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O Preto Ignácio e Júlio Mesquita

LARGO DO ROSARIO 1903  Largo do Rosário, atual Praça Antônio Prado em 1903 visto da Rua São Bento em direção à XV de Novembro. À esquerda a lateral da antiga igreja do Rosário. Ao fundo a Galeria de cristal na Rua XV de Novembro. Foto tomada aproximadamente de onde ficava a Confeitaria Castelões, hoje início da Avenida São João.

Por Edison Loureiro

O calendário marcava 30 de janeiro de 1901, uma quarta-feira. A cidade de São Paulo andava cheia de novidades. A primeira linha de bondes elétricos havia sido inaugurada em maio do ano passado e lentamente iam-se assentando mais trilhos. Logo cresceria mais rápido, assim que a CVP fosse extinta e parasse de arrumar confusão. CVP era a sigla para Companhia Viação Paulista, mas o povo dizia que era sigla para Cada Vez Pior, tão ruins eram seus serviços(1). A energia elétrica logo estaria mais abundante com a próxima inauguração da Usina Hidrelétrica de Parnaíba(2), o gás encanado ia sendo disponibilizado para as residências iluminando melhor que os antigos e malcheirosos lampiões de óleo ou querosene e aposentando os fogões à lenha, o péssimo calçamento das ruas pouco a pouco ia sendo arrumado.

O Café do Ponto na Rua XV de Novembro esquina com o Largo do Rosário(3), do lado esquerdo de quem está em frente à igreja que lá existia(4), também havia passado por modificações. O Sr. José Caruso, proprietário da casa, a havia reformado, agora com uma seção de moagem e vendia seu Café Caruso torrado e moído na casa. A reabertura do estabelecimento, muito bem montado, havia sido comemorada com um coquetel há dois dias.

Aquele dia de verão estava ameno, a temperatura não tinha passado de 26 graus e o céu ficou nublado o dia todo com algumas gotas de chuva. O vento era predominantemente noroeste o que, por algum motivo obscuro, era tido como causador de mal estar aos paulistanos(5).

Às cinco e vinte da tarde um jornalista, redator de O Estado de S. Paulo, com 38 anos, ocupava uma mesa no café com dois amigos. Era um advogado que, em 1885, juntou a banca com a profissão de jornalista. Nesta data ainda mantinha seu escritório na Travessa da Sé(6), 14 junto com Alfredo Pujol e Eugênio Egas. Seu nome era Julio Mesquita e talvez nem lhe passasse pela cabeça que no ano seguinte seria o único proprietário do jornal que se tornaria um dos mais influentes do Brasil.

Julio Mesquita terminou seu café e a conversa com os amigos e retornou à redação de O Estado de S. Paulo que ficava na esquina em frente ao Café do Ponto. Lembrou-se então que havia esquecido um livro no café e para lá voltou. Não encontrando o livro começou a caminhar pela XV de Novembro em direção à sua casa quando um forte estampido às suas costas o fez voltar-se na direção do Café do Ponto.

Naquele momento não viu nenhuma movimentação anormal, apenas uma pessoa bastante conhecida entrando um tanto cambaleante no café.

Era o Preto Ignácio, personagem conhecido por grande parte da população. Havia sido secreta como eram conhecidos os policiais à paisana e, como secreta havia participado do episódio que resultou na morte do Dioguinho(7). Preto Ignácio acabou por tornar-se um capanga por profissão, havia sido leão de chácara da Villa Tedesco, casa de jogo e bordel de luxo situado na Rua Cons. Crispiniano(8) e atualmente além de sua atividade de capanga era proprietário de uma casa de jogo de dados. Era um tipo mal-encarado e antipático. Já tinha passagem pela polícia por porte de armas proibidas e agressão com ferimentos.

Seu nome completo era Ignácio Macedo da Silva, tinha 44 anos, alto de bigode, cavanhaque e olhos muito azulados. Sempre bem vestido, neste dia trajava terno de casimira clara com colete, camisa de cor e gravata vermelha. Levava no braço um sobretudo impermeável, carregava uma bengala amarela com castão de prata e um embrulho de papel. Usava sempre um grande chapéu de feltro branco.

