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O Casamento Frustrado da filha do General Arouche

1874

O conjunto Franciscano começo da década de 1870 no largo de S. Francisco. A Academia foi instalada no convento à esquerda.

Por Edison Loureiro

Numa publicação anterior sobre as meninas da Casa Verde eu comentei sobre Maria Benedita, a filha adotiva do general José Arouche de Toledo Rendon, aquela que casou, não teve filhos e por estranho que pareça, morreu solteira.

Tudo começou quando chegou a São Paulo o Dr. Prudêncio Giraldes Tavares da Veiga Cabral em 1829, nomeado lente Catedrático do Curso Jurídico da Academia recém-inaugurada.

Nascido em Cuiabá em 22 de abril de 1800, bacharelou-se em Coimbra e ocupou cargos importantes no Rio Grande do Sul, Maranhão, Ceará e Cisplatina. Estava, portanto com 29 anos quando veio assumir a cadeira de Direito Pátrio Civil naquela que seria a precursora da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Conforme descrição de um cronista da época era alto, magro, meio curvo, corpo mal delineado, nariz grande, olhos pretos e face pálida. Numa época em que predominavam abundantes barbas e bigodões, tinha a cara totalmente raspada.

Dizem os memorialistas que era uma pessoa de grande inteligência e vasta cultura jurídica. Porém tinha algumas singularidades e excentricidades. Uma delas era o pouco caso que dava aos deveres catedráticos, volta e meia cabulava as aulas. Também não era muito afeito a se alongar nas explicações em sala de aula, mas justificava:

­“Por que preocupar-me com longas e desenvolvidas explicações? Se eu me fatigasse em explanar todo o assunto os senhores não teriam que estudar, bastaria ouvir e sairiam da sala com toda a lição sabida. Isto eu não quero. Estudem, esforcem-se, queimem as pestanas como eu fiz para saber tanto quanto eu.”

Naquele tempo era tradição os alunos referirem-se ao mestre como “a Cadeira” ou a “ilustríssima Cadeira”, porém Veiga Cabral irritava-se com este tratamento. Por outro lado ficava todo cheio quando era tratado como “excelência”, “preclaro mestre”, “erudito lente” e outras expressões semelhantes.

Era também totalmente contrário ao casamento. Não que tivesse algo contra as representantes do sexo frágil, tanto que quando chegou a São Paulo já tinha um filho natural nascido no Rio Grande do Sul e depois ainda veio a ter outro em São Paulo. Apenas era um celibatário convicto.

Mas numa destas esquinas do destino, ou concretamente, numa visita à chácara do General Arouche, que na época era o diretor da Academia, conheceu a Maria Benedita e aí acabou fisgado. Veio o namoro, o pedido de casamento e estava feito. O processo todo até que foi rápido, pois o casamento ocorreu no dia 22 de dezembro de 1830. Existia uma considerável diferença de idades, Veiga Cabral estava com 30 anos e Maria Benedita com 42.

Casaram-se dia 22 e no dia 23 já estavam separados. O que aconteceu?

Dizem as crônicas daquele tempo que Veiga Cabral, já no quarto nupcial caiu em si da besteira que fez contra suas convicções e, diante da noiva, começou a andar pelo quarto gritando:

“Cabral, Cabral, que fizeste Cabral? Ficaste louco Cabral? Cabral, tu te casaste?”

Desse ponto em diante os cronistas antigos divergem. Spencer Vampré diz que a noiva, pensando que o marido tivesse enlouquecido foge da casa de Cabral correndo a refugiar-se na casa do pai. Já Almeida Nogueira conta que Veiga Cabral saltou pela janela, abandonou a casa e “nunca conviveu com mademoiselle Cabral, sa femme”.

Seja como for, o fato é que o casal nunca conviveu e aquele casamento nunca chegou a ser consumado.

Era um tempo em que não existia o casamento civil, somente a cerimônia religiosa e esta tinha força de lei. Correu então um processo, comentadíssimo como era de se esperar, que culminou com audiência do próprio papa Gregório XIV. Após todos os complicados e demorados trâmites, o casamento foi julgado não consumado, com separação, a 26 de novembro de 1831. Tudo a requerimento de Maria Benedita, como o historiador Nuto Santana verificou na certidão passada na paróquia de Santa Efigênia assinada pelo padre Antônio Joaquim da Silva. Um caso de ratum sed non consummatum.

Correu depois uma história dizendo que após a morte do General Arouche, Veiga Cabral pretendeu sua parte da herança. Obviamente a quase ex Sra. Cabral fez oposição alegando a dispensa papal. Dizem que Cabral contestou afirmando que sim, naquela noite havia exercido seu papel de marido plenamente.

Teria feito mais. Solicitou exame médico para atestar sua afirmação, apostando na hipótese de ser altamente improvável a virgindade da moça depois de passado tanto tempo. Maria Benedita para não passar por constrangimento teria concordado em repartir a herança.

Mas o que está nesses dois últimos parágrafos é apenas fofoca de gente maldosa. Fica a seu critério acreditar.

Fontes

SANTANA,Nuto. Metrópole, Volume II, Coleção Departamento de Cultura, São Paulo, 1952
NOGUEIRA, Almeida. A Academia de São Paulo Tradições e Reminiscências, Segunda Série, São Paulo 1907.
AZEVEDO, Vicente de Paulo Vicente de. José Arouche de Toledo Rendon. São Paulo 1918.

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