia, não? Eu ainda peguei a fase das azaleias…

Regularizada e já com lotes demarcados, foi oficialmente inaugurada em 8 de dezembro de 1891. Notadamente um local da elite, receberia um parque e um belvedere em que se pretendia preservar a vista que se tinha em direção ao centro da cidade. Em 1894, proibiu-se o trânsito de gado pela avenida, assim como os enterros que seguiam para os cemitérios do Araçá e da Consolação, regra quebrada no enterro do conde Matarazzo, em 1937, morador da Paulista.

Leis da década de trinta proibiam a construção de edifícios de apartamento em sua extensão. Vinte anos depois, em 1952, elas seriam abolidas, durante a gestão do prefeito Armando de Arruda Pereira, quando no local passaram a ser permitidos edifícios assistenciais, hospitalares, educacionais, cinemas, teatros e órgãos de imprensa. Também nessa década o antigo belvedere, em cujos salões, copiados de Versalhes, madame Poças Leitão ensinava os jovens a dançar, seria demolido para o início das obras do Museu de Arte de São Paulo.

Da sua época bucólica e estritamente residencial, poucas edificações sobraram, entre elas a famosa Casa das Rosas, projeto de Ramos de Azevedo para a sua filha, logo no começo da avenida, próximo do Shopping Paulista. Outra, mais antiga do que essa, que abrigou no final dos anos noventa o Mercado Mundo Mix, próximo do Conjunto Nacional, também continua de pé. Mas quase todas descaracterizadas e também fatiadas, afinal, o terreno delas era bem maior, e uma das ampliações da avenida cortou não só o terreno onde esses velhos exemplares arquitetônicos sobrevivem como até mesmo parte do subsolo de prédios dos anos sessenta.

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