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As Mocinhas da Casa Verde

CORREIO GERAL 1910Pateo do Colégio cerca de 1910

Por Edison Loureiro

A foto mostra o antigo edifício dos Correios (à direita) em 1910, na esquina da Rua Anchieta com o Pátio do Colégio. No lugar está hoje o prédio do antigo Tribunal de Alçada.

A pequenina Rua Anchieta já foi conhecida como Beco do Bispo, Travessa para o Colégio e Rua do Palácio. Uma das primeiras referências a ela foi como “Rua que principia do Pateo do Collegio the o Procurador da Fazenda Real”. Faz a ligação do Pátio do Colégio com a Rua XV de Novembro.

Num certo dia do ano de 1776, o funcionário encarregado de um dos primeiros recenseamentos feitos em São Paulo bateu à porta do número 11 daquela rua que então era conhecida como Travessa para o Collegio. Anotou que ali morava o antigo mestre de campo, agora coronel Agostinho Delgado Arouche, escrivão da Ouvidoria Geral da Capitania de São Paulo. O funcionário anotou também que o coronel estava com 53 anos. Talvez tivesse escutado mal, pois conforme Nuto Santana, o coronel nasceu em Araçariguama em 1720, portanto estaria com 56 anos.

Para completar o trabalho, o tal funcionário registrou os nomes e idades dos filhos: Francisco 14, Anna 24, Caetana 24, Pulquéria 19, Maria 16, Gertrudes 14, Joaquina 13 e Rudezinda 11. Morava lá também a cunhada, Úrsula Maria, a sobrinha, Ângela Maria e a enteada Ana Maria. Por alguma razão não constou os nomes dos outros filhos do coronel Agostinho, Francisco Leandro, José Arouche e Diogo de Toledo. Talvez nesta época estivessem estudando em Portugal, de onde voltariam doutores em leis pela Universidade de Coimbra.

Era uma família ilustre, descendentes que eram do famoso Amador Bueno da Ribeira, aquele quase rei de São Paulo. Agostinho, nesta época viúvo, havia sido casado com Maria Thereza de Lara Araújo Rendon que faleceu em 1763.

Os meninos tornaram-se figuras famosas, Diogo de Toledo Lara Ordonhes ocupou todos os cargos da magistratura até o de desembargador do Paço e Conselheiro da Fazenda. Foi deputado da Assembleia Constituinte de 1826. Fez em vida a doação de uma fazenda para a construção do prédio da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Morreu solteiro em 1826.

Francisco Joaquim de Toledo Arouche também morreu solteiro, ordenou-se padre e foi cônego arcipreste da Sé de São Paulo. Faleceu em 1841.

Francisco Leandro de Toledo, também doutor em leis, casou-se com Joaquina Josefa Pinto da Silva e, enviuvando, tornou a casar-se com Ana Cavalheiro com quem teve duas filhas. Faleceu em 1810.

O tenente-general Dr. José Arouche de Toledo Rendon, ocupou muitos cargos no governo, além de ter sido o primeiro diretor da Academia de São Paulo, que se transformaria na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, primeiro diretor do Jardim da Luz e proprietário da chácara onde plantava chá que deu origem ao Largo do Arouche e ao bairro de Vila Buarque. Foi casado com Maria Teresa Rodrigues de Moraes com quem nunca teve filhos. Porém teve um casal de filhos fora do casamento. D. Maria Teresa, muito compreensiva e tolerante, aceitou criar a enteada Maria Benedita.

Quanto às sete meninas, filhas do coronel Agostinho, estas nunca se casaram. Viveram naquela casa da Travessa para o Collegio por praticamente toda a vida. E eram poderosas as mocinhas. Tinham terras, chácaras, quarenta escravos de ganho e não tinham receio de enfrentar a municipalidade. Quer um exemplo?

Pegado ao sobrado em que viviam tinha uma casa baixa que avançava quase até o meio da então Rua do Rosário, atual XV de Novembro que também pertencia a elas. Pois em 1822 a municipalidade resolveu acertar o alinhamento da XV de Novembro. Mas a Câmara não conseguiu um acordo, pois as mocinhas somente concordavam em vender exclusivamente a parte que fosse preciso para o alinhamento da rua e queriam um conto e quatrocentos mil réis e ainda livre de impostos. Porém a Câmara avaliava todo o imóvel por 472 mil réis.