Julio Mesquita, intrigado com o estampido, demorou-se um instante a olhar o movimento. Não notando nada de anormal, concluiu que era uma bomba de S. João colocada no trilho do bonde por algum brincalhão(9). Voltou-se e continuou o seu caminho e, tendo dado mais uns três ou quatro passos, ouviu outra detonação, desta vez mais fraca que a primeira. Logo em seguida um apito de socorro(10). Passava quarenta minutos da cinco horas.

Neste momento já havia um grande alvoroço diante do Café do Ponto. Mesquita foi para lá e ao chegar deu com um moço de aparência simpática, 35 anos, cabelos crespos e pretos e bigode, que saía do café bradando: “Acabei de matar o Preto Ignácio, o maior valentão de São Paulo!”. A esta altura já estavam presentes soldados que acudiam ao apito de socorro e, quando iam desembainhar seus sabres, Julio Mesquita interfere pedindo que não usem de violência, pois o moço se entregava sem resistência. Para demonstrar sinceridade o moço entregou à Mesquita à faca que trazia na cava do colete. Os soldados concordaram e o levaram à polícia.

Chamava-se Pedro Reis, também dono de casas de jogo, na época em pauta tinha uma na Rua Líbero Badaró, 31. Da mesma forma que o Preto Ignácio, costumava resolver suas rixas de forma violenta.

Ao entrar no salão do Café do Ponto, Julio Mesquita depara-se com o corpo do Preto Ignácio estendido de costas quase no meio do salão, entre cadeiras tombadas e uma mesa de mármore partida e seu suporte de ferro tombado. A cabeça ainda se mexia enquanto do lado direito jorrava sangue misturado com massa encefálica. Depois de alguns segundos ficou imóvel. Ao lado o sobretudo, a bengala e o embrulho que, meio desfeito, revelava o conteúdo ser ossos de boi ou porco.

Nesse ínterim, Domiciano de Campos, estudante da Politécnica e chefe de seção do Tesouro Municipal também pedia ajuda a um soldado na rua XV de Novembro, pois tinha acabado de dar voz de prisão a um homem que por ali andava. Acontece que Domiciano, logo que ouviu o primeiro disparo estava passando em frente à Galeria de Cristal(11) e correu para o Café do Ponto e, logo que entrou viu esse homem disparar uma garrucha contra alguém num grupo que estava no centro do salão onde havia uma luta e saiu apressado. Domiciano o seguiu e, alcançando-o deu-lhe voz de prisão ao mesmo tempo em que chamava uns soldados que também iam acudir ao apito de socorro.

O homem chamava-se Antonio Reis, irmão de Pedro Reis, baixo de bigode castanho e, muito assustado, foi logo dizendo que não tinha nada a ver com o que tinha acontecido no café. Domiciano acusou-o de ter feito um disparo e pediu que mostrasse a garrucha. Pressionado pelos soldados, Antonio acabou entregando a garrucha de dois canos dos quais um ainda carregado. Foi também detido.

Estava armado o imbróglio(12) para o delegado da primeira circunscrição, Dr. Antonio de Godoy(13) desembaraçar. Quem afinal matou Preto Ignácio? Qual o motivo do crime? Sendo dois disparos e a garrucha apreendida disparou somente uma vez, onde está a outra arma?

Mas depois de sete dias de interrogatórios dos envolvidos, das testemunhas e com o laudo da necropsia, o inquérito já estaria concluído.

Pedro Reis e o Preto Ignácio já eram conhecidos de longa data. Apesar de Pedro negar, Ignácio já lhe prestara “serviços” e um destes “serviços”, acabou por torná-los inimigos. Tudo começou naquela manhã quando o Preto Ignácio encontrou Pedro Reis naquele mesmo largo do Rosário e pediu-lhe dinheiro. Pedro adiantou-lhe 10$000 e disse que o procurasse mais tarde na casa da R. Líbero Badaró, 31. O Preto Ignácio foi à casa indicada e Pedro Reis mandou que o porteiro lhe entregasse 15$000. Apesar da resistência do porteiro, Preto Ignácio entrou e ameaçou Pedro Reis, com uma faca cobrando-lhe uma dívida de 1:500$000. Corria um comentário pela cidade que o incêndio em uma das casas de jogo de Pedro Reis há alguns anos teria sido criminoso, executado pelo Preto Ignácio a mando de Pedro Reis. Pelo “trabalho”, Ignácio receberia 5:000$000, porém somente recebeu 3:500$000. Pedro Reis recebeu do seguro algo entre 19 e 22:000$000.

No dia do incêndio, Pedro Reis estava no seu sítio em Jacareí e quem foi avisá-lo da ocorrência foi justamente o Preto Ignácio. Esta seria a origem da dívida.

Após as ameaças, Pedro Reis armou-se, bem como seu irmão, e junto com amigos foi à Confeitaria Castelões(14), depois ficaram conversando no canto da igreja do Rosário em frente ao Café do Ponto. Foi quando viu o Preto Ignácio na XV de Novembro conversando com um grupo em frente à Camisaria Modelo(15). Pedro Reis foi em direção ao Café do Ponto e Preto Ignácio vendo-o, foi ao seu encontro. Bem na porta do café Reis saca a garrucha e dispara contra Ignácio ferindo-o no lábio. Ignácio refugia-se no salão do café e Pedro vai atrás. Houve uma luta rápida, pois nesse momento Antonio Reis vai à porta do salão e dispara contra o Preto Ignácio que cai sobre a mesa derrubando as cadeiras e foge para a XV de Novembro, com Domiciano no seu encalço.

O laudo da necropsia afirmou que o disparo que atingiu o lábio de Pedro Reis foi feito com uma arma carregada com balas, enquanto que o que atingiu a cabeça foi provocado por chumbo picado. A mesma carga da garrucha apreendida. Portanto deveriam realmente existir duas armas envolvidas. Indicou também que o disparo fatal foi feito de trás para frente. Antonio Reis alegou que tirou a arma que tinha em seu poder da mão de seu irmão após o tiro e sempre negou ter feito qualquer disparo.Pedro Reis disse que quem matou tinha sido ele. A outra arma nunca foi localizada.

Apesar dos testemunhos, em 15 de julho daquele mesmo ano o tribunal de júri absolveu os dois por unanimidade e na mesma data foram postos em liberdade.

Pedro Reis acabaria indo para a prisão três anos depois condenado pelo crime da Pensão Milano, mas aí já é outra história que conto depois.

Notas Todas as informações contidas neste relato, inclusive detalhes, foram obtidas da série de reportagens publicadas no jornal O Estado de S. Paulo de 31-01-1901 a 16-07-1901, exceto onde indicado.

1 – A Light (The São Paulo Railway, Light and Power Company Limited), concessionária dos bondes elétricos em São Paulo, sofria oposição feroz da CVP, que tinha os bondes puxados a burro. Esta usava de todos os artifícios para embargar a colocação de trilhos da concorrente. Os operários das duas companhias chegaram até às vias de fato em algumas ocasiões. A questão somente foi resolvida quando a CVP foi dissolvida judicialmente e a Light comprou todo o seu patrimônio em leilão judicial de 7 de abril de 1901. Ver Transformações Urbanas São Paulo 1893 – 1940. Fundação Energia e Saneamento, 2013.

2 – Primeira usina hidrelétrica da Light em São Paulo. Foi construída em 1901, recebeu posteriormente o nome de Edgard de Souza e foi desativada na década de 1980.

3 – Atual Praça Antônio Prado, que na época era mais estreita. A foto mostra o local em 1903, a igreja avançava pa-ra dentro do largo formando um gargalo no meio.

4 – A igreja do Rosário do largo do mesmo nome foi demolida em 1903 e ficava onde hoje está o Palacete Martini-co, hoje sede da BMF-Bovespa.

5 – “Estar de noroeste” é uma antiga expressão paulistana. Ver Freitas, Affonso de.Tradições e Reminiscências Paulistanas, pag.75. Edição da Revista do Brasil, Monteiro Lobato & Cia. Editores, 1921.

6 – Atual Rua Venceslau Brás.

7 – Dioguinho foi um pistoleiro que, com sua quadrilha, aterrorizava as cidades e fazendas do sertão paulista. Foi morto em uma diligência policial em 1897, às margens do rio Mogi-Guaçu. Ver O Estado de S. Paulo de 05-05-1897.

