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Cena de sangue na Avenida São João

Nenê

Por Edison Loureiro

Quem passava pela Rua de São João1, à altura do largo Paiçandu, dia 17 de abril de 1913, uma quarta-feira, lá pelas duas horas da tarde, não poderia deixar de notar o rapaz apreensivo e nervoso que andava de um lado para o outro, olhando sempre em direção ao sobrado de número 149.

De repente, para surpresa dos passantes, o rapaz sai numa correria e, na esquina da Rua Onze de Junho2 a uma quadra do teatro Cassino3, sobe no estribo de um táxi que por ali passava devagar. Segurando um revólver com a mão direita, estraçalha a janela do carro e dispara três tiros contra a moça que viajava no banco traseiro e gritava desesperada. Logo após aponta contra a própria cabeça, quando o motorista do carro, com um golpe o desarma.

O soldado da quarta companhia da guarda cívica, José Fernandes Júnior, que estava por perto, correu para imobilizar o rapaz enquanto populares tentavam acudir a moça que ficou desmaiada e ensanguentada no fundo do carro.

Sendo a Central de Polícia ali perto, logo chegou o delegado de serviço, Theóphilo Nóbrega e os médicos Dr. Xavier de Barros, legista e Dr. França Filho, da assistência.

Dois tiros acertaram a moça, um no pescoço e outro na lateral do tórax. Depois dos primeiros socorros foi levada à Santa Casa. O moço foi para a delegacia. O povo se dispersou.

Para entender essa história vamos voltar um pouco mais no tempo e caminhar até a Praça Antônio Prado.

Naquela praça, que os mais saudosos ainda teimavam em chamar de Largo do Rosário, a Rua São Bento faz esquina com a Ladeira de São João4, que naquele tempo era mais íngreme que hoje e ainda estreita. Existiam plátanos plantados na calçada, porém em abril suas folhas começavam a amarelar. Mais umas semanas e estariam pelados.

Naquela esquina ficava o Café Brandão, num prédio antigo, de beirais muito largos, como era costume construir-se na São Paulo do século XIX. Havia sido erguido em 1814 e lá se instalou o Hotel Paulistano de Adolfo Husser e também o Hotel Itália-Brasil. Desde 1896 abrigava o Café Brandão, de Manuel de Souza Brandão. Fazia bastante sucesso, pois a Praça Antônio Prado era o centro nervoso do antigo triângulo paulistano. Bastante frequentado por homens de negócio e políticos durante o dia, à noite compareciam os jornalistas, músicos e escritores para movimentar o ambiente do café.

Café Brandão São Bento x São Joãop

Manuel de Souza Brandão, português, chegou ao Brasil por volta de 1890 e dedicou-se sempre ao comércio. O Café Brandão foi o segundo dirigido por ele e não seria o último. Tinha sete filhos, cinco homens e duas mulheres. O penúltimo levava o seu nome Manuel de Souza Brandão Junior e tinha 21 anos.

Brandão Junior, ou Mimi, como era tratado pelos familiares, era um rapaz muito chegado à boemia e de personalidade impaciente e impulsiva.

Tinha o hábito de frequentar as “pensões chiques” que abundavam na Rua de São João, Formosa, Paiçandu e arredores. As “pensões chiques” ou “pensões alegres” eram eufemismos para uma forma disfarçada de bordéis. Depois de gastarem com bebidas e jantares em companhia das pensionistas, os frequentadores eram “convidados” a pagar a “hospedagem” para passar a noite nos seus quartos. Havia pensionistas fixas, que moravam por um longo período numa pensão, outras temporárias, como as coristas das companhias de teatro que se apresentavam no Polytheama5 ou no antigo Moulin Rouge6, todas, porém atraíam freguesia às casas. Um antigo cronista da cidade contou 16 pensões chiques somente ao longo da Rua de São João, que então terminava na altura da atual Avenida Duque de Caxias.