As mocinhas bateram o pé. Disseram que não queriam desfazer-se do imóvel, e que já tinham feito muitas doações ao Estado, como o “terreno onde é a Praça do Ouvidor, na cidade nova, do terreno onde está o Jardim Botânico, uma parte do Hospital Militar” e outros.

Abre parêntesis. A Praça do Ouvidor é hoje o Largo do Arouche, o Jardim Botânico é o atual Jardim da Luz e o Hospital Militar ficava num prédio situado na ladeira de Santa Ifigênia, atual Rua do Seminário. No mesmo prédio instalou-se depois o Seminário das Educandas da Glória. Fecha parêntesis.

A briga foi longa, mas resumindo, a Câmara não conseguiu a desapropriação.

Por não terem se casado, as sete irmãs ficaram conhecidas como mocinhas da casa verde mesmo depois de velhinhas. E por que casa verde?

Acontece que entre as propriedades das mocinhas havia uma grande chácara em terras que haviam sido propriedade de Amador Bueno da Ribeira. Ficava na margem direita do rio Tietê, atual zona norte da capital. E aí nossa história se divide.

Dizem alguns cronistas que o sobrado em que viviam, arquitetura colonial de taipa de pilão, tinha as janelas e peças aparentes de madeira pintadas de verde. Ou talvez toda a casa fosse pintada de verde. Por este motivo as mocinhas ficaram conhecidas como as mocinhas da casa verde. E o sítio delas acabou herdando o nome como o Sítio das Mocinhas da Casa Verde ou simplesmente Sítio da Casa Verde.

Uma outra versão diz o contrário. O sítio já se chamava Sítio da Casa Verde devido a uma casa desta cor que havia por lá. Como as mocinhas eram donas da terra, ficou o apelido, as Mocinhas do Sítio da Casa Verde. Como é uma destas histórias de São Paulo onde a tradição se confunde com a história, ficou a polêmica.

O sítio era administrado pelo irmão o tenente-general Dr. José Arouche de Toledo Rendon que ali já na década de 1790 produzia café em pequena escala. O suficiente para consumo próprio e abastecer parentes e conhecidos.

Na década de 1850 as terras do sítio Casa Verde passaram para a propriedade de Francisco Antônio Baruel que depois as venderia ao tenente-coronel Fidelis Nepomuceno Prates. Em 1882 o a propriedade passou às mãos de João Maxwell Rudge e seus filhos resolveram transformar a fazenda em empreendimento imobiliário.

O primeiro lote da região foi vendido em 1913 e o nome oficial do futuro bairro era Vila Tietê, mas a tradição foi mais forte e prevaleceu o nome de bairro da Casa Verde, como é até hoje.

Bem, as mocinhas realmente moraram na antiga travessa do Palácio, pois o registro do recenseamento de 1776 dá provas disto, e o recenseamento de 1817 nos diz que continuavam morando lá depois de 41 anos. Quanto à origem do nome Casa Verde , bem… Você escolhe.

As mocinhas morreram ricas e solteiras. Já a filha natural de José Arouche de Toledo Rendon, a Maria Benedita que eu citei lá atrás, esta casou-se, não teve filhos e o que é mais estranho, morreu solteira. História esquisita, não? Eu conto outro dia.

Fontes

Santana, Nuto – Uma Família Estéril – Jornal O Estado de S. Paulo de 08/06/1938.

Santana, Nuto – As Meninas da Casa Verde – Jornal o Estado de São Paulo de 21/06/1936.

Marques, Manuel Eufrásio de Azevedo – Apontamentos Históricos – Livraria Martins Editora – São Paulo 1954.

Taunay, Affonso de E. – Notas sobre os primórdios da lavoura cafeeira em São Paulo – Jornal Correio Paulistano de 08/11/1927.

Rodrigues, Jorge Martins – A história do café em São Paulo – Jornal Correio Paulistano de 24/09/1937.

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  1. 02/07/2015 às 11:05

    Que bom que se anota tudo , assim que se conta histórias …Adorei saber da historia da Casa Verde .

  2. Anna maria Arouche Abdalla
    27/01/2016 às 00:09

    Só tenho uma correção a fazer : O Ten. General José Arouche de Toledo Rendon foi casado com D. Maria Thereza Leite de Moraes, não Maria Thereza de Lara.
    Sua mãe, sim , era D. MariaThereza de Araujo e Lara.(in Antonio Barreto do Amaral)

    • Edison Loureiro
      27/01/2016 às 10:26

      Você tem razão Anna Maria. Confundi as “Marias Therezas”. Já corrigi o texto. Grato pela atenção.

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