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Os Primeiros Carnavais de São Paulo

Charge de Angelo Agostini a respeito do entrudo. Carnaval de 1883.

Charge de Ângelo Agostini sobre a proibição do entrudo.

Por Edison Loureiro

É quase carnaval, alguns blocos já estão saindo pelos bairros, as escolas de samba já estão em ponto de bala para as apresentações e os foliões já devem estar todos de fantasia pronta.

E antigamente? Como começou o carnaval em São Paulo?

Um pouco de pesquisa em jornais, revistas e livros nos dá a resposta.

O carnaval sempre existiu como uma festa em que aproveitavam os últimos dias antes do período da Quaresma, quando os homens deveriam praticar o recolhimento, o silêncio e abster-se das alegrias mundanas, conforme o catolicismo oficial da corte portuguesa e mais tarde também da brasileira.

Mas durante os três dias de carnaval o povo de São Paulo divertia-se com o entrudo, uma brincadeira herdada de costumes ibéricos. Consistia basicamente em atirar bolas de cera cheias de água uns nos outros. Eram chamadas laranjinhas de cheiro ou limões de cheiro, conforme a cor. Bem, a certa altura da brincadeira as laranjinhas acabavam os ânimos se exaltavam, e aí valia tudo, seringas, baldes ou tinas, o negócio era deixar todo mundo molhado. Vale dizer que as laranjinhas nem sempre continham água, às vezes eram carregadas com substâncias bem menos nobres. Fica a critério da imaginação dos leitores o conteúdo delas, vale tudo.

No ano de 1832 a prática do entrudo acabou sendo proibida, mas não houve muito respeito pela norma, pois em 1853 a proibição foi reforçada. E continuou não resolvendo, pois pelas reclamações nos jornais vemos que a prática continuou até 1855.

Assim foi até o ano de 1856, quando um grupo de pessoas, liderado pelo capitão Joaquim Sertório, toma a iniciativa de formar a primeira sociedade carnavalesca de São Paulo. No dia 8 de janeiro daquele ano aparecia no jornal Correio Paulistano a notícia da formação da sociedade, ainda sem nome, que convidava os participantes, durante “os três dias de entrudo”… “vestirem-se a phantazia e mascararem-se para percorrerem as ruas da cidade”. Dizia ainda que “os mascaras percorrerão as ruas acompanhados de uma banda de muzica”.

E funcionou! No dia 5 de fevereiro de 1856, terça-feira de Carnaval, aquele jornal declarava: “Foi finalmente proscripto o jogo de agua e em seu lugar tivemos o congresso de ‘sumidades carnavalescas’…”. Bem, houve certa precipitação, pois no dia seis Coelho Marques teve de pagar multa de quatro mil réis por jogar entrudo com limões de água de cheiro, mas foi o único caso assinalado.

Na realidade o entrudo ainda demoraria a ser esquecido. Emília Abranches Viotti, em suas recordações, conta sobre o entrudo em 1896 “Fomos a um escritório, num sobrado da Rua da Imperatriz, hoje, 15 de Novembro. Nem sei descrever o entusiasmo que havia; parecia um bando de crianças malucas. Pessoas passeavam pela rua com os guarda-chuvas abertos por causa da água que jogavam dos sobrados”. Alguns resquícios do antigo entrudo sobraram até a segunda metade do século XX, como as bisnagas de carnaval que espirravam água ou o “sangue de diabo”, solução preparada com fenolftaleína e amoníaco que manchavam de vermelho as roupas, porém a mancha sumia ao secar.

Mas voltemos a 1856. Na sexta-feira após o carnaval o jornalista, feliz da vida, descrevia o primeiro desfile carnavalesco visto pela cidade de São Paulo. Já no domingo 70 cavaleiros fantasiados e mascarados percorriam as ruas da “Imperial Cidade de São Paulo”, distribuindo flores e confeitos às moças nas janelas. No último dia o desfile abriu com a guarda da polícia, depois uma banda de música seguida por carros e cavaleiros (entenda-se por carros aqueles puxados por animais, lógico). E o jornalista continuava entusiasmado e com um pouco de exagero, naquela ortografia que hoje nos parece estranha: “As moças debruçavão-se nas janellas, quase atirando-se para apanhar os ramos, confeitos e flores que partiam dos mascaras; ellas não ficavam por seu turno inactivas, e milhares de coroas erão arremeçadas por delicadas mãosinhas às cabeças dos que as provocavam”…”Até cazinhas humildes e térreas habitadas por uma ou duas velhinhas abrirão suas rotulas de par em par a fim de com tremulas mãos lançarem rozas desfolhadas”.