Pois foi numa dessas pensões que, na noite de 16 de janeiro daquele ano, o Brandãozinho conheceu Maria Emília Machado, conhecida por todos como Nenê. Era jovem, quase uma criança, de cabelos e olhos negros, tinha apenas 17 anos. Chegou à pensão há mais ou menos um ano. Era da vila de Caracol7, Minas Gerais e depois de abandonada pelo noivo depois de um relacionamento, esteve tentando a sorte em Espírito Santo do Pinhal, São João da Boa Vista e Amparo. Chegando a São Paulo, ficou na Pensão Cassino e agora estava “animando as noites” na Pensão Íris, da Dorica, no número 149 da São João, perto do Largo Paiçandu.

Nenê realmente era a atração, chegou a haver brigas por causa dela e o jovem Brandão acabou apaixonado por ela. Passou a frequentar a Pensão Íris assiduamente e praticamente vivia lá, apesar de manter um relacionamento íntimo, porém tumultuado, com Laura Nunes da Pensão Milano8, também na Rua de São João.

Depois de um mês, convenceu Nenê a sair da pensão da Dorica e então a mudou para a Pensão Alemã, na Rua José Bonifácio e depois para a Pensão Malheiros, na Rua Vinte e Cinco de Março, todas familiares. Por último numa na Rua Vitória, no 1.

Tudo isso custava dinheiro e, como estava estremecido com a família devido à vida que levava, arrumou emprego no Café Paraventi, na Ladeira João Alfredo. Ganhava 5$000 (cinco mil réis)9 por dia para fazer entregas.

Quem não gostou nada dessa história foi Dorica. Sem a presença de Nenê a freguesia diminuiu e a receita murchou. Mas não foi difícil para Dorica conseguir que Nenê voltasse para a pensão Íris. Com o temperamento que tinha, Brandão maltratava Nenê e continuava a levar a vida boemia a que estava habituado. Após uma visita de Alexandrina da Costa, sua ex-colega da Pensão Íris no domingo, 14 de abril, Nenê retornou à proteção de Dorica.

Dá para imaginar a fúria do Brandãozinho chegando à Rua Vitória encontrando o quarto fechado e o empregado dizendo que Nenê tinha ido embora acompanhada de outra mulher.

Pergunta daqui, pergunta dali e Brandão descobre o paradeiro de Nenê. Resolve tirar satisfações, e à noite, vai à Pensão Íris. Porém é impedido pelo porteiro de entrar e acaba tendo uma forte discussão com Dorica, chegando a ameaçá-la.

Dorica, preocupada, resolve fazer queixa na Polícia Central. Sabendo disso, Brandão também vai à delegacia onde fica por duas horas se explicando.

Na segunda-feira, desorientado, nervoso e sem conseguir falar com Nenê, Brandão vai falar com seus patrões do Café Paraventi e pede a conta, pois não quer mais trabalhar. Recebeu apenas 10$000, pois já tinha feito vários adiantamentos.

Com essa dinheiro foi a várias farmácias, a Borges, a Central e a Normal e comprou em cada uma delas um vidro com solução de 1 grama de cocaína cada.

Depois dirigiu-se à Pensão Milano conversar com sua amiga Laura Nunes. Nesse momento desabafou, disse que ia se suicidar. E de fato, logo em seguida bebeu o conteúdo de dois dos frascos de cocaína e só não tomou o terceiro, porque foi impedido por outra pensionista, Lígia Casela. Saiu da Pensão Milano ainda mais desnorteado, virou à esquerda e tomou o rumo da Praça Antônio Prado.

Era sete e meia da noite quando Mimi chega ao café Café Brandão. Entrou na cabine telefônica que ficava dentro do salão e pediu uma ligação para a Pensão Milano. Enquanto aguardava tomou o terceiro frasco de cocaína e, quando Laura Nunes atendeu disse-lhe que tinha acabado de beber a cocaína e ia morrer. Logo em seguida, largou o telefone e caiu no chão gemendo de dor.

E lá veio o Dr. França Filho, da assistência para os primeiros socorros.

Havia uma carta num dos bolsos do rapaz, porém nada explicava, apenas pedia perdão aos pais dizendo que havia “chegado o momento de deixar de ser homem”.

Brandão foi internado para tratamento na Beneficência Portuguesa, que ficava na Rua Tobias de Aguiar.

Na terça-feira, por suas vezes, Brandão Junior pediu a amigos que levassem recado a Nenê para que viesse vê-lo no hospital. Mas foi infrutífero. Nenê não aparecia nem dava resposta. Na quarta-feira, 17 de abril, Brandão Filho resolve fugir do hospital e resolver as coisas a seu modo.

Descendo a Brigadeiro Tobias, entrou à direita na Rua do Seminário e comprou um revolver na Casa De Meo. Dirigiu-se ao Largo Paiçandu e ali esperou por uma oportunidade de atrair Nenê, pois sabia que não seria recebido na pensão.

Logo viu um amigo que passava e pedi-lhe que fosse à Pensão Íris para saber se Nenê estava lá. O rapaz voltou e disse que não só estava como ia sair dentro em breve.

Eram duas da tarde quando viu Nenê tomar um táxi que subiu a São João… e daí em diante você já sabe.

Nenê foi levada à Santa Casa e ficou sob os cuidados do Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho, que naquela época estava colaborando com a criação da Faculdade de Medicina, da qual seria um dos fundadores e primeiro diretor. Sobreviveu ao atentado.

Brandão Junior sofreu processo por tentativa de homicídio e foi ao tribunal de júri em 12 de junho do mesmo ano. Foi absolvido por unanimidade, reconhecendo o júri que o réu estava “em estado de perturbação de sentidos e de Inteligência mo ato de cometer o crime”.

Para o Sr. Manuel de Souza Brandão, o pai de Brandãozinho, a década de 1910 não foi feliz. Além de toda a dor de cabeça do Junior, em outubro de 1915 morre seu filho mais novo, Jayme com apenas 17 anos e o próprio Brandão Junior morre dois anos depois em novembro de 1917.

Por coincidência onze anos depois, em São Paulo, outra Nenê levou dois tiros de revolver de um boêmio tresloucado dentro de um táxi seguido de um suicídio, num crime passional. Mas neste caso o desfecho foi fatal…

Notas

1 – Atual Avenida São João. Neste ano ainda não tinha sido alargada.

2 – Atual Rua D. José de Barros.

3 – Ficava na esquina da D. José de Barros com a Vinte e Quatro de Maio, no local onde futuramente se instalaria a loja Mesbla.

4 – Nome pelo qual era chamado o trecho da Av. São João da Rua São Bento até o Anhangabaú.

5 – O Polytheama ficava na Ladeira de São João e tinha uma porta de serviço na Rua Formosa. Era um grade barracão de zinco, pertencia à Companhia Antarctica Paulista. Foi destruído num incêndio em 1914.

6 – Ficava na esquina da Av. São João com a D. José de Barros, onde está a Galeria Olido. Em 1905 mudou de nome para Teatro Carlos Gomes e depois Teatro Variedades. Após o alargamento da São João tornou-se Teatro Avenida.

7 – Atual município de Andradas em Minas Gerais.

8 – Ficava no antigo numero 30 da São João. Para mais detalhes veja o texto “A Pensão Milano”

9 – Para efeito de comparação, o Jornal O Estado de S. Paulo custava $100, Uma casa na Rua Augusta, com dois dormitórios era vendida por 5:000$000 (cinco contos).

Fontes

Jornais O Estado de S. Paulo e Coreio Paulistano das épocas citadas.

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  1. 13/04/2016 às 19:24

    muito interessante gostaria de ler outras historias muito bom

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