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Exumação da Família Imperial, ou o término de velhos mitos e início de novos

Com a defesa de mestrado da arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, no Museu de Arqueologia e Etnografia da USP, na última segunda-feira, dia 18 de fevereiro. O Brasil e todo o mundo passaram a ter contato com o trabalho que ela e sua equipe realizaram junto aos remanescentes humanos dos primeiros imperadores do Brasil. D. Pedro I, D. Leopoldina e D. Amélia foram exumados no ano passado e seus corpos e pertences foram examinados.

Diversas descobertas curiosas chegaram ao grande público, como a roupa de gala com a qual D. Lepoldina foi enterrada, o fato de D. Pedro ter sido sepultado como oficial do exército português, e, consequentemente, sem qualquer comenda brasileira, nem mesmo a Ordem da Rosa, por ele criada especialmente para sua segunda esposa, a Imperatriz Amélia de Leuchtenberg. Mas, claro, que, para grande parte das pessoas, uma imagem que nunca mais será esquecida é da múmia da Imperatriz Amélia. O brasileiro é um povo bem humorado, já vi no Twitter algum gaiato dizendo que desde 1876 (data errada da morte da segunda Imperatriz, ela faleceu em 1873) a segunda esposa é bem mais conservada do que a primeira.

Bem, aparentemente, D. Leopoldina não perdeu seu bebê por conta de alguma surra que D. Pedro lhe teria dado antes de embarcar para o sul, para liderar a Guerra da Cisplatina. Era o Brasil que estava apanhando nessa guerra, não nossa primeira imperatriz. Os exames detalhados na ossada da meiga Leopoldina não mostram indícios de espancamentos que poderiam tê-la levado a óbito. Um mito destruído, implantado pelos detratores de D. Pedro, a menos.

Entre os diveros itens descobertos por Valdirene e equipe, e restaurado com o maior profissionalismo pelo perito forense Valter Diogo Muniz, está um brinco de ouro 18 k  que teria uma pedra de resina. Estranho não ser de pedra preciosa, questionam alguns. Ouro 18 k? Perguntam outros. “Tem bijuteria na 25 de março mais bonita”, ouvi ontem. Bem, pela delicadeza da peça eu arriscaria dizer que é uma peça dada para uma criança. Talvez D. Lepoldina teria recebido essa peça quando ainda era pequena e trazida junto com sua mudança para o Brasil. A pesquisadora Claudia Witte tem uma hipótese interessante que compartilhou comigo esses dias. Ela contou duas coisas que eu desconhecia por completo. Primeiro que tanto na Europa quanto em outros países jóiais são sim feitas com ouro 18k, não era o mundo todo que tinha a quantidade de ouro que tinhamos no Brasil para termos sempre jóias feitas com 24k, e quanto a resina, eu gostaria muito que os pesquisadores verificassem de que resina se trata. Pois, se for ambar, essa peça tem mais história do que ser uma mera “bijuteria”.

É comun em países germânicos como Suíça, Alemanha e Áustria, até nos dias de hoje, o costume de se presentear uma criança com peças de ambar, colares e brincos são os mais frequentes. Segundo essa tradição, o ambar seria uma pedra que protegeria a criança de ingerir algum alimento mal preparado ou estragado. A jóia era dada assim que a primeira dentição aflorasse. Nesse momento, a criança abandonava o leite materno e passava a ingerir comida mais sólida, levando a uma preocupação com engasgos e até envenamentos.

Uma das questões por  Valdirene levantadas durante a sua defesa de Tese, e elogiadíssima por todos os professores da banca, é que não se preserva o que não se conhece. Nunca na história deste país – roubando o chavão do ex-presidente Lula – , os três imperadores estiveram tão na mída e na boca do povo, não só aqui como no mundo todo. As opiniões que estão pipocando na imprensa e entre as pessoas em geral, algumas até condenado os trabalhos por conta de “violação de cadáver” etc, fazem parte. Assim como esse texto, que busca contextualizar um brinco que pode ser bem mais do que uma simples e rasteira “biju da 25”

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  1. Beatriz
    27/02/2013 às 14:03

    É verdade, ambar era e é uma pedra comum não só nos países germânicos, como também na Polônia, onde adquiri um pingente de ambar e alguns presentes com a mesma pedra para alguns familiares. Lá se vende aos montes, até mesmo em lugares voltados para turistas.

  2. Beatriz
    27/02/2013 às 14:07

    Estou achando este trabalho interesssantíssimo. Aliás, a alguns dias atrás dei de presente e para estudos, duas obras de meu tio bisavô Paulo Setúbal: As maluquices do Imperador e a Marquesa dos Santos para minha filha. Quem sabe, pelo menos uma jovem, se interesse mais sobre nossa História, mesmo que as obras sejam romanceadas.

    Gostaria de ler mais sobre a Imperatriz Amélia, pois a única biografia que consegui na Biblioteca da Unesp, nos meus tempos de faculdade, há cerca de 28 anos atrás, era uma biografia muito antiga. Depois não encontrei mais nada. Há algum outro livro sobre ela? Ou onde procurar a respeito?

    • 27/02/2013 às 14:17

      Olá Beatriz, obrigado pelos seus comentários. Pois é, está faltando mesmo uma biografia atualizada de D. Amélia, a pesquisadora Cláudia Witte tem trabalhado nisso e, espero que em breve, tenhamos supresas. A última biografia realmente séria sobre D. Amélia, foi escrita por Lígia Lemos Torres na década de 40, chama-se A Imperatriz D. Amélia. Abs, Paulo Rezzutti

      • Beatriz
        28/02/2013 às 11:49

        Oi Paulo. Pode ser esta obra que li. Infelizmente não me lembro da data da edição. Só sei que o livro era pequeno de tamanho e só o encontrei na estante da biblioteca porque sou muito xereta, me empolgo e vou além do que tenho que procurar…rs Agora, o título é o mesmo. Então pode ser. Abs.

      • 28/02/2013 às 11:56

        Oi Beatriz, pela sua descrição “pequeno de tamanho”, definitivamente não é o livro da Lígia Lemos Torres, acho que vc leu o “A Segunda Imperatriz do Brasil: Amélia de Leuchtenberg” da Maria Junqueira Schmidt, que é do final da década de 20, O livro da Lígia é um tijolão.

      • Beatriz
        28/02/2013 às 12:08

        Exato, Paulo! Achava que fosse algo anterior à década de 40. E agora o sobrenome alemão me reavivou a memória. Sehr gut! 🙂 Obrigado! Agora vamos esperar pela obra da Cláudia. Estou curiosíssima com a pesquisa dela. Abs

      • Beatriz
        28/02/2013 às 12:10

        A propósito, existe alguma reedição da obra da Lígia Lemos Torres? Gostaria de ler também. A gente consegue encontrar nas prateleiras da Biblioteca Mário de Andrade? Abs

      • 28/02/2013 às 12:14

        Não Beatriz, o livro da Ligia não tem reedição. Tem na Mário sim,eu já o consultei lá.

  3. 28/02/2013 às 11:43

    Texto interessante, assim como o blogue. Parabéns!
    Apesar de eu não ser fã de monarquias (sou republicano desde criancinha!), espero que cada vez mais os pesquisadores tragam novos dados sobre o passado monárquico do Brasil, ainda não conhecido como deve ser, e alvo de muitos preconceitos e ojeriza.
    No mais, achar que uma peça tem menos valor por não ser de ouro ou pedras preciosas, é índice de uma mentalidade estreita que ainda campeia pelo Brasil. Sorte nossa que os pesquisadores não pensam assim e procuram o valor histórico dos objetos.

  4. Leonardo de Paula
    08/05/2013 às 22:46

    Tem também outra coisa que, de algum modo pode ter ficado implícita no fato de, apesar de vestida com os trajes de gala imperial, ela não ter sido enterrada com jóias: como se sabe, por convicções religiosas, e depois, por falta de dinheiro mesmo, ela nunca foi opulenta. Pode ser que, até depois de morta, ela fosse apresentada com a simplicidade que lhe foi característica.

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