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O Café e a Tartaruga

1896-1900

A Rua XV de Novembro na década de 1890 vista em direção Sé.

Por Edison Loureiro

Na década de 1890 existiu em São Paulo uma casa de chope denominada A Bodega. Ficava na Rua XV de Novembro, antigo número 52. Era próxima do antigo Largo do Rosário, do lado esquerdo de quem vai para a Praça da Sé.

Era um ponto de encontro da rapaziada da Academia e também dos profissionais da imprensa. O proprietário do estabelecimento, Antônio Silveira Faria, era um tipo popular e amável com todos. Seu sócio era o espanhol Severo Alonso Domingues.

Mas na segunda-feira, 11 de julho de 1899 quem foi até a Bodega para um chope e bate-papo deu com o nariz na porta. O Faria mandou avisar seus amigos jornalistas que iria fazer algumas reformas e reabriria dentro de uns quinze dias.

Não foram quinze dias, mas pouco mais de um mês depois os representantes da imprensa foram convidados a conhecer o novo estabelecimento que recebeu o nome de Café Guarany. Com vinte mesas de botequim para o café, copa, cozinha, despensa e uma novidade: “um local com um elegante tinteiro e canetas, onde qualquer pessoa do público pode escrever cartas, cartões, etc., tudo por preço cômodo: grátis”. Bem, uma espécie de Wi-Fi e WhatsApp do fim do século XIX. A inauguração ocorreu num sábado, 20 de agosto de 1899.

A parte destinada ao restaurante somente ficaria pronta no ano seguinte.

No domingo dia três de junho de 1900, saía no jornal Correio Paulistano reportagem anunciando a inauguração do “salão-galeria” do café Guarany, “galeria” porque tinha entrada também pela R. Boa Vista.

O inusitado era que quem passava em frente ao café naquele domingo surpreendia-se ao ver à porta do estabelecimento uma enorme tartaruga marinha de 142 quilos esparramada. O coitado do bicho iria se transformar em sopa e suculentos “filets” de tartaruga a serem servidos no cardápio de inauguração, o que realmente aconteceu na quarta-feira seguinte.

CP 04-06-1900 Café Guarany detalhe1Jornal Correio Paulistano de 03-06-1900

Bem, o Restaurante e Café Guarany passou por outras reformas e acabou se tornando num dos mais populares da cidade, frequentado preferencialmente por estudantes, jornalistas e intelectuais. Consta que era o favorito de Monteiro Lobato e seus amigos do tempo de Academia, que aí se reuniam sempre na primeira mesa da entrada à direita. Também  Voltolino, seu ilustrador, deixou muitas caricaturas desenhadas no mármore das mesas. Amadeu Amaral alguns sonetos.

Por outro lado o cardápio da inauguração do restaurante deixaria horrorizados os ambientalistas atuais. Mas eram outros tempos, o projeto Tamar ainda demoraria 80 anos para se tornar realidade.

Cigarra 21-04-1915 1

Cigarra 21-04-1915 2Dois aspectos do Café Guarany em 1915. Na parte superior ficava uma pequena orquestra.

O café Guarany tornou-se um ponto de referência na cidade de São Paulo e funcionou até a segunda metade da década de 1930.

Notas

1 – Jornal Correio Paulistano de 11-07-1899.

2 – Jornal Correio Paulistano de 19-08-1899.

3 – Jornal Correio Paulistano de 03-06-1900.

4 – MARQUES, Cícero, Tempos Passados, Moema Editora Ltda., São Paulo, 1942.

5 – SCHMIDT, Afonso, São Paulo dos Meus Amores, Editora Paz e Terra, São Paulo, 2004.

6 – CAVALHEIRO, Edgard, Monteiro Lobato Vida e Obra, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1956.

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