Esta primeira sociedade carnavalesca chamou-se Sociedade Carnavalesca Piratininga.

Já na semana posterior ao carnaval já circulavam prospectos para colher assinaturas para a formação de outra sociedade carnavalesca para o próximo ano. Muitas outras seriam criadas, como os Zuavos, os Fenianos, os Girondinos, os Tenentes de Plutão, etc.

As sociedades carnavalescas competiam entre si para ver quem fazia a melhor apresentação no carnaval, dando origem àqueles que seriam os vovôs dos carros alegóricos.

Os primeiros desfiles carnavalescos eram absolutamente bem comportados, limitando-se os cavaleiros ou os mascarados que desfilavam em carros a pescar pequenas coroas de flores com uma “lança” e oferecer às moças que apreciavam o desfile das janelas ou sacadas. A participação nas sociedades carnavalescas era só de homens.

Lá por volta de 1860 as sociedades carnavalescas já estavam bastante elitizadas, pois custava caro manter o aparato dos carros, comprar (ou alugar) fantasias luxuosas e ainda havia o custo das flores. Assim, em 1863 o entusiasmo inicial foi minguando. Apesar de naquele ano algumas pessoas passarem uma subscrição para colocar uma banda de música na rua livre para quem quiser participar. Realmente no sábado de carnaval, à noite, a banda saiu do Largo da Cadeia (atual Praça João Mendes), desceu a Rua do Imperador (atual Lado par da Praça da Sé), através do Santíssimo (lado ímpar da Praça da Sé), entrou pela Rua de Santa Tereza, Largo do Colégio, Rua do Rosário (XV de Novembro), Boa Vista (pela Três de Dezembro que era continuação da Boa Vista), São Bento, Rua Direita e terminando na Sé.

Mas mesmo assim não teve muito sucesso. Ainda mais com a polícia avisando que para sair às ruas mascarados era necessário portar um cartão com autorização da delegacia. No começo de 1864, o cronista do jornal O Correio Paulistano lamentava que o carnaval dos desfiles em São Paulo estava morto. Mas neste mesmo ano reviveu com a criação de outras sociedades.

No período de 1865 a 1869 houve um arrefecimento na atividade das sociedades carnavalescas, talvez devido à guerra do Paraguai. Já em 1868, com pouco carnaval de rua, o entrudo voltaria a entrar em ação com as laranjinhas, seringas e água jogada das sacadas e janelas. Por essa época apareceram até anúncios em jornais oferecendo cera e tintas para confecção das laranjinhas.

Em 1872 os “clubs carnavalescos” ressurgem com força e retoma o carnaval de rua de São Paulo, tendo à frente os Fenianos e a Banda da Euterpe Commercial associada com os Zuavos Carnavalescos. Com o tempo os “préstitos carnavalescos” foram perdendo a antiga ingenuidade e incorporando o elemento feminino em seus carros alegóricos. Como as “moças de família” não poderiam participar eram as mundanas que alegrariam os carros dos “clubs”.

Carnaval Direita 1905

Carnaval na Rua Direita em 1905

Num desses carnavais, no de 1864, ocorreu um fato curioso. Na Rua São Bento um mascarado teimava em abordar e beijar todas as moças que por lá passavam. Um escândalo. Chama-se o inspetor de quarteirão, que por sua vez traz a polícia para acabar com a sem-vergonhice:

– Tira a máscara! O mascarado não quer tirar e fica no tira não tira até que o policial vence e a máscara é retirada. Eis que o “mascarado” não era ele e sim ela. Uma francesa bastante conhecida na sociedade. O policial fica atarantado. Que fazer? No fim fica tudo por isso mesmo, afinal é carnaval…

Aí por 1905, os desfiles começaram a ser substituídos pelos corsos com automóveis, que começaram a aparecer na cidade. Eram realizados ainda no triângulo central. Os automóveis cheios de famílias seguiam devagar pelo centro das ruas e os rapazes acompanhavam a pé pelas calçadas. Muitos caros eram enfeitados com flores e outros adereços.

