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Os Defuntos do Rosário

Igreja do Rosário

A igreja do Rosário na primeira década de 1900, no largo do mesmo nome, atual Praça Antônio Prado.

Por Edison Loureiro

Pergunte a um paulistano se sabe onde é a Praça Antônio Prado. Provavelmente ele vai coçar um pouco a cabeça e perguntar de volta se não é aquela pracinha onde fica o “Banespão”. Com este nome ficou conhecido o edifício Altino Arantes que foi a sede do Banco do Estado de São Paulo, BANESPA, por muito tempo o prédio mais alto de São Paulo. Talvez responda que é onde fica a BM&FBOVESPA.

É uma praça simpática com sua banca jornais e o quiosque de engraxates no mesmo estilo, além do relógio no começo da Av. São João, mas não tem mais a importância que teve na segunda metade do século XVII até os anos 1960. Um antigo estudante da Faculdade de Direito, visitando a cidade em 1900, após 30 anos de ausência, descreveu o antigo Largo do Rosário, nome antigo da praça, como “o cérebro e o coração da cidade”. Comentou o visitante a respeito dos bonds que daí partiam em diferentes direções, dos cafés, da Confeitaria Castellões, da concentração de povo em grupos, uns discutindo política, outros a situação econômica ou ainda casos internacionais, os gritos dos pequenos jornaleiros, enfim, o movimento que só acalma por volta das 10 horas da noite. Alfredo Moreira Pinto, este é o nome do antigo estudante, só lamenta que o largo seja estreito devido à presença da Igreja do Rosário. É esta que vemos na foto acima, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que foi seu nome completo.

Era uma igreja antiga sua história vem desde 1725 quando esta região era pouco habitada e coberta de capim alto e um pouco de mato aqui e ali. Foi quando o ermitão Domingos de Mello Tavares que havia esmolado por toda parte ajuntou dinheiro suficiente para erguer a igreja e pediu ao Senado da Câmara a doação de “uns chãos devolutos cobertos de macega e de alguns capões de mato”. Isto era a atual Praça Antônio Prado.

Em volta moravam alguns negros alforriados em suas casas pequeninas. Era um local de devoção e das festas tradicionais da comunidade negra antiga. A festa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos começava com uma missa solene e depois seguia com as congadas, com muita música de atabaque e as mulheres se requebrando vestidas a caráter, com seus panos brancos na cabeça, pulseiras e colares. Depois da festa, eram escolhidos o Rei e a Rainha que, com sua Corte iam para um jantar, enquanto bebidas eram distribuídas para os músicos.

Estas festas não eram bem vistas pelas autoridades, especialmente da Igreja. Mas o que realmente incomodava eram os enterros. Numa época em que a tradição mandava enterrar os mortos dentro das igrejas ou nos seus terrenos, os mortos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos também tinham seu cemitério ao lado da igreja.

Os enterros, como era o costume, eram realizados à noite. Mas seguindo a tradição dos povos africanos, eram realizados com a celebração dos defuntos. As religiões africanas, com algumas variações, reverenciam e cultuam seus mortos e a celebração do enterro é realizada com música e cantos.

Se estivessem em sua terra natal talvez seus companheiros cantassem e celebrassem sua bravura como guerreiro, quantas feras caçou, quantas esposas teve e quão grande a prole que deixou. Mas tendo sido sequestrado ainda jovem e depois de uma vida de escravo, não restava aos seus companheiros outra alternativa senão o canto realizado à luz das tochas que procurava amenizar a escuridão: – Zi zóio que tanto zi viu… Zi boca que tanto zi falô… Zi crôpo que tanto zi trabaiô… Zi perna que tanto zi andô… Zi costa que tanto zi apanhô…

A Irmandade tinha apenas um caixão que carregava o defunto até a cova. Depois voltava para a sacristia a espera do próximo freguês. O defunto era enterrado envolto em panos, se houvesse panos… Enquanto cantavam, os celebrantes socavam com pilões de madeira a terra da cova, marcando o ritmo da música. Tum… Tum… Tum… Tum… Na pequena, escura e silenciosa cidade de São Paulo do começo do século XIX, o som e a luminosidade das tochas devia ser assustador para quem morava por perto.

Mas com o tempo tudo foi mudando, graças principalmente à atuação de Tomás Rabada, que foi secretário da Irmandade durante longos anos. Seu nome mesmo era Tomás das Dores Ribeiro. O apelido era pelo tamanho da casaca que ele usava o tempo todo.

As festas foram se tornando mais adequadas aos ritos católicos e o costume do caixão comunitário acabou. Conforme Lincoln Secco, “a Igreja do Rosário foi ficando mais triste”.

Em 1872 a Câmara Municipal desapropriou as casinhas dos negros que moravam ao lado da igreja e também o terreno do cemitério. Depois de realizado o calçamento, foi inaugurado o Chafariz do Rosário em sete de setembro de 1874, com direito a banda de música e discursos das autoridades. Este chafariz acabou sendo demolido em 1893 para forçar os moradores a usar a usarem a água da Companhia Cantareira. A população revoltou-se e a polícia teve de intervir, mas o chafariz foi derrubado.

Finalmente, no final de 1903, após um longo entrevero com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a antiga igreja foi desapropriada, demolida no ano seguinte junto com mais duas casas do lado e o largo transformou-se em praça.

Quando você passar pela Praça Antônio Prado lembre-se que poderá estar pisando no local onde nossos antepassados foram enterrados de uma forma que pareceria estranha para nossos hábitos modernos. Se for tarde da noite e você sentir um arrepio na espinha, não me culpe. Eu só conto histórias.

Fontes

SECCO, Lincoln – A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos – em São Paulo Espaço e História, LCTE Editora – 2008

MARQUES, Gabriel – Ruas e Tradições de São Paulo, Conselho Estadual de Cultura – São Paulo – 1966

MARTINS, Antonio Egydio – São Paulo Antigo – Vol II – Typographia do Dario Official – 1912

Bruno, Ernani Silva – Os Chafarizes de São Paulo – O Estado de S. Paulo de 17-07-1946.

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  1. 08/03/2015 às 02:24

    Ótima matéria. Gostaria de fazer apenas as seguintes observações:
    Na verdade, o Altino Arante foi o mais alto de São Paulo até o ano de 1966, ano da inauguração do ed. Mirante do Vale. Quanto ao relógio, não posso afirmar a existência dele antes de 1939, ano da inauguração do relógio que lá está até hoje, chamado de “Relógio de Nichile”.

    • Edison Loureiro
      08/03/2015 às 14:43

      É verdade Felipe,o texto ficou um tanto dúbio quanto ao Altino Arantes. Vou alterar.
      Obrigado pelos comentários.

  2. 07/04/2016 às 21:32

    Uma história a ser contada aos descendentes negros paulistanos que talvez não saibam desses fatos.

  3. Valkiria Godoy Sant´Anna
    07/04/2016 às 23:40

    Interessante a substituição das letras das canções na hora de enterrar o defunto, sendo substiuidas pelas atividades feitas em vida como escravo, não mais como guerreiro em sua terra natal e a utilização de apenas um caixão a serviço de todos defuntos apenas para serem levados aé a cova… Gostei de relembrar a obrigatoriedade da utilização de água da Cia. Cantaeira… e a destruição do chafariz (onde a água certamente era grátis).

  4. Wilson Natale
    07/04/2016 às 23:48

    A História do “Rozário dos Pretos” tem muitas histórias!
    A Irmandade tinha apenas um caixão para o defunto ser velado em câmara ardente. À noite era retirado, embrulhado em panos e acompanhados à luz de velas de sebo até a sepultura. O caixão voltava para a sacristia.
    Dentro do Templo a missa era solene, pesada de lamentos; fora, mães de santo, rodando, rodando, recebiam as entidades representantes do culto da morte e encomendavam o defunto.
    Nas proximidades do Largo, as casas da rua do Rosário ( hoje XV de Novembro ) eram mais baratas, ou não se vendiam ou alugavam devido ao cantochão dos enterramentos. Quando da primeira reforma do Largo – já Praça Antônio Prado – vieram à luz ossadas humanas – Um “descuido” do tempo em que arrasaram o Largo à toda pressa. Na reforma contemporânea, mais ossos foram encontrados.
    Nos anos 1990 quando pesquisei a história do largo entre as pessoas da Umbanda e do Candomblé, contaram que o Largo, hoje Praça ainda é “terreiro” sagrado dedicado a Oxum (Senhora do Rosário). Dizem que a praça esta cheia de Erês (crianças) e, em frente a Praça estão os guerreiros de Xangô e, ao fundo, na rua João Brícola ficam os Exus.
    Impossível não passar pela Praça Antônio Prado e não cair nos arrepios e impressões do Largo da Senhora do Rosário. O meu arrepio não é o medo do desconhecido. É a emoção dos fatos conhecidos. Alguns, ou muitos ossos ainda estão por lá, as entidades protetoras também.

  5. 08/04/2016 às 12:56

    Muito interessante, adoro conhecer a história de SP.

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