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O Começo e o Fim do Teatro São José

Praça_João_Mendes,_c._1860O Teatro São José ainda inacabado em 1862.

Por Edison Loureiro

O lado da Praça João Mendes que fica atrás da Catedral chamava-se Rua do Teatro e seguia até a Tabatinguera. Posteriormente foi chamada de Rua Irmã Simpliciana em homenagem à Madre Maria Simpliciana Faffin, francesa, natural de Chambery que veio para o Brasil muito jovem, prestou serviços à Santa Casa de Misericórdia, dirigiu o externato São José de 1825 a 1923 e esteve na Europa durante a Primeira Guerra como enfermeira. Hoje esta rua não existe mais, porém seu nome continua sendo homenageado em outra rua, naquele que era o último trecho da Rua Onze de Agosto, uma travessa da Rua Floriano Peixoto, atrás da Caixa Cultural.

O nome Rua do Teatro deve-se ao fato que ali, exatamente onde hoje está o fundo da catedral da Sé, foi construído o Teatro São José, inaugurado em 1864, quando a velha Casa da Ópera do Pátio do Colégio já estava toda deteriorada. Veja A Casa da Ópera.

A construção do Teatro São José foi turbulenta. Foi decidida em 1854, quando a Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo autorizou por lei o governo a contratar a construção do novo teatro. A construção ficaria a cargo do mesmo empreiteiro que havia realizado a reforma da antiga Casa da Ópera, Antônio Bernardo Quartim e seriam sócios o governo e Quartim, que ficaria com a concessão do teatro por vinte anos.

Mas Quartim, político filiado ao Partido Conservador e protegido de seus correligionários políticos, já havia mostrado que competência nas obras públicas decididamente não era seu ponto forte. Já havia conseguido seu cargo de administrador do Jardim Público, praticamente por herança, pois o cargo era exercido por seu pai, o tenente-coronel Antônio Maria Quartim e as obras que executou na reforma da Casa da Ópera não foram lá grande coisa.

Mas a cidade animou-se com a perspectiva de um novo teatro. Conforme o contrato assinado, a nova casa teria “72 camarotes, cada um com 6 palmos de frente e 13 de fundo, uma tribuna decente para o Presidente, tudo cercado por corredores com suficiente largura, uma plateia com 350 assentos e 100 cadeiras, e, além disso, salas espaçosas para recreio, bem como para pintura e guarda-roupa, e 2 botequins no saguão, sendo as paredes do edifício de pedra”.

 Conforme Eudes Campos no artigo O capitão Antônio Bernardo Quartim ou o ABC da Engenharia, o projeto deve ter sido feito pelo engenheiro Francisco Antônio de Oliveira.

Após um período de indefinição sobre a localização do novo teatro, pois havia a opção do Largo São Francisco, onde hoje está a Escola de Comércio Álvares Penteado, a escolha acabou caindo no largo São Gonçalo. O lançamento da pedra fundamental foi em sete de abril de 1858, com direito a grandes comemorações, discursos, hinos e até salva de tiros.

O prazo para a obra era de três anos, porém Quartim ficou conhecido por obras de baixa qualidade e custos sempre altos. Os constantes atrasos e solicitações de verbas adicionais provocaram a crítica da imprensa como a charge de Ângelo Agostini.

QuartimCharge de Ângelo Agostini publicada na revista O Cabrião em 1867

Por fim, mesmo com as obras não concluídas, o teatro foi inaugurado em 4 de setembro de 1864, a plateia com chão de terra e por um bom tempo, quem quisesse sentar para melhor apreciar os espetáculos, que levasse a cadeira de casa. Esta foi a primeira inauguração, quando foi apresentada a peça A Túnica de Nessus do então estudante Sizenando Nabuco, irmão de João Nabuco.

