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O Roubo da Cruz Preta

1862

A Rua Quintino Bocaiúva em 1862. Ao fundo a torre da igreja da Misericórdia.

Por Edison Loureiro

Houve um tempo em São Paulo que as ruas eram conhecidas pelo nome de seus moradores, ou por algum fato pitoresco ligado a elas, ou mesmo pelo seu destino. A Rua Quintino Bocaiúva foi inicialmente conhecida pelo nome de Rua do Padre Tomé, devido ao cônego Tomé Pinto Guedes que aí residia por volta de 1765. Depois passou a ser chamada de Rua da Cruz Preta, pois na esquina com a antiga Rua da Freira, agora conhecida como Rua Senador Feijó ergueu-se uma grande cruz de madeira pintada de preto. Após a visita da família real a São Paulo, foi chamada de Rua do Príncipe. O nome atual é de 1916.

Hoje não se sabe mais em lembrança de qual alma aquela cruz foi erguida, mas o povo a cultuava e era chamada também de Cruzeiro da Caixa d’Água, pois ali pertinho ficava um reservatório de água que foi construído no final do século XVIII.

Numa manhã no finalzinho da década de 1820, o povo levou um susto. A cruz preta havia sumido, sobrou somente o pedestal que a sustentava. Por que roubariam um objeto de tão pouco valor? Deveria ser obra de várias pessoas, pois a cruz era grande e pesada. Sua altura chegava até a janela do sobrado da esquina, onde se apoiava. A coisa ficou mais misteriosa depois que se espalhou o boato de que fora vista sendo carregada por uns anjos que voavam pela cidade.

A cruz logo foi encontrada nas águas do rio Anhangabaú, perto da ponte do Lorena. Manuel José da Ponte morava na ladeira do Piques, atual Rua Quirino de Andrade e com a ajuda de outros devotos, acabou construindo uma capela no Largo do Piques, atual região da Praça da Bandeira. A capela ficou conhecida como Santa Cruz do Piques e durou até a década de 1930, e o Manuel acabou ficando conhecido também como Manuel José da Cruz.

Chegaram à conclusão que o sumiço da cruz preta só poderia ser obra dos estudantes da academia, que eram conhecidos por suas brincadeiras. As famosas estudantadas.

A história toda só foi revelada em detalhes 60 anos depois, quando o livro Fantasias e Reminiscências de Domiciano Leite Ribeiro, o visconde de Araxá, foi publicado após sua morte.

No sobrado que existia na esquina da então Rua da Freira, com a Rua da Cruz Preta, morava uma moça, Maria Luisa Silveira da Mota, que despertava paixão nos estudantes da Academia. Muitos até fingiam que iam rezar junto à cruz só para ver se conseguiam atrair os olhares dela.

Correu então, entre os estudantes, a história que um dos rapazes empoleirava-se na cruz para fazer suas

serenatas e era correspondido, entrando pela sacada e só saindo no dia seguinte. Os estudantes, despeitados ou por chiste, resolveram tirar a cruz e assim o fizeram. Depois ainda espalharam o boato a respeito dos anjos.

O próprio seresteiro apaixonado acabou comandando a estudantada. Mas apaixonado, continuou cortejando a moça, agora escalando sua sacada. Acabou sendo surpreendido e obrigado a casar-se com ela.

Fizeram casar-se à força

Com quem muito ele queria

 O casamento era tudo que o casal queria…

O rapaz era Ignácio Manuel Álvares de Azevedo, apelidado de Mãozinha, pois em seu tempo de estudante em Coimbra, durante uma caçada apoiou-se na boca de uma espingarda armada para pular uma vala. A espingarda disparou e feriu-lhe a mão que ficou defeituosa.

Deste casamento nasceria em 1831, nesta mesma casa, o poeta Álvares de Azevedo que morreu prematuramente aos 20 anos.

Fontes

MOURA, Paulo Cursino de, “São Paulo de Outrora”, 1932. Editora Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1980.

VAMPRÉ, Spencer, “Álvares de Azevedo na Academia”, conferência realizada no salão nobre da Faculdade de Direito em comemoração ao primeiro aniversário do nascimento do poeta, 1931.

NOGUEIRA, Almeida, “A Academia de São Paulo – Tradições e Reminiscências”, Quinta Série, São Paulo, 1908.
MARTINS, José de Souza, No tempo de Álvares de Azevedo, jornal O Estado de S. Paulo de 24/05/2010.
Azevedo, V. P. Vicente de, “Álvares de Azevedo desvendado”, Livraria Martins Editora, Brasília, 1977.

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