8 – Ficava ao lado do antigo Cine Marrocos entre a Praça Ramos de Azevedo e a Av. S. João. Foi posteriormente ocupado pela sede da 2º Região Militar do Exército.

9 – No tempo dos bondes os brincalhões deixavam bombinhas nos trilhos do bonde, com a pressão da roda explodiam. Esta brincadeira perdurou até a extinção dos mesmos.

10 – Soprar um apito era sinal de pedido de socorro para os soldados que faziam a ronda.

11 – A Galeria de Cristal ficava na XV de Novembro, 56-A (numeração antiga), era o terceiro prédio a contar da esquina do largo do Rosário. Seu nome oficial era Galeria Webendoerf. Ver Barbuy, Heloísa, A cidade-Exposição: Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914, pág. 205. Edusp 2006.

12 – Palavra italiana para confusão, hoje praticamente incorporada ao vocabulário paulistano. Na época em que este caso ocorreu a cidade de São Paulo tinha menos de 250.000 habitantes e quase metade da população era composta de italianos. 13 – Hoje dá nome a uma rua no bairro da República em São Paulo.

14 – A Confeitaria Castelões ficava na Rua São Bento quase esquina com a Av. São João. Foi demolida para o alargamento desta avenida.

15 – A Camisaria Modelo ficava na XV de Novembro, 59 (numeração antiga) ao lado do Café do Ponto. Em 1903 foi liquidada e o estoque juntamente com o ponto comercial foi adquirido pela Camisaria Mascote do largo do Rosário que para lá se transferiu. Ver Correio Paulistano de 18-05-1903, pág. 3. Seu proprietário tinha o curioso apelido de Leite Coalhada (assim mesmo, com “a”). Ver O Estado de S. Paulo de 04-02-1901, pág. 2.

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  1. 26/01/2015 às 18:28

    Fantástico!!! Parabéns ao Paulo por ter tido a idéia de agregar tão bom contador de histórias…. Parabéns, Edison! Como sempre uma ótima narrativa que nos prende do começo ao fim e sempre deixa gostinho de quero mais! 😉

  2. Edison Loureiro
    26/01/2015 às 18:37

    Obrigado Patricia.

  3. Luís R Ferreira
    27/01/2015 às 08:38

    Muito bom! Ler histórias do cotidiano passado como essa é (respeitado o caráter trágico do caso) uma verdadeira delícia.
    Obrigado, Edison, por compartilhá-la conosco!

  4. CARLA BATTISTELLA
    27/01/2015 às 13:03

    Adorei!!!!!!!! Carla Date: Mon, 26 Jan 2015 17:27:48 +0000 To: carla_battistella@hotmail.com

  5. Décio Monteiro
    22/06/2015 às 07:52

    Um crime como tantos que o motivo é sempre o mesmo e envolve a mesma figura. Falo do maldito vil metal. Acho que é um termo próprio para essa ocasião, já que o dinheiro também circulava muito em moedas e ele sempre corrompeu as pessoas. Sobre a história relatada e acontecida há mais de cem anos atrás, além da sua abrangência é muito curiosa e recheada de detalhes importantíssimos .Para quem é afeto aos assuntos pertinentes ao passado ele é rica em excelentes informações. Muito bom Edison ! adorei…

  6. elizabethsoares
    16/12/2015 às 12:17

    Interessante história, caramba viajei agora e consegui estar lá assistindo tudo, valeu amigo.

  7. Wilson Colocero
    02/07/2016 às 12:40

    Grande “reportagem”, com descrição muito vívida e completa! Obrigado por trazer mais essa “estória” de São Paulo para todos nós!

  8. Jonas Coutinho Favacho
    28/01/2018 às 13:41

    Nasci numa cidadezinha da Amazônia, mas por muito tempo morem em S Paulo. Frequentei na capital paulista um dos seus melhores lugares: a biblioteca municipal. Ali passava as tardes dos sábados, lendo e vendo fotografias antigas da cidade. Sempre procurei relatos do cotidiano de quando a cidade era pequena, talvez até uma forma de me aproximar da cidadezinha que tinha deixado no interior da floresta. Foi, portanto, com muito prazer que li essa história. Espero encontrar mais.

  1. 21/01/2016 às 13:09

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