Apesar de funcionar em precárias condições a obra não terminava nunca. O presidente Saldanha Marinho em 1868 ficou escandalizado com os privilégios de Antônio Bernardo Quartim. Basta dizer que por uma lei de 1857 ele não poderia ser demitido do cargo de administrador do Jardim Público, a não ser por sentença passada em julgado, além disso, poderia manter sua residência no local por um prazo de trinta anos. Consideremos que comparado com os tempos atuais, certas práticas públicas não mudaram muito.

Saldanha Marinho, irritado com as trapalhadas na construção interminável do teatro São José, determinou ao Procurador Fiscal do Tesouro que tomasse as providências e enfim em 1870 conseguiu que uma lei provincial determinasse a encampação do teatro. Porém o efeito prático só foi surgir em 1873, no governo de João Teodoro, quando novo parecer foi emitido e constatadas todas as irregularidades na construção do teatro.

Depois de encampado pelo governo e com novo parecer, o teatro passou para a administração de Antônio da Silva Prado, que o reformou de alto a baixo e concluiu o trabalho em 1876. Em março deste ano o Teatro São José era inaugurado novamente.

Teatros - São José 1874

O teatro já reformado em 1876.

O povo da cidade estava ainda mais orgulhoso. Finalmente a antiga Imperial Cidade de São Paulo tinha um teatro á sua altura, onde poderiam se apresentar grandes espetáculos como nas demais capitais. E realmente o teatro passou a ocupar o centro da vida cultural dos paulistanos. Muitas companhias internacionais aí se apresentaram. Malabaristas japoneses, mágicos alemães, companhias dramáticas italianas, etc. Toda a elite intelectual da época frequentava o teatro, que passou a ser também um centro da luta abolicionista.

No meio teatral as pessoas costumam desejar boa sorte e sucesso ao estrear uma peça com uma expressão que soa estranha para quem é de fora: “Muita merda para você!”. Existem muitas lendas para explicar a origem desta expressão, mas o fato é que em 1879 o largo, agora também conhecido como Largo do Teatro, foi todo ajardinado, ganhou um coreto no meio e cercado com grades. Diminuiu muito o espaço para os tílburis, fiacres e outros veículos de tração animal, de forma que ao redor do teatro deve ter ficado com muito estrume dos animais que ali ficavam enquanto seus donos se divertiam.

Houve também um acontecimento de outro tipo. Em agosto de 1896, os ânimos entre italianos e brasileiros ainda estavam muito exaltados com a Questão do Protocolo, como ficou conhecido o caso que se iniciou com a prisão de um súdito italiano a bordo de um navio italiano e gerou uma tremenda trapalhada diplomática. No teatro os artistas italianos Emanuel e Rossi apresentavam a peça Os Rantzau e entre o segundo e o terceiro ato começou um tumulto na plateia que se alastrou. O teatro acabou sendo evacuado e cercado pela cavalaria que foi chamada para acabar com a pancadaria.

O Teatro São José foi um local importante para a vida social da época, até…

Até a madrugada de 15 de fevereiro de 1898, quando a cidade acordou com os sinos anunciando um grande incêndio. Quando o sol nasceu já encontrou o São José em ruínas. Ficaram apenas as paredes externas.

PRACAJOAOMENDESSECULOXIX 001

Foto retocada do incêndio do teatro.

Desapareceu o palco onde Eugênia Câmara, a grande paixão de Castro Alves, representava. O palco que apresentou Sarah Bernhardt, Arthuro Toscanini e que acolheu as pregações de Antônio Bento e as várias alforrias que eram anunciadas em público e as declamações que Castro Alves fazia de seu camarote.

Dizem que um funcionário, preparando o teatro para o baile de carnaval, havia esquecido uma um bico de gás aberto…, mas um segundo Teatro São José viria a ser construído em outro local, assim como outros teatros e muito mais bonitos.

CP 14-02-1898 Theatro São José ultimo cartaz

O último cartaz do Teatro São José.

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  1. 10/08/2015 às 18:56

    td que era bom foi demolido nesse brasil de ninguem ….

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