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Equívocos sobre a Marquesa de Santos na Revista de História

A Revista de História da Biblioteca Nacional, trouxe na edição de janeiro de 2011 dentro do tema (eu ia colocar retranca mas me disseram que é técnico demais…) “Dossiê Amantes” uma matéria chamada “Traição aprendida no berço real”, onde são narradas as diversas aventuras amorosas de d. Pedro I, em especial com Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, com quem se relacionou por quase oito anos. Fiz uma lista dos equívocos que encontrei e mandei para lá. Foram todos bastante simpáticos e disseram que iriam selecionar algumas das falhas apontadas e publicar na sessão de cartas, enquanto isso não ocorre, publico aqui na íntegra os equívocos cometidos na matéria:

– D. Pedro I não se fixava com nenhuma amante “até ir a São Paulo, em setembro de 1822, quando proclamou a independência”. Na realidade d. Pedro partiu do Rio de Janeiro em 14 de agosto, entrando na cidade de São Paulo em 25 do mesmo mês.

– “Ela (Domitila) levara uma facada do marido certa manhã em que voltava, às escondidas, para casa”. Domitila foi esfaqueada pelo marido não uma, mas duas vezes, uma na coxa e outra na virilha, próximo da fonte de Santa Luzia, que se localizava nas imediações de onde hoje se encontra a pequena capela de Santa Luzia e do Menino Jesus de Praga, na rua Tabatinguera, 104, no centro de São Paulo. O marido tentou acusá-la de adúltera, e ela foi defendida pelo capitão-general de São Paulo, espécie de governador da época, João Carlos de Augusto de Oyenhausen, em carta para d. João VI. Oyenhausen afirmava que Felício, então marido de Domitila, era um homem violento e desumano, que deixava a esposa e os filhos passarem necessidades.

– “Logo após tornar-se imperador, D. Pedro deixa de lado a discrição, transformando Titília, como a chamava, numa ‘teúda e manteúda’ que é apresentada à Corte e instalada em uma casa, atual Museu do Primeiro Reinado, ao lado do Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro”. D. Pedro foi coroado Imperador do Brasil em dezembro de 1822. Domitila chegou ao Rio de Janeiro no primeiro trimestre de 1823, indo morar em Mata-Porcos, onde hoje se localiza o bairro do Estácio. D. Pedro perderia a discrição por volta de 1826, com a viagem a Bahia levando Domitila e o reconhecimento da paternidade da primeira filha que teve com ela. Nesse ano, Domitila muda-se para a propriedade que ficou conhecida como Palacete do Caminho Novo do Imperador, atual Museu do Primeiro Reinado, distante 900 metros da residência do imperador em São Cristóvão.

– Sobre o incidente do Teatrinho Constitucional Fluminense, ele ocorreu em 1824, diferente do que sugere a sucessão de datas onde o acontecimento está inserido, reforçado pelo fato de chamar Domitila de “Marquesa”, título só recebido em 12 de outubro de 1826. Um incidente mais grave e de maior repercussão, não informado no artigo, foi o modo como Domitila foi destratada pela Baronesa de Goytacazes ao tentar assistir missa na tribuna reservada às damas do paço na Capela Imperial, em 1825. Esse incidente fez com que fosse nomeada, por d. Leopoldina, como Dama Camarista da Imperatriz, cargo que lhe conferia, além do direito de usufruir da tal tribuna, precedência sobre as demais damas de honra.

– Isabel, a “Bela” ou “Belinha”, como carinhosamente chamava d. Pedro I a primeira filha dele com Domitila, só passou a se chamar Isabel Maria após 1826, quando o pai a reconheceu oficialmente.

– “Tudo cheirando – como disse um biógrafo – a lençóis molhados e em desalinho”. Alberto Rangel, o principal biógrafo do casal de amantes, na realidade refere-se ao pseudônimo “Fogo-Foguinho”, usado por d. Pedro, como “cheirando a lençóis usados, num leito em bem pouca ordem”. (RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, Nova Fronteira, 1984. p. 45)

– “Na presença daquela que é a causa de todas as minhas desgraças” é um trecho da provável última carta de d. Leopoldina, que teria sido ditada para a marquesa de Aguiar. A carta foi endereçada a sua irmã, Maria Luísa, ex-imperatriz dos franceses, e não para o pai, o imperador Francisco I da Áustria, como consta no artigo.

– “O secretário da imperatriz escreveu, em fevereiro de 1826, ao chanceler austríaco (…) para reprovar a ‘fatal publicidade da ligação’ (entre d. Pedro e Domitila)”. O autor da carta, ou melhor, do relatório, foi Philippe Leopold Wenzel, barão de Mareschal (1784-1851), diplomata austríaco encarregado de negócios da Áustria, no Brasil, de 1819 a 1826 e ministro plenipotenciário em 1827, a quem d. Leopoldina dificilmente confiaria o cargo de secretário particular. Em carta de 6 de abril de 1823, a imperatriz pediu ao barão von Stürmer: “(…) seria bom chamar de volta o barão Mareschal, que desfruta aqui de péssima reputação devido a suas opiniões intrigantes e levianas.” in KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz. São Paulo: Estação Liberdade, 2006. p. 419

– “Reunia em São Cristóvão (…) filhos legítimos e ilegítimos, seus sete irmãos, sobrinhos e cunhadas“. Como explicado anteriormente, no início do relacionamento entre Domitila e d. Pedro, esta morava em uma chácara em Mata-Porcos, junto com seus filhos e seus pais. Sua irmã Ana Cândida, seu cunhado Carlos Maria Oliva e sua avó materna moravam no Engenho Velho; a outra irmã, a baronesa de Sorocaba, vivia com a família em uma casa no começo da ladeira da Glória; seu irmão mais novo, Francisco de Castro, ajudante de ordens de Pedro I durante sua viagem a São Paulo em 1822, morava nesta cidade, onde assumira um posto militar; seus irmãos mais velhos serviram ao Exército durante a Guerra da Cisplatina e chegaram a se estabelecer em Porto Alegre.

– “Grávida do imperador pela quarta vez – a filha Maria Isabel de Alcântara Brasileira nasceu no dia 13 de agosto”. Na realidade essa foi a terceira filha do casal de amantes, que morreria de meningite um ano depois. A quarta filha deles recebeu o mesmo nome da criança falecida. Maria Isabel, futura Condessa de Iguaçu, nasceu em São Paulo em 28 de fevereiro de 1830, após o banimento de Domitila da corte para que d. Pedro pudesse se casar

“Ainda como viscondessa, o imperador chegou ao cúmulo de elevar Domitila a dama camarista de sua esposa, D. Leopoldina”. Na realidade foi o contrário, primeiro Domitila foi nomeada Dama Camarista em 4 de abril de 1825. Ela recebeu o título de viscondessa de Santos em 12 de outubro do mesmo ano.

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