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A Revolução de 1932 vista por um estrangeiro

Mea Culpa! Estou deixando esse blog abandonado, mas não por falta do que escrever, mas sim de tempo para isso. A biografia da marquesa de Santos já está pronta e entregue, a editora está trabalhando em sua edição, que deve sair ainda este ano, se os astros entrarem na quadratura perfeita e os burrocratas municipais permitirem… É preço que o autor, vulgo eu, ansioso como só, paga pelo ineditismo de algumas informações, não tão relevantes para a biografada em si, mas relevantes para as personalidades envolvidas no primeiro período da vida da Titília.

Mas nem tudo é “roda presa”, como dizia o meu avô, além do desabafo tenho também notícias boas: dia 19 de julho, quinta-feira estarei junto com o Carlos Beutel e com o Laércio Cardoso de Carvalho em mais uma Caminhada Noturna onde vou contar mais um pouco da vida da Marquesa de Santos em São Paulo, andando pelos locais do centro da cidade relevantes à história dessa mulher. Na edição de julho da Revista de História da Biblioteca Nacional saiu um artigo que eu mandei para eles no ano passado:

E agora vamos ao que interessa realmente, ao tema do título deste post. Uma amiga minha, Claudia Thomé Witte, recentemente me mostrou uma carta que seu avô Augusto Thomé, um imigrante português, enviou para o irmão, José Thomé, na Europa.  Augusto, recém-casado, mandava notícias da vida e da Revolução Paulista recém-terminada. Interessante ver como esse imigrante, sem vínculo algum com o passado de São Paulo, interpretou o que houve por aqui. Abaixo seguem alguns trechos:

“São Paulo, 20 de outubro de 1932

Meu caro Augusto

Que a ventura e a saúde continuem sendo constantes moradoras de sua casa. Graças a Deus, com minha Mariquinha, vamos vivendo bem.

Para variar… desculpa a demora desta: recém-casado, a princípio, depois a Revolução Paulista, que nos isolou do mundo de 9 de julho a 10 de outubro. Gostaria de te descrever o que foi este sublime movimento de civismo, mas muitas folhas de papel, muito tempo e todas as minhas faculdades descritivas não dariam sequer para os preâmbulos; limito-me a te dizer que os 7 milhões que povoam este grande Estado de S. Paulo fizeram uma Revolução na verdadeira acepção do termo, e só deixaram de sustentar o fogo da defesa de seus ideais quando a ultima das traições foi superior a todo o seu formidável esforço.

Foram 3 meses de luta, na qual participaram nacionais e estrangeiros, como se todos formassem um só cérebro e uma só ação. S. Paulo queria, e quer, o restabelecimento do regime constitucional. As ditaduras faliram e não passam, onde já passaram, de manifestos fracassos e de perfeitas expressões de tudo menos de civilização. Uma numerosa facção do exército, tal e qual como na nossa Pátria, apoderando-se do Governo, não o quer mais deixar. Regime de Espada sem balança. A sentença ditada pelo arbítrio sem passar no prisma da justiça. Força sem lei – despotismo. Foi contra isto que o mais adiantado dos Estados da Federação se levantou, tendo sido vencido pela traição de uma parte das forças em operações, justamente aquela a quem mais cabia o dever de defender o Estado a que pertençe: a Força Pública (Polícia) composta de um efetivo de 15.000 homens e que no infame gesto arrastaram mais de 80.000 voluntários que, empolgados pelo patriotismo, a ela estavam incorporados. 5.000 baixas nos soldados constitucionalistas. 12.000 nos ditatoriais. (…) É minha opinião que as coisas vão melhorar no Brasil, particularmente no Estado de S. Paulo e limites, após a convulsão interna porque vimos de passar. As necessidades desta verdadeira guerra, com todas as suas custossíssimas (?) despesas, obrigaram a circulação monetária do numerário já existente e, ainda, do que foi emitido, sendo que o primeiro estava retido nos bancos devido a instabilidade dos negócios e a deficiência de transações. Cidades que foram totalmente, e outras parcialmente, destruidas precisam ser, de novo, alevantadas; consequentemente, teremos trabalho para os operários e movimento para o comércio e a industria (S. Paulo é o maior centro industrial da América do Sul). E, conquanto esta atividade, que já se inicia, não seja propriamente essencial, é, pelo menos, aparente, o que, afinal, não deixa de ser atividade e esta, naturalmente, traz a abundância.

Não importa, para os que têm, sua residência fixa no país, que a moeda fique, como forçosamente ficará, desvalorizada. O que importa é que haja essa moeda em circulação.”

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  1. Maria de Jesus
    05/09/2012 às 11:16

    Meu caro Rezzutti, ao ler o seu artigo “A Reolulção de 1932 vista por um estrangeiro” do dia 09/07/2012, percebi que houve um erro de informação. O avô de Cláudia Thomé era o José da Cruz Thomé, foi ele quem escreveu a carta para o irmão Augusto Thomé e não o contrário como descrito. Fiquei muito feliz ao me deparar com este artigo, pois pude resgatar algo concreto para mostrar aos meus filhos um pouquinho do Seu Thomé. Figura que tive a benção dos Céus de compartilhar 7 anos da minha vida como sua funcionária, ele não foi para mim simplesmente m patrão, mas também, um pai e um professor. Pessoa extremamente sensível que se escondia atrás de uma armadura de severidade e austeridade. Ser de uma cultura sem par. Devo muito do que sou a ele e cultuo sua memória quase que diariamente, nestes 32 anos de sua ausência.
    Que a Cláudia saiba disso.
    Maria de Jesus Pereira da Cunha

    • 05/09/2012 às 11:23

      Olá Maria de Jesus, obrigado pelo esclarecimento, envie o seu comentário para a Cláudia, que certamente apreciará a sua lembrança.

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