Início > Sem categoria > Os Nomes das Ruas

Os Nomes das Ruas

Quartel de Linha 1913

Entrada do Quartel do Voluntários na Rua do Quartel, atual Onze de Agosto, na Praça da Sé.

Por Edison Loureiro

Em abril de 2013 um dos vereadores da cidade de São Paulo teve a “brilhante ideia” de propor a alteração do nome do tradicional Viaduto do Chá para Viaduto do Chá Mário Covas. Além da estultice do nome duplo, o despropósito de alterar um nome que faz parte da história da cidade. Felizmente o projeto foi arquivado.

Ficar trocando os nomes dos lugares não é coisa recente. No próprio centro histórico de São Paulo, o planalto chamado pelos indígenas de Inhampuambuçu, poucas ruas guardaram seus nomes originais, como a Rua Tabatinguera, assim chamada devido à tabatinga, o saibro branco usado para pintar as casas. Por um tempo foi conhecida também como Rua do Matemático.

Uma rua que manteve sempre seu nome original é a Rua Boa Vista assim chamada pela bela paisagem que oferecia da várzea do Tamanduateí e a vista das chácaras do Brás.

Mas algumas mudanças de nome algumas vezes não eram aceitas pela população e acabaram retroagindo, como no caso do Pátio do Colégio que por longo tempo foi chamado de Largo do Palácio em menção ao Palácio do Governo que existia no local do antigo colégio dos jesuítas. Em 1930 seu nome foi alterado para Praça João Pessoa, mas após uma enérgica campanha liderada pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o nome retornou ao original Pátio do Colégio. A própria Avenida Paulista durante algum tempo teve seu nome alterado para Carlos de Campos, que foi depois rejeitado.

Em 1889, proclamada a República, conta-nos um historiador que às 11 horas do dia 16 de novembro juntou-se um grupo de populares com uma banda de música na frente da Câmara Municipal para solicitar a troca dos nomes de várias ruas da cidade. A Rua do Imperador por Marechal Deodoro, a da Imperatriz para XV de Novembro, a da Princesa para Benjamin Constant, a do Conde’Eu para Glicério, a do Príncipe para Quintino Bocaiúva, a de São José para Líbero Badaró, a do Comércio da Luz para Tiradentes e a do Largo 7 de Abril para Praça da República. Foram todos atendidos e os nomes permanecem os mesmos até hoje, com exceção da Rua Marechal Deodoro que não existe mais.

O caso mais curioso ocorreu em 17 de março de 1897. Talvez empolgados com os episódios da Guerra de Canudos, as autoridades municipais trocaram o nome de seis ruas tradicionais de uma só vez. O jornal O Correio Paulistano do dia seguinte publicava o despacho que a Intendência de Obras Municipais fazia ao “empreiteiro emplacador” para que preparasse placas para as seguintes ruas:

Rua João Alfredo com o nome General Carneiro; Rua do Quartel com o nome Rua do Cabo Roque; Rua da Esperança com o nome Coronel Tamarindo; Rua das Flores com o nome Capitão Salomão; Rua Direita com o nome Marechal Floriano e Rua São Bento com o nome Moreira César.

Dessas ruas todas, a única que ainda conserva o nome dado é a General Carneiro. A Rua da Esperança acabou tendo o nome trocado para Capitão Salomão e hoje não existe mais, é o centro da Praça da Sé. A Rua das Flores acabou não trocando de nome, o Coronel Tamarindo foi nomear a Rua Tabatinguera e depois foi esquecido, pois a Tabatinguera retomou seu nome original. A Rua Direita e a Rua São Bento voltaram às suas designações anteriores.

Hilário foi o da Rua do Quartel, que virou Rua do Cabo Roque, a atual Rua Onze de Agosto.

Hoje ela é uma rua curtinha, fica lá na Praça da Sé, à direita de quem está de frente para o Palácio da Justiça. Ela une a Praça da Sé (num ponto onde antes era a Praça Clóvis Beviláqua) com a Praça João Mendes.

O nome Onze de Agosto foi dado em homenagem à fundação dos cursos jurídicos no Brasil em 1827. A sugestão para mudança do nome surgiu por iniciativa do bacharelando Affonso Penteado, por ocasião de uma reunião do centro Acadêmico Onze de Agosto, na qual esteve presente o poeta Olavo Bilac, em 30 de julho de 1907.

Chamava-se anteriormente Rua do Quartel, pois ficava lá o antigo Quartel de Linha, justamente no espaço hoje ocupado pelo Palácio da Justiça. A diferença é que a frente do Quartel dava para a rua em questão.

Antes ela já fora conhecida como Rua Debaixo de Santa Tereza e Beco das Minas, pela grande quantidade de negras da nação Mina que aí vendiam guloseimas, como as içás torradinhas, muito apreciadas pelos paulistas. A rua nem sempre foi assim curtinha. Ela ia desde o antigo Largo do Pelourinho (hoje Largo Sete de Setembro), cruzaria a atual Praça João Mendes, atravessaria toda a Praça da Sé juntando-se à Rua Irmã Simpliciana para atingir a antiga igreja de São Pedro da Pedra, ou São Pedro dos Clérigos (que ficava mais ou menos onde hoje está o prédio da Caixa Cultural).

O Cabo Roque em questão era ordenança do Coronel Moreira César que numa batalha da Guerra dos Canudos “teve seu corpo defendido até o último cartucho” pelo Cabo Roque que acabou também tombando na mesma batalha. Acontece que depois de homenageado dando seu nome à rua eis que surge, bem vivo e saltitante, o Cabo Roque entre os últimos retardatários desertores da batalha perdida, para morrer sem nenhuma glória em 1900 no Rio de Janeiro. A Câmara não teve outro jeito, senão voltar ao nome anterior, Rua do Quartel. A cidade do Rio de Janeiro também passou pelo mesmo constrangimento.

A história do herói morto que reaparece bem vivo e nunca foi herói coisa nenhuma serviu de inspiração a Dias Gomes para a peça O Berço do Herói, mais tarde adaptada para a televisão como Roque Santeiro, a primeira novela de televisão censurada no Brasil. O próprio Dias Gomes confirmou a história em entrevista, mas nas palavras dele o cabo Roque era “um limpa-botas do general Moreira César”.

Fontes

Jornal Correio Paulistano de 16-03-1897
Jornal Correio Paulistano de 18-03-1897
Jornal Correio Paulistano de 21-03-1897
Jornal Correio Paulistano de 31-03-1897
Jornal O Estado de S. Paulo de 05-05-1998
Jornal O Estado de S. Paulo de 15-01-1950
Jornal O Estado de S. Paulo de 15-08-1946
São Paulo Histórico Vol 5 de Nuto Santana

Anúncios
Categorias:Sem categoria
  1. ern
    13/04/2016 às 23:06

    Parabéns, muito interessante a postagem sobre o nome de ruas.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: