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O Poeta e o Senador – Uma História Trágica

Rua Benjamin Constant

Rua Benjamin Constant em 1912. O edifício é o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Por Edison Loureiro

A Rua Peixoto Gomide no Jardim Paulista, em São Paulo, infelizmente já esteve no noticiário por vários dias devido à feira livre de drogas que por lá se instalou. Porém há pouco mais de cem anos o Dr. Francisco de Assis Peixoto Gomide, que dá seu nome à rua, ocupou as páginas dos jornais por motivos trágicos.

Em 1906 Peixoto Gomide era Presidente do Senado de São Paulo, pela segunda vez. Entre 1898 e 1899 havia sido Presidente interino de São Paulo. Era uma época que o estado de São Paulo tinha Presidente e Senado, assim como os outros estados da Federação. Era natural de São Paulo, nascido em 1849, formou-se na Academia do largo São Francisco em 1873 e foi advogar em Amparo, onde conheceu sua esposa, Ambrosina Pinto Nunes. Em 1882 mudou-se para São Paulo onde seguiu carreira política. Segundo relatos da época, tinha caráter exemplar, um grande número de amigos e era estimadíssimo pelos colegas do Congresso Estadual. Tiveram cinco filhos, mas o primeiro, Bruno, morreu novo. Ficaram Mario, Sophia, Alceu e Gneza.

O poeta foi Manuel Batista Cepelos, nascido em Cotia, SP, em 1872. Era mulato e de origem humilde. Após trabalhar em várias profissões de baixa remuneração, transferiu-se para a capital em 1893 e entrou para o Corpo Municipal de Permanentes, embrião da atual Polícia Militar, onde fez carreira chegando ao posto de capitão. Ainda na carreira militar e seguiu o curso de Direito tendo-se formado em 1902, quando abandona a farda e é nomeado promotor, primeiro em Apiaí e finalmente Itapetininga.

Não se sabe exatamente quando foi que se deu a aproximação entre o poeta e o senador, o que é certo é que este apoiou os estudos daquele, inclusive financeiramente. Batista Cepelos frequentava a casa de Peixoto Gomide como alguém da família.

Com o convívio Cepelos e Sophia, a filha mais velha, tornaram-se muito amigos até que os dois informaram ao pai sua intenção de noivar e casar. A princípio o senador não se opôs, inclusive comentando orgulhoso com amigos sobre a boa escolha feita por Sophia, um rapaz de origem humilde que, por seu próprio esforço conseguiu boa posição e fez um brilhante curso na Academia, além de ser poeta talentoso.

Com o tempo, porém Peixoto Gomide foi se tornando angustiado com a ideia do enlace da filha com Cepelos que estava marcado para 27 de janeiro de 1906 e passou se lamentar com seus amigos mais íntimos e a externar a Sophia sua apreensão.

Na manhã do dia 20 de janeiro daquele ano, um sábado, em sua residência que ficava na Rua Benjamin Constant número 25-A (atual n. 171), entre a Praça da Sé e o Largo de São Francisco, onde hoje está o Palacete Chavantes, Peixoto Gomide, depois de uma noite angustiante, passa uma manhã quase sem conversar com os familiares.

Após o almoço com a família, às dez horas, pois o senador era conservava os velhos hábitos paulistas, Peixoto Gomide permanece à mesa enquanto Alceo vai para seu quarto, D. Ambrosina e Gnesa vão tratar da casa e Sophia acomoda-se numa cadeira da sala de jantar para tricotar.

O pai, uma última vez tenta convencer Sophia a desistir do casamento, porém Sophia diz que é impossível, e confessa que já tinha se entregue a ele.

Desesperado, porém aparentando tranquilidade, Peixoto Gomide retira do bolso um revólver Smith & Wesson, aponta para a cabeça da filha e dispara.

O tiro foi fulminante. A moça nem gritou. Despencou da cadeira para o assoalho que logo foi ficando ensanguentado.

Com o barulho do disparo, o resto da família acode à sala de jantar. Peixoto Gomide caminha até a sala de visitas, aponta a arma ao seu ouvido esquerdo e aperta o gatilho. Porém o som é seco, a bala falha. Mais uma volta no cilindro, o disparo e desta vez o velho senador despenca mortalmente ferido.

Quando o repórter do jornal O Estado de S. Paulo chegou Peixoto Gomide ainda estertorava amparado pelo amigo Padre Chico e o monsenhor Benedito de Souza. Minutos depois estava imóvel.

Após esta tragédia, o ambiente de São Paulo tornou-se insuportável para Batista Cepelos. Abandona então a carreira jurídica, muda-se para o Rio de Janeiro e passa a dedicar-se ao jornalismo e à literatura, afinal a repercussão de seu livro “Bandeirantes” foi ótima, com direito a prefácio com louvores de Olavo Bilac.

Apesar de continuar a escrever com talento e ter um bom círculo de amizades, começa a passar por uma situação financeira difícil. Vivia numa casa de cômodos na Rua Silva Manuel, 104. Seu quarto tinha apenas uma cama de ferro e uma mesa pequena sobre a qual estavam vários livros e cadernos com suas poesias. Com a representação de sua peça em verso “Maria Madalena” e sua nomeação assegurada como promotor público em Cantagalo parecia que seus problemas estavam chegando ao fim.

Porém, na manhã do dia oito de maio de 1915 Cepelos é encontrado morto no fundo de uma casa da Rua Pedro Américo, bem onde termina o morro de Santa Tereza. O poeta havia despencado do alto do morro.

Os íntimos de Cepelos acharam que era suicídio, porém a polícia nunca chegou a uma conclusão definitiva. Poderia ser um crime ou mesmo acidente, pois Cepelos era extremamente míope.

A julgar por alguns de seus textos de prosa, talvez tenha sido suicídio mesmo. Em um deles, denominado “Ao Fim do Dia”, o final é revelador de seu estado de espírito: “Eu, por minha parte, saúdo alegremente o desaparecer de cada dia que desaparece, avanço mais um passo no caminho da liberdade e arreio dos ombros cansados uma boa porcentagem do peso mortificante que carrego. Mais um dia de vida, menos um dia de miséria. Mas, como os dias são lentos e a vida progressivamente se torna cada vez mais insuportável, eu às vezes tenho ímpeto de atirar a carga ao diabo, e dar um mergulho na eternidade!”.

No obituário do poeta no jornal O Estado de S. Paulo o repórter indagava, bem ao estilo do começo do século passado: “Que tempestades se teriam desencadeado na existência do desventurado moço? Que drama sombrio, tecido de amarguras tragadas na sombra e no desespero, teria colhido na sua trama essa alma feita para a contemplação e a interpretação das coisas belas e nobres, atirando-a no vortilhão de uma tragédia obscura?”. O repórter ficaria sem resposta por muito tempo ainda.

Muitos anos se passaram, até a década de 1950, quando são publicados os diários secretos que o escritor Humberto de Campos mantinha com assiduidade desde 1928 até sua morte em dezembro de 1934. Esta publicação feita em partes pela revista O Cruzeiro e depois reunida em livro provocou uma grande polêmica na época, pois continham registros que deveriam permanecer secretos.

Lá está o relato de uma confidência feita em 1933 por Humberto Mello Nóbrega, que escreveria uma obra sobre o poeta no ano seguinte.

Diz Mello Nóbrega que o desespero de Peixoto Gomide era porque Manuel Batista Cepelos era seu filho, fruto de uma aventura que tivera em Cotia quando tinha 23 anos e que o poeta, que sempre teve dúvidas sobre a sua paternidade, não suportou a verdade e a subsequente tragédia com sua irmã, suicidando-se.

Será que o pessoal que trabalha naquele Tabelião do Palacete Chavantes faz ideia do que se passou naquele local lá há mais de cem anos? Talvez não, a vida segue…

Fontes

Jornal O Estado de S. Paulo de 17-01-1882

Jornal O Estado de S. Paulo de 21-01-1906

Jornal O Estado de S. Paulo de 09-05-1915

Jornal O Estado de S. Paulo de 10-05-1915

Jornal Correio Paulistano de 21-01-1906

Jornal Correio Paulistano de 09-05-1915

Jornal Correio da Manhã de 28-11-1953

Cavalheiro, Edgard. Vida e Obra de Manuel Batista Cepelos. Planalto: Quinzenário de Cultura, São Paulo, 15-06-1941.

Campos, Humberto de. Diário Secreto, Edições O Cruzeiro, 1954.

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  1. Alexandre Di iGiacomo
    30/04/2015 às 21:43

    Uma trágica história, com todos elementos de uma obra de ficção :..amor, crime e castigo..
    mas muito mais dolorosa em sua crua realidade!

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