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São Jorge caiu do cavalo? Ou não?

Rua Direita 1910

Procissão na Rua Direita em 1910. Foto Vincenzo Pastore.

Por Edison Loureiro

Dia 22 de março passado, Dia Mundial da Água, realizou-se uma procissão no que saiu da igreja da Consolação, e terminou na Praça da Sé. O cardeal-arcebispo de S. Paulo D. Odilo Scherer a convocou para orar pela “bênção da chuva”. Bem choveu duas vezes durante a procissão, que durou uma hora. Um repórter perguntou ao cardeal se tinha sido por causa da procissão, mas ele respondeu bem-humorado: “não, foram as nuvens mesmo”.

Lembrei-me que a última vez que vi uma procissão em São Paulo já faz uns bons 40 anos. Foi na Bela Vista, na década de 1970, a procissão era de N. Sra. Achiropita.  Na década de 1960 existia o hábito de “hospedar” a imagem da santa em rodízio por alguns dias nas casas de vários moradores frequentadores da igreja, quando eram rezadas as novenas. O ponto alto era a procissão que percorria o bairro com a imagem rodeada de fitas onde os fiéis alfinetavam suas contribuições. Marcava o início das festas que ocorrem sempre por volta de 15 de agosto.

Ainda se realizam algumas procissões no centro de São Paulo, como a procissão de Ramos, a do Cristo Morto e a procissão de Corpus Christi. Mas não têm a mesma importância social e a mesma pompa que já tiveram no passado.

Procissão é coisa muita antiga em São Paulo. Já nos seus primeiros anos de vida realizavam-se as procissões, costume trazido dos portugueses.

Em 1560, quando o pequeno povoado, até então habitado quase que exclusivamente por índios e os padres jesuítas, foi elevado a vila com a transferência dos moradores de Santo André da Borda do Campo, comemoravam-se as festas periódicas, todas com suas respectivas procissões. As mais importantes eram a de Santa Isabel ou a Anunciação de Nossa Senhora, a de S. Sebastião, do Anjo Custódio e a do Corpo de Deus.

E comparecer às procissões não era apenas um dever religioso, era obrigatório. Nas atas da Câmara de São Paulo é comum encontrarmos textos como de 19 de maio de 1765: “Fazemos saber a todos os republicanos desta cidade que quinta-feira que se contam seis do mês de junho se há de celebrar a real festa do Corpo de Deus na Santa Igreja Catedral desta cidade na forma das reais ordens de Sua Majestade fidelíssima, que Deus guarde, para o que todos os sobreditos republicanos são obrigados a acompanharem a dita procissão que se faz pelas ruas públicas dela e o estandarte real que em corpo de Câmara há de sair deste Senado pelas oito horas da manhã do dito dia”.

As atas registram também as ordens para que todos os moradores “mandem caiar as paredes de suas casas e endireitar as ruas, entulhando os buracos, enfeitando as portas e janelas de suas casas com as melhores pompas que cada um puder” sob pena de multa. Para “todo o que faltar de ser também por nós condenado a trinta dias de cadeia”.

Sobrava ainda para as quitandeiras, que deveriam manter a “praça da quitanda muito limpa e asseada, varrendo-a e enfeitando-a com folhas e flores, debaixo da mesma pena não o fazendo”. Textos semelhantes são encontrados em atas por muitos anos.

Mas comparecer às procissões era também uma diversão para o paulistano antigo. Para as mulheres até o terceiro quartel do século XIX era uma oportunidade de sair de casa, coisa rara que era feita apenas para ir à missa ou visitar parentes, e sempre acompanhadas. Houve uma época em que sitiantes das redondezas mantinham uma casa na cidade apenas para as épocas de festa e as correspondentes procissões.

As antigas procissões, apesar de seu sentido religioso, tinham algo de teatral e até divertido.

Na procissão do Enterro, que saía da Ordem Terceira do Carmo, até 1873 o esquife era carregado por sacerdotes devidamente paramentados com suas dalmáticas e com o capuz (amicto) cobrindo a cabeça. Junto ao pálio pessoas representavam S. João Evangelista e Maria Madalena, dos lados José de Arimateia e Nicodemos. Atrás as Três Marias, vestidas com roupas idênticas. A procissão algumas vezes parava para a Verônica mostrar o véu e cantar “O vos omnes qui transitis per viam attendite e videte, se est dolor sicut dolor meus”. Atrás a banda tocava músicas fúnebres. E não é que com essa solenidade toda logo na frente da banda aparecia a “Guarda Romana”, tendo à frente um sujeito grandalhão vestido de centurião, batendo com a lança no chão, gingando o corpo e dando pernadas com seus “soldados” o imitando cada um ao seu jeito. A molecada dizia que eram “os judeus do Carmo”.

Já a procissão dos Passos, tinha o encontro das imagens do Senhor dos Passos com N. S. das Dores sempre na Rua Direita, esquina com a Rua São Bento, onde era feito um sermão num púlpito portátil. Abrindo esta procissão vinha o farricoco – o povo maldoso dizia fornicoco – um personagem vestido de forma extravagante com uma camisola escura e tendo a cabeça metida numa enorme carapuça com dois buracos para os olhos. Representava a Morte e carregava um chicote para espantar a molecada que o atormentava e atirava pedras.

Dizem as antigas crônicas que de todas as festas religiosas, a mais importante, opulenta e esperada era a de Corpus Christi, que se realizava juntamente com a procissão de S. Jorge.

Abre parêntesis.

– O que S. Jorge, este santo cercado de lendas, tem a ver com o Corpo de Deus?

