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A semente pouco conhecida do Museu Paulista

Museu Paulista 2009

Museu Paulista no Ipiranga em 2009.

Por Edison Loureiro

Em dezembro de 1876, um grupo de influentes personagens organizou a Associação Auxiliadora do Progresso da Província com o objetivo de auxiliar e desenvolver o progresso material e moral de São Paulo.

A primeira tarefa desta sociedade foi a criação de um Museu Provincial com o objetivo de “diffundir os conhecimentos praticos de Historia Natural na classe menos favorecida pela educação scientifica, pondo ao seu alcance objectos de interesse historico e scientifico”. Assim, o Museu Provincial foi inaugurado em 1877, ocupando uma das salas do andar superior do Palácio do Governo.

Logo conseguiram organizar uma coleção com amostras de minérios, madeiras, flechas, urnas funerárias indígenas, fósseis e até uma coleção numismática. Porém, pouco tempo depois já estava semi-abandonado devido à falta de organização, conforme jornais da época. Sem zelador não havia catalogação e conservação do acervo. Também deixou de haver horários regulares para exibição ao público. O jornal A Provincia de São Paulo de seis de outubro de 1880 faz extensa denúncia da situação, reclamando que “Algum curioso que o desejava visitar tinha de andar de Herodes a Pilatos a fim de saber quem tinha a chave da sala”. Termina o artigo sugerindo a doação do acervo à Escola Normal. Durante as reformas que o Palácio sofreu durante o começo da década de 1880, o acervo acabou sendo transferido para uma sala no edifício da Assembleia, onde acabou esquecido.

Ocorre que nesta mesma época, vivia no então Largo Municipal, no número 27, esquina com a rua do Imperador, o coronel Joaquim Sertório, rico comerciante, vereador e além disso, pesquisador, etnógrafo e colecionador.

Como resultado de suas viagens para pesquisas formou uma vasta coleção de espécimes de História Natural, como bichos empalhados, amostras de minerais, vestimentas indígenas, armas, enfeites, vestimentas de personagens históricos e até curiosidades, como a bala que foi extraída do joelho do Ministro da Marinha, o Barão de Ladário, ferido em 1889. Existiam também várias relíquias de interesse histórico, como a armadura de Martim Afonso de Souza e sua espada, as espadas do Brigadeiro Rafael Tobias, as roupas sacerdotais do Regente Padre Feijó, e muitos outros objetos, além de livros, moedas e papel-moeda.

Recebia visitas para exibição de sua coleção em sua própria casa, que acabou conhecida como o Museu Sertório. Ficou famoso, sendo recomendado por alguns visitantes ilustres como Henrique Raffard e Carl von Roseritz. Este último, jornalista, declarou que as coleções do Sr. Sertório “constituem um museu como nenhuma província do país possui e representa valor muito grande”.

Henrique Raffard na sua descrição da visita ao museu que “chegando ao salão do segundo andar, depara-se logo com uma grande tela pintada a óleo representando o Sr. D. Pedro II de tamanho natural nos trajos em que se apresentava na abertura das câmaras; num canto lê-se o nome do autor, F. R. Moreau, e data do trabalho, 1849. Sobre o quadro foi colocada uma etiqueta com a seguinte inscrição:

MUSEU SERTÓRIO

Retrato do ex-Imperador D. Pedro II,
esteve no Palácio do Governo de São Paulo
até o dia 15 de novembro de 1889,
Data da Proclamação da República dos Estados Unidos do Brasil

Atravessando a imagem do corpo do grande príncipe, acha-se escrito a lápis vermelho: Viva a República, e ao lado com uma faca ou canivete, foram feitos verticalmente a uns 15 centímetros de distância dois rasgos paralelos de mais ou menos 1 metro quarenta centímetros”.

Em 1883, Joaquim Sertório chegou a contratar o sueco Alberto Loefgren para organizar a coleção. Loefgren é o mesmo que mais tarde organizaria o Serviço Meteorológico do Estado de São Paulo e fundaria o atual parque Alberto Loefgren, na Cantareira, conhecido como Horto Florestal. Hoje nomeia uma rua da Vila Mariana.

Em 1884, O coronel Sertório assume o compromisso de abrigar e classificar o acervo do Museu Provincial, que, na prática, passa a fazer parte de sua coleção.

Mas, em 1890, Joaquim Sertório vende sua residência ao conselheiro Francisco de Paula Mairink e no negócio entra também o Museu Sertório. No mesmo ano o conselheiro oferece a coleção ao Governo do Estado. Mas o Estado demorou a decidir que destino dar ao acervo, que ficou amontoado em algumas salas da Commissão Geographica e Geologica do Estado na Rua da Consolação.

Finalmente, em agosto de 1893, a Câmara dos deputados apresenta projeto para criação do Museu do Estado a ser estabelecido no Palacio do Ypiranga.

Assim, todo aquele acervo deu origem ao Museu Paulista, hoje popularmente conhecido como Museu do Ipiranga.

Fontes:

Jornal “A Provincia de S. Paulo”, edições de 06-10-1880, 16-12-1880, 22-11-1883, 13-11-1884, 28-11-1888.

Jornal “O Estado de S. Paulo” de 09-08-1893.

MORAES, Fábio Rodrigo de, Uma Coleção de História em um Museu de Ciências Naturais: O Museu Paulista de Hermann Von Ihering, em Anais do Museu Paulista, vol. 16, número 001, Universidade de São Paulo, 2008.

Raffard, Henrique, Alguns dias na Pauliceia.

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