Início > Sem categoria > A Casa da Ópera – O primeiro teatro de São Paulo

A Casa da Ópera – O primeiro teatro de São Paulo

Foto

Pátio do Colégio cerca de 1860. À direita parte da Casa da Ópera. Ao centro a igreja do Colégio.

Foto de Militão Augusto de Azevedo

Por Edison Loureiro

São Paulo tem 164 teatros, além de 260 salas em 55 cinemas e várias salas de espetáculo1.

Claro que não foi sempre assim. Durante os primeiros duzentos anos de existência, São Paulo não tinha nenhum teatrinho.

O primeiro teatro digno desta denominação foi a Casa da Ópera que ficava no Pátio do Colégio ao lado da igreja dos jesuítas, com fundo para a antiga Rua da Fundição, atual Rua Floriano Peixoto.

Não que não existisse nenhuma atividade teatral, desde os tempos em que Anchieta andava por aqui sempre houve representações. O próprio padre usava técnicas teatrais na sua catequização dos indígenas no velho colégio de São Paulo de Piratininga. Durante as festas religiosas e datas festivas aconteciam manifestações, que poderiam ser classificadas de teatrais, ao ar livre ou em tablados2.

Em 1762 três personagens tentaram fazer um teatro: Luis Lopes Coutinho, Pedro Luiz Seixas e o capitão José Dias Cerqueira que alugaram o casarão de João Dias por 640 réis e instalaram a primeira Casa da Ópera. O casarão ficava na Rua São Bento entre o largo do mesmo nome e o antigo Largo do Rosário, atual Praça Antônio Prado. Mas ao que tudo indica o teatro profano não era bem visto pelas autoridades, pois em 1763 a Câmara intimou os responsáveis a apresentarem a ordem de sua majestade que teriam para fazerem a ópera. Parece que os responsáveis não deram muita bola para a notificação da Câmara, pois em 1764 uma ata da Câmara registrava era “grande ofensa a Deus o que na dita Casa de Ópera se causa”3.

Ninguém sabe exatamente como terminou a pendenga, nem que fim levou aquela antiga Casa da Ópera.

Em 1770 o primeiro governador de São Paulo, Luís António de Souza Botelho Mourão, conhecido pelo título de Morgado de Mateus consentiu que se fizesse um teatrinho no porão do Palácio do Governo, que ficava no Pátio do Colégio, um edifício contíguo à igreja dos jesuítas4.

Depois, em 1793, Bernardo José Maria Lorena e Silveira manda reformar a antiga Casa de Fundição, onde se cunhava o ouro para registrar o pagamento do “quinto real” e o espaço foi transformado na casa da Ópera, com capacidade para 350 pessoas. Não pense, porém em espetáculos líricos. A palavra ópera era usada genericamente para apresentações teatrais e os teatros eram comumente chamados de Casa da Ópera5.

Auguste de Saint-Hilaire, que visitou São Paulo em 1819, assistiu a uma apresentação naquele teatro e o descreveu como uma casa pequena, de um único andar, baixa, estreita, sem nenhum ornamento arquitetônico, pintada de vermelho, com três largas janelas de postigos negros. Entrava-se num vestíbulo estreito por onde se vai aos camarotes e à plateia. A sala, muito bonita e com três ordens de camarotes, era iluminada por um lustre central e velas colocadas entre os camarotes.

Quando Saint-Hilaire chegou, a plateia já estava ocupada. Somente homens sentados em bancos. No começo do século XIX as mulheres só saiam de casa para ir à igreja ou visitar parentes, e mesmo assim acompanhadas da família. O francês reparou que os atores eram todos operários mulatos e as atrizes eram mulheres públicas, cujo talento era proporcional à sua moralidade6. Pareciam fantoches.

As cadeiras eram um problema à parte, pois ao terminar a sessão, saíam todos ao mesmo tempo carregando suas cadeiras e era um tumulto. Os mais apressados, normalmente estudantes, que estavam na plateia chegavam a escalar os camarotes em vez de sair normalmente pelos corredores. Em 1854 a companhia dramática chegou a publicar uma nota no jornal Correio Paulistano dizendo que nos dias posteriores aos de espetáculo “achar-se-ha aberto o theatro das 11 horas da manhã ás 3 da tarde, a fim de quem quizer mandar procurar suas cadeiras.”7 Pois era assim, quem quisesse sentar-se que trouxesse sua cadeira de casa.