– Diz antiga lenda medieval que, dirigindo-se S. Jorge a uma batalha, encontrou uma procissão com o santo viático e resolveu acompanhá-lo. Daí a tradição de incluí-lo na procissão de Corpus Christi.

Fecha parêntesis.

Nos tempos antigos o povo das chácaras e roças dos arrabaldes já aparecia dois dias antes para a festa. Os oficiais da Guarda Nacional, a “Briosa”, muitos dias antes já estavam polindo suas espadas e ajeitando os uniformes de gala.

A festa começava na noite da véspera. Saía o grupo montado com clarins e tambores, o escudeiro ou casaca de ferro, a imagem do anjo da guarda e os cavalos e cavaleiros pertencentes ao estado maior do santo, que era o patrono do exército português, e no Brasil, até nossos dias, é o patrono da arma da Cavalaria. Era como se todos estivessem anunciando que no dia seguinte o santo iria passar as tropas em revista. A irmandade, os alunos da Academia e os mestres em suas becas seguiam com archotes iluminando as ruas da escura cidade.

Antigamente a procissão saía do antigo Quartel de Linha, onde hoje está o Palácio da Justiça, mas após o episcopado de D. Antônio de Melo, em 1861, o santo foi trasladado para a igreja do Pátio do Colégio, onde tinha seu altar logo à direita de quem entrava no templo.

Ao amanhecer os sinos anunciavam a festa e às onze horas saíam em direção à catedral da Sé, onde o santo e seu estado maior assistiam à missa. Daí partia a procissão com o bispo sob o pálio levando de forma circunspecta o ostensório contendo a hóstia consagrada. A seguir a cavalgata de S. Jorge com três cavaleiros trajando calções amarelos e coletes e capas vermelhos e chapéus emplumados, montados em cavalos negros à frente dos “cavalos de estado”, os melhores que se conseguiam na cidade, todos enfeitados. Logo atrás o escudeiro apelidado de ”Casaca de Ferro”, um cavaleiro usando uma armadura imitando aço e um capacete de papelão na cabeça, segurando uma lança com uma bandeirola vermelha com a cruz branca no centro.

Em seguida o Anjo da Guarda, com as asas abertas, montando um cavalo branco de cascos pintados de dourado, trazendo um escudo e uma lança para proteger o santo.

E lá vinha a imagem de S. Jorge, uma escultura do século XVIII do tamanho de um homem, com bigodinho retorcido com uma lança na mão direita e o escudo na esquerda, onde figurava a cruz branca. Pesava mais de cem quilos. Vinha montada num cavalo branco e para a procissão usava uma capa e chapéu emplumado. De cada lado um soldado seguia para equilibrá-lo na sela.

Da Sé seguiam para o Carmo, desciam a Rua da Boa Morte, subiam pela Tabatinguera até o Largo da Cadeia, atual Praça João Mendes, onde a tropa perfilada aguardava ao som das fanfarras e clarins. Após salva de artilharia e a continência seguia pela antiga Rua de São Gonçalo, depois do Imperador e mais tarde Marechal Deodoro, entrava pela Quinze de Novembro até a Praça Antônio Prado, virava à esquerda na Rua São Bento, seguia até a Rua Direita, depois até o Largo da Sé, dispersando-se em seguida.

O último ano em que S. Jorge saiu às ruas foi 1872.

Alguns cronistas contam que na procissão daquele ano, no dia 30 de maio, quando S. Jorge passava pela antiga Rua da Imperatriz, atual XV de Novembro, o cavalo de S. Jorge falseou e, caindo sobre um dos soldados o matou na hora. Outros dizem que o soldado ficou apenas ferido ou que a lança do santo atravessou seu corpo.

Na pesquisa para este texto procurei mais evidências deste fato, que não poderia ter passado em branco nos jornais da época, porém o único comentário que li sobre aquela procissão foi o encontrado no jornal Diário de S. Paulo de dois de junho de 1872. Um cronista comentava que no tempo as armaduras o “príncipe da Capadócia” não poderia usar sequer de pistolas, e indagava o que significaria o par de coldres com duas enormes garruchas Laport no selim do santo!

Fiquei surpreso ao encontrar história semelhante na revista 44 do Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, de 1948. No caso quem morreu teria sido um “escravo de nome João”. A surpresa fica por conta de que o caso passou-se na antiga Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto nas Minas Gerais no último decênio do século XVIII. Nesta história S. Jorge acaba passando bons anos na cadeia e hoje, expulso dos altares, é visto apenas no Museu dos Inconfidentes que, por coincidência foi instalado na antiga cadeia.

Em S. Paulo, o fato é que a partir de 1872 nosso S. Jorge nunca mais foi passar suas tropas em revista e nem receber as salvas de artilharia na Praça João Mendes.

Se S. Jorge caiu do cavalo mesmo, não sei dizer, mas quem quiser visitá-lo é só ir ao Museu de Arte Sacra lá na Av. Tiradentes, vai encontrá-lo montado num cavalete e com a lança na mão.

Fontes
Santana, Nuto – Festas Religiosas e Profanas – jornal O Estado de S. Paulo de 24-01-1954, Edição do IV Centenário.
Bueno, Francisco de Assis Vieira – A cidade de São Paulo.
Marques, Gabriel – Ruas e Tradições de São Paulo.
Bruno, Ernani Silva – História e Tradições da Cidade de São Paulo.
Martins, Antônio Egydio – São Paulo Antigo.
Martins, José de Souza – São Jorge caiu do cavalo – jornal O Estado de S. Paulo de 21-11-2011.
Diário de S. Paulo de 02-06-1872.
Moura, Paulo Cursino de – São Paulo de Outrora.

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