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Casamento Matarazzo na Av. Paulista – 1945

As histórias sobre a família Matarazzo são uma parte importante do folclore urbano da cidade de São Paulo. O casamento, em 1945, de Filomena Matarazzo, a filha do conde Chiquinho Matarazzo, neta do patriarca, rendeu diversas histórias por toda a pompa e circustância da festa realizada na antiga mansão da família na Avenida Paulista. O jornalista Joel Silveira, então repórter dos Diários Associados, capitaneado pelo arqui-inimigo do conde Chiquinho, o jornalista Assis Chateaubriand, produziu uma das mais irônicas críticas sociais a respeito do evento: “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”. Mas resolvi postar uma outra crônica sobre o ocorrido. Foi escrita pelo jornalista Frederico Branco e encontra-se no seu livro “Postais Paulistas”. Só nos restam esses relatos a respeito da festança, pois o próprio cenário foi destruído pelos herdeiros do conde durante o governo da prefeita Luiza Erundina. Muito escândalo na época sobre o ocorrido, mas, na realidade, artisticamente falando, não houve perda. A mansão era um horror fascista, um prédio neo-neoclássico aguado, com um arremedo de monumentalidade que faria a simpática Villa Virginia, primeira residência dos Matarazzo na Paulista, atirar-se no Vesúvio de raiva. O responsavel pelo crime, ou melhor, pelo projeto, foi Marcello Piacentini, architetto del regime de Benito Mussolini, Il Duce. Sim, os Matarazzo não tinham apenas poder econômico, apitavam na política aqui e na Itália fascista, onde seus parentes ocuparam cargos políticos. Piacentini foi o “culpado” por outros prédios da família na cidade. Também é dele o edifício que fica no viaduto do Chá, antiga sede das Industrias Reunidas Franscisco Matarazzo, ocupado atualmente pela Prefeitura; e o horrendo palácio dos Bandeirantes, que foi construído pelos Matarazzo para ser uma faculdade que levaria o seu nome, em velha e eterna rixa com a família Crespi, criadores do colégio Dante Alighieri. Com as dificuldades financeiras, que acabaram levando à falência do grupo na década de 80, esses edifícios foram repassados ao governo do estado para o pagamento de impostos atrasados.

Mas já falei muito. Com vocês, a engraçada crônica de Frederico Branco:

Por pouco, quase o papa

Quarenta e tantos anos antes da prefeita ter quebrado a cara na mansão dos Matarazzo, já nos conhecíamos há tempo. A mansão e eu, claro, que naquela altura d. Erundina ainda estava longe, acho que nem pensava em converter o Sul Maravilha numa extensão do seu Agreste. Eu conhecia a mansão de vista, simplesmente por estar situada na rota de minha casa, na esquina da Paulista com a Pamplona, onde o Jardim Paulista 40 fazia uma conversão à esquerda, antes de precipitar-se ladeira abaixo. A mansão estava lá, simplesmente. Se nunca me fez bem, também nunca me fez mal. E uma vez até me divertiu.

Foi quando se casou a filha do conde. Como nunca fui chegado às colunas de fofoca social, nem sabia do tal casamento – ao contrário de meu irmão, o Luiz Carlos, que era colega do “condinho” no Eduardo Prado e ganhou convite para o casório, com direito a ceia, bebericos diversos e uma canetinha folheada a ouro.

Eu não estava nem ali. Só percebi que alguma coisa estava acontecendo na esquina da Paulista com a Pamplona quando o Jardim Paulista em que eu voltava para casa ficou preso num congestionamento de trânsito, na altura da Eugênio de Lima. Pensei logo em desastre. Descarrilamento, trombada. E, como sempre fui um pouco curioso, saltei do camarão e prossegui a pé pela Paulista.

Bem antes da Pamplona já deparei com uma multidão. Havia gente às pencas, concentrada na frente da mansão e no lado oposto, junto à casa romana da irmã do conde. No meio da Avenida, nas calçadas e até sobre as árvores. Na base do apito, boas maneiras e autoridade exercida em azul, os guardas-civis mantinham a custo caminho aberto para os convidados que chegavam. Não era fácil, pois o povão estava aceso. E não era para menos. Afinal, nem todo dia se casava em São Paulo uma filha de conde. Dizem até que conde de verdade.

Empurra daqui, vara dali, acabei encontrando um lugar do outro lado da Avenida, dividindo a mureta da casa da irmã do conde com outros curiosos. Meio apertado, mas da mureta eu tinha uma razoável visão dos portões da mansão, bem na esquina, abertos por lacaios agaloados a cada ilustre convidado que chegava em automóvel de fino trato.

Na calçada, na minha frente, estavam os que tinham chegado muito antes: mães com crianças de todas as idades, senhores e senhoras em roupas de domingo, rapazes e mocinhas. Quase todos, grandes e pequenos, empunhando bandeirinhas ou flâmulas feitas em casa com as cores da Itália e do Brasil. Não era preciso ser Sherlock para constatar que eram famílias do Bexiga, que começava praticamento nos fundos da mansão dos Matarazzo, descendo as encostas da Sacadura Pequena. Sob a garoa fina, estavam ali festejando, aclamando a chegada de cada convidado como se o casamento fosse de parente próximo, a ser alegremente comemorado.

Bem ao meu lado, sobre o murinho, um senhor de boné de lã, metido num sobretudo de gola de veludo preto, já meio puído mas ainda de corte elegante, atuava como uma espécie de locutor de campo, danto conta, à sua audiência cativa na calçada, de quem ia chegando para cruzar os portões da mansão. Fazia frio e ele garantia seu aquecimento interno com a garrafa que tirava do bolso do sobretudo. Acho que já tinha exagerado um pouco na garrafa, pois exagerava outro tanto na locução. Mais de uma vez, por exemplo, anunciou solenemente a chegada do governador, proclamando em bela voz de barítono:

– Il governatore. Evviva il governatore!

Pondo de lado pernas e asas de frango para empunhar as bandeirinhas e flâmulas, os que estavam abaixo da mureta, na calçada, reagiam com entusiasmo:

-Evviva!

Sempre atento a quem chegava, compenetrado da importância de seu papel de arauto, o locutor de campo não perdia nenhum dos ilustres convidados que chegavam, designados por seus títulos reais ou imaginários, comendadori, generali, gentiluomini, cavaliere-ufficiali e não sei mais quantos, todos devida e longamente aplaudidos pelos circunstantes.

No fim, o locutor de campo acabou por exceder-se de fato. Talvez inflamado pelo próprio entusiasmo. Talvez pelos goles que tomava da garrafa para fazer frente ao frio. O fato é que, quando divisou no assento tradeiro de um carro que chegava aos portões uma figura de solidéu purpurino, não teve dúvida em proclamar:

– Evviva il papa!

A comoção foi geral e instantânea. Vi gente que se ajoelhava na calçada, senhoras que se persignavam, pais que erguiam nos braços os filhos pequenos. No empurra-empurra que se seguiu, todos querendo ver o papa que teria chegado para o casamento da filha do conde, acabei sendo empurrado da mureta, com o próprio locutor de campo. Foi a custo que consegui chegar à Pamplona e escafeder-me ladeirão abaixo. Só sosseguei quando me vi a salvo, no reduto seguro do Bar e Bilhares Benfica.

Ainda me lembro que um dos sinuqueiros de plantão notou que eu estava muito pálido e me perguntou se eu tinha visto alguma alma do outro mundo. Quase respondi que não, que tinha visto o papa. Mas não disse. Jogador de sinuca geralmente não tem senso de humor. E o tal estava de taco na mão.

Tomei um café com conhaque, fui dormir. E nunca mais pensei na mansão dos Matarazzo, até d. Erundina declarar guerra à própria.

Frederico Branco: Postais Paulistas

Mansão Matarazzo parcialmente demolida

 

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  1. Neuza Guerreiro de Carvalho
    21/02/2011 às 14:47

    Boa tarde
    Acabei de dar uma passada pelo seu blog. É muito rico e cheio de curiosidades. Só um conselho: poste um ou no máximo dois de cada vez. Assim, é uma over dose que acaba matando.dá paa ler um por vez e depois passa o tempo. mesmo assim, lí todos. Muito bons.

  2. Geraldo
    07/07/2011 às 20:00

    amigo, não foi a Erundina que derrubou o solar, foram seus herdeiros…a distinta prefeita tentou salvá-lo. até os faróis da paulista sabem disto.

    um abraço,

    Geraldo

    • 20/07/2011 às 12:42

      Olá Geraldo, obrigado pela sua visita. Eu disse, no meu texto, que foram os herdeiros do Conde. A Erundina queria transformar a casa em museu dos operários, ou algo do gênero.

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