Mas, conforme Jorge Americano no livro São Paulo Naquele Tempo, “durou pouco o corso na cidade. Entre 1910 e 1915 foi transferido para a Avenida Paulista. Aí,  começava às 4 horas da tarde e ia até às 9 da noite. Nos carros, todos de capota aberta, (naquele tempo era enorme a quantidade de carros abertos), as senhoras vinham sentadas no banco, e as moças sentadas sobre a capota aberta”.

A Cigarra 25-02-1915

Fotos da revista A Cigarra de 25-02-1915 mostrando o corso na Avenida Paulista.

Este foi o começo do carnaval na rua. Mas nos salões o carnaval também começou na década de 1850. Já em 1857 o Theatro de S. Paulo, a antiga Casa da Ópera do Pátio do Colégio anunciava os primeiros bailes de carnaval. Ainda não com este nome, mas como “Grandes Bailes de Fantazia”, já anunciando que a “Sociedade carnavalesca fará sua entrada geral as 9 horas da noute acompanhada com a sua banda de musica e colocará seu  estandarte no salão no lugar, no lugar que lhe convier”.

Bailes à fantasia, ou bailes mascarados já existiam em São Paulo, porém este de 1857 foi o primeiro explicitamente dedicado ao carnaval. Mas não vá esperar ouvir marchinhas ou sambas, pois ainda não existiam. Dançavam-se valsas, polcas, mazurcas, e outros ritmos da época.

CP 20-02-1857 Baile

Anúncio publicado no jornal O Correio Paulistano de 20-02-1857

Logo outros salões aderiram à moda, como o Hotel das Quatro Nações, o Tivoli Paulistano, na então Rua de São João e o recém-construído Teatro São José, na atual Praça João Mendes.

Enquanto o antigo teatrinho do Largo do Colégio promovia um baile recatado e familiar, logo os bailes do Hotel das Quatro Nações e o Tivoli não tinham nada de familiar. Emília Viotti Abranches em suas recordações, fazendo referência a uma cidade da Itália diz: “Havia muitos bailes de mascarados. Aqui, também, os havia, mas, não iam famílias decentes. Seria inconcebível que uma dama ou senhorita da sociedade austera paulistana se apresentasse num desses bailes”. Para promover a presença de público feminino, a entrada de mulheres era grátis.

CP 11-02-1866

Anúncio publicado no jornal O Correio Paulistano de 11-02-1866. À meia-noite o Galope Característico prometia levar os próprios reumáticos até o inferno.

Quanto aos cordões, ranchos e escolas de samba, estes apareceram bem mais tarde com a popularização do carnaval de rua, e sua gênese certamente encontra-se nos caiapós, festejo praticado pela população negra. Era inicialmente realizado no acompanhamento de procissões que, depois de proibido, acabou sendo transferido para a época do carnaval.

Segundo o artigo de Chico Santana publicado na Revista Histórica, do Arquivo Público do Estado de São Paulo, o primeiro cordão carnavalesco foi criado por Dionísio Barbosa em 1914.

Diz o artigo: “… Dionísio morou no Rio de Janeiro, onde teve contato com os ranchos carnavalescos de lá, além das bandas militares, populares no início do século XX. Assim, Dionísio resolveu criar um grupo carnavalesco em São Paulo. No entanto, o contexto cultural, social e histórico da capital paulista era bem diverso do da capital fluminense e os primeiros cordões carnavalescos paulistanos exibiriam características peculiares. Visualmente, os cordões se caracterizavam pela presença do Baliza, personagem que executava malabarismos com um bastão e abria caminho para a agremiação carnavalesca passar entre os foliões, além de defender o estandarte do grupo, o próprio estandarte, símbolo maior do cordão, e corte com rei, rainha, príncipe etc. Os elementos musicais característicos eram a batucada, responsável pela manutenção do ritmo do desfile por meio da execução de instrumentos de percussão e sopro, com destaque para o bumbo, e o chamado choro, grupo responsável pelo acompanhamento melódico e harmônico, com instrumentos de corda, cavaquinho e violão, e também de sopro, como trompete, trombone e saxofone. O ritmo interpretado pelos cordões era a chamada marcha-sambada, que mesclava elementos dos sambas rurais paulistas e da marcha”.

O Cordão da Barra Funda era formado exclusivamente por negros e foi o embrião da Escola de Samba Camisa Verde e Branco.

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O Cordão da Barra Funda na década de 1910.

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