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Festa de Aniversário de 200 para a Imperatriz Dona Amélia, de corpo presente.

Alguns jornais, revistas e programas de televisão já falaram bastante sobre a exumação e conservação dos remanescentes humanos dos primeiros Imperadores do Brasil na Cripta Imperial, trabalho coordenado pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel. Porém, como nenhum jornalista estave presente durante os trabalhos, somente algumas curiosidades foram reveladas até agora. Uma delas, sem dúvida a história mais inusitada, o São Paulo Passado dará com exclusividade.

Os apaixonados pela história paulista devem já ter ouvido falar sobre uma outra comemoração que se tornou lendária. Ela ocorreu quando o então Governador Adhemar de Barros deu um banquete para 50 pessoas dentro da barriga do cavalo do Monumento ao Duque de Caxias. Uma outra que deve entrar para a lenda urbana paulista foi a que ocorreu na tarde de 31 de julho de 2012 no Ipiranga.

Cláudia Witte, biógrafa de D. Amélia

Cláudia Witte, biógrafa de D. Amélia

Enquanto grupos monarquistas preparavam-se para jantares no Rio de Janeiro e em São Paulo em homenagem ao aniversário de 200 anos da Imperatriz Amélia de Leuchtenberg, na cripta do Ipiranga, uma comemoração muito mais despojada, animada e inusitada ocorria. Velinhas rosas (uma lembraça da Ordem da Rosa e da condição feminina da aniversariante) ornavam um belo e suculento bolo de chocolate vindo da Padaria Maria Louca. Afinal, não é avó que geralmente é a boleira da família? Também tinha brigadeiro, sanduíche de metro e outros acepipes, além de refrigerante, tudo para homenagear a Imperatriz Amélia, de corpo presente. Obviamente, ela foi respeitada, e o ataúde não foi aberto, até porque seria desconfortavel participar dos comes e bebes com máscaras e luvas cirúrgicas cobrindo rostos e mãos.

Além de alguns membros da equipe da Valdirene Ambiel, como eu, Paulo Rezzutti, e o hérculeo Célio Jr., que suou muito para “tirar a Amélia do buraco” (falaremos sobre esse assunto em outra matéria), estavam presentes também os funcionários da cripta, tanto os seguranças quanto o pessoal do educativo, e a “arquiteta” dessa festa toda, a pesquisadora Cláudia Witte, biógrafa da Imperatriz Amélia.

“A abertura de dona Amélia foi poucos dias antes de seu aniversário de 200 anos. Eu já havia comemorado o dia de seu aniversário em casa, com bolo e velas, em outros anos, mas dessa vez, além da data especial, havia a possibilidade de tê-la presente, era imperdível!”, afirma Cláudia Witte. A biógrafa ainda providenciou cópias coloridas de retratos de todos os familiares de Dona Amélia, incluindo dos locais na Europa onde a ex-imperatriz viveu. “Cantamos parabéns e prestamos uma homenagem nada oficial, mas de coração, para ela. Só não tive coragem de levar minha filha de 4 anos porque fiquei com medo de ela contar na escola que tinha cantado parabéns para uma múmia e mandarem me internar!”, confessa.

VAldirene Ambiel e Cláudia Witte durante a exumação de D. Amélia

VAldirene Ambiel e Cláudia Witte durante a exumação de D. Amélia

Uma outra emoção muito grande pela qual a biógrafa de Dona Amélia passou havia sido o convite surpresa da arqueóloga Valdirene para abrir a tampa do caixão da ex-imperatriz durante a exumação, feita 5 dias antes. “Foi uma surpresa, só fiquei sabendo alguns instantes antes, e foi um grande presente para mim. Enquanto estava vestindo a roupa de proteção, me lembro de ter pensado: ‘eu sei que esse momento vai ficar guardado para sempre na minha memória’! Foi um privilégio único, que poucos biógrafos até hoje devem ter vivenciado…”.

Mas as surpresas com D. Amélia não ficaram restritas apenas a abrir o caixão junto com a arqueóloga. Segundo Cláudia, não era novidade que a ex-imperatriz houvesse sido embalsamada em 1873, e que em 1982, quando ocorreu o traslado do corpo dela para o Brasil, sabia-se que ele estava muito bem preservado. Entretanto, “após 30 anos, com todos os problemas de umidade e principalmente por já ter tido contato com o ar atmosférico, não imaginávamos que ela continuasse tão intacta. Quando a vimos, foi uma emoção muito grande, e a Valdirene me disse: ‘Está vendo? Isso é arqueologia, é adrenalina pura!’. Nós pulamos e nos abraçamos, foi muito emocionante!”.

Festa de Aniversário dos 200 anos de nascimento de D. Amélia.

Festa de Aniversário dos 200 anos de nascimento de D. Amélia.

Outra curiosidade é que D. Amélia não queria ser embalsamada. Uma das grandes descobertas da Cripta teria ocorrido por mero acaso, segundo Cláudia: “D. Amélia havia deixado por escrito em seu testamento que queria uma cerimônia fúnebre muito simples, não queria ser embalsamada, nem autopsiada. Mas só abriram o testamento depois do funeral, e aí ela já havia sido embalsamada”. Uma das hipóteses para o caso, levantada pela biógrafa, é que, por ocasião da morte da princesa d. Maria Amélia, filha de D. Pedro I e D. Amélia, ocorrida na Ilha da Madeira, a ex-imperatriz havia determinado que o corpo da jovem fosse embalsamado, para poder ser velado durante várias semanas na ilha até ser embarcado para Portugal, onde permaneceu algum tempo fora do Panteão dos Braganças. Provavelmente, segundo Cláudia, os médicos que acompanhavam dona Amélia, entre eles o que havia cuidado de sua filha, decidiram fazer o que ela própria havia feito.

Cláudia espera que a apagada figura da segunda imperatriz do Brasil possa agora ser resgatada, e o fato do corpo preservado pode ser um gancho para isso. “Espero que essa grande descoberta desperte o interesse por nossa segunda imperatriz, que, embora não tenha tido o mesmo vínculo com o Brasil que seu esposo, ou que dona Leopoldina, também teve uma vida bastante interessante e deixou grandes obras”.

Ao fundo, da esquerda para a direita, Paulo Rezzutti e Célio, Do outro lado do ataúde, Valdirene Ambiel e Cláudia Witte

Ao fundo, da esquerda para a direita, Paulo Rezzutti e Célio, Do outro lado do ataúde, Valdirene Ambiel e Cláudia Witte

Por mais inusitada que seja uma festa dessas, hoje, por conta dela, todos os funcionários da Cripta, dos Seguranças ao pessoal do Serviço Educativo, sabem muito mais sobre a segunda Imperatriz do Brasil do que pode ser visto nos painéis de uma desaparatada instalação informativa sobre a Independência Brasileira, o local e seus ocupantes.

Segundo a arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, a quem também ouvimos para esta matéria, essa também é a proposta do seu trabalho: “A pesquisa arqueológica realizada nos remanescentes humanos depositados na Capela Imperial do Monumento à Independência é importante por mostrar uma outra abordagem para a história do Brasil e principalmente para preservação da memória e identidade nacional. Só se preserva o que se conhece e, acima de tudo, se identifica”.

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