A pequena casa da Ópera, que já era conhecido como Teatro da Ópera, teve seus momentos de glória. Na histórica noite de sete de setembro de 1822, D. Pedro I, então Príncipe Regente do Brasil foi aclamado com gritos de “Viva o rei do Brasil” e o espetáculo daquela noite teve declamação de poemas e até a execução do Hino da Independência, composição de D. Pedro e por ele mesmo executado. É claro que Domitila de Castro Canto e Melo, futura marquesa de Santos, estava presente. Seu romance com D. Pedro estava apenas começando8.

No período de 1830 a 1835 os estudantes da Academia de Direito alugaram o teatro, através da Sociedade Acadêmica, constituída para este fim9.

Após o encerramento do contrato com os estudantes, o teatro passou por várias administrações e até mudou de nome, passando a ser conhecido por Teatro São Paulo.

No final da década de 1860 o casarão estava em péssimas condições e em 27 de junho de 1870 o presidente da província aprova o contrato para demolição do velho teatro10.

O empreiteiro que aceitou o contrato foi Antonio dos Santos Chumbinho, um personagem bastante conhecido de todos os paulistanos da época. Católico fervoroso dedicava as manhãs a cuidar das igrejas, armar os anjos para as procissões, à tarde cuidava de seus negócios e à noite sua paixão era o teatro. Lá fazia de tudo, cenógrafo, iluminador, e também ator. Descobria peças inéditas, montava e representava como cômico.

Chumbinho se desincumbiu da tarefa meio a contragosto e só no final de agosto daquele ano o velho casarão virou entulho. Conta-nos um antigo cronista que naquela tarde Chumbinho foi visto “chorando apaixonadamente junto aos escombros do casarão”11.

Poucos anos depois Chumbinho ficou completamente cego, dependendo da caridade de seus amigos para sobreviver. Chegou a viver da caridade do Major Diogo com um emprego de favor na fábrica de tecidos do Beco da Fábrica, na Florêncio de Abreu e em 19 de maio de 1877 publicou uma comovente carta no jornal O Estado de S. Paulo solicitando ajuda da população.

OESP 29-05-1877

Jornal O Estado de S. Paulo de 29/05/1877

Mas quando o pioneiro Teatro da Ópera veio abaixo, outros dois já estavam em funcionamento em São Paulo: o Teatro São José e o pequenino Teatro do Batuíra. Ambos com histórias interessantes, mas, como dizia Júlio Gouveia quando apresentava o Sítio do Pica-pau Amarelo: Isto é uma outra história, que fica para uma outra vez…

Notas

1 – Dados apurados pelo São Paulo Convention & Visitors Bureau em 2013.

2 – Edson Santos Silva, Em busca de um mercado fictício: as casas da ópera na cidade de São Paulo, in Todas as Musas, Ano I Número I, 2009.

3 – Idem.

4 – Idem e Antônio Barreto de Amaral em História dos Velhos teatros de São Paulo, apud Cássio Santos Melo,  Caipiras no Palco: Teatro na São Paulo da Primeira República, Dissertação, UNESP, 2007.

5 – Edson Santos Silva, op. cit..

6 – Auguste de Saint Hilaire, Viagem à província de São Paulo, Livraria Martins, 1940, São Paulo.

7 – Jornal Correio Paulistano de 07-07-1854.

8 – Paulo Magalhães, A Casa da Ópera, in O Estado de S. Paulo de 25-12-1952 et aL..

9 – Edson Santos Silva, op. cit..

10 – Jornal Correio Paulistano de 01-07-1870.

11 – Ernani Silva Bruno, História e Tradições da Cidade de São Paulo, Vol III, p 875, Editora Hucitec, São Paulo 1984.

Anúncios
Categorias:Sem categoria
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 08/08/2015 às 19:51

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: