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A Rua do Quartel e os Voluntários da Pátria

1913

A entrada do antigo Quartel de Linha na Rua do Quartel em 1913

Por Edison Loureiro

Do lado direito do Palácio da Justiça, existe uma pequena rua chamada Onze de Agosto que une a Praça da Sé à Praça João Mendes. É a antiga Rua do Quartel. Assim se chamava devido ao Quartel da Legião dos Voluntários Reais, depois conhecido como Quartel de Linha, construído em 1790, durante o governo de Bernardo de Lorena exatamente no lugar onde está o Palácio da Justiça.

A Legião dos Voluntários Reais, também conhecida como Legião de São Paulo, foi criada em 1775, por carta régia com o objetivo de dar resposta armada à invasão espanhola no Sul durante a guerra da Restauração, na qual lutaram, entre outros, o Brigadeiro Pinto, o encrenqueiro do Beco do Pinto e João de Castro Canto e Melo, o “Quebra-Vinténs”, pai da Marquesa de Santos. Era constituída de dez companhias, sendo seis de infantaria e quatro de cavalaria. O total do efetivo ultrapassava 1.000 homens.

Noventa anos depois, por ocasião da Guerra do Paraguai, o recrutamento dos chamados Voluntários da Pátria foi bem mais complicado e os soldados não foram tão voluntários como se quer fazer crer.

Um episódio em particular, ocorrido aqui, no tempo do quartel, ilustra bem a questão. Foi em 1866, logo no começo do governo do desastrado presidente provincial José Tavares Bastos. Diante da dificuldade de recrutar homens para a guerra, recolheu toda a tropa da guarda nacional ao quartel e convocou o povo ao quartel para ver passar em revista a tropa. Quando notou que havia uma grande quantidade de homens, fechou as portas e mandou agarrar os mais aptos. Seriam os novos “voluntários”.

Naturalmente os voluntários sentiram-se revoltados. Foram muito maltratados, chegando a passar dois dias sem receber nenhum tipo de alimentos. Quase houve uma rebelião no quartel, que só foi contida graças aos esforços da oficialidade e a providência do comandante que mandou comprar quatrocentas roscas de vinte réis e distribuir a todos, que eram mais ou menos no mesmo número.

A caça aos recrutas, naquela época chamada “reculuta”, era implacável. Beber nas ruas era perigoso, pois o desavisado boêmio que dormisse pelos cantos, corria o risco de acordar recrutado em um quartel pronto para ir ao front de luta.

Os mais jovens simplesmente fugiam, ou se fossem de família abastada podiam oferecer escravos em seu lugar. O governo havia prometido alforria a todos os escravos que fossem para a luta. Promessa não cumprida e que ao fim da guerra provocou revolta e incentivou os abolicionistas. Poderiam também contratar alguém que estivesse disposto a ir em seu lugar, como mostra o anúncio abaixo publicado no jornal Diário de São Paulo de 09-08-1865.

DSP 09-08-1865

O mais comum era fugir, caso contrário, não sair às ruas onde os temidos Capitão Pimenta e Chico Metralha, como eram conhecidos o capitão Antônio Rodrigues Veloso Pimenta e Francisco Emílio Oppermann, pertencentes ao Corpo de Permanentes, literalmente agarravam recrutas para a guerra a qualquer custo.

Quando chegou a Semana Santa de 1867, foi um sufoco, pois comparecer à procissão era mais que um hábito, era quase que uma obrigação naqueles tempos. Aconteceu então um fato que hoje pareceria mais roteiro de comédia de segunda categoria.

Os jovens saíram à procissão vestidos como mulheres. De saias pretas e as costumeiras mantilhas, também pretas, cobrindo a cabeça e o rosto, que todas as senhoras usavam. Assim, misturados à multidão, nem Chico Metralha nem o Capitão Pimenta ousaram agarrar ninguém, pois e se por azar errassem e abraçassem alguma respeitável senhora? Ali, na frente de todos e no meio da procissão da Semana Santa? O escândalo seria insuportável.

A procissão transcorreu sem incidentes e no fim todos se dispersaram em paz.

O quartel, que já estava em péssimas condições, foi demolido em 1915 para a construção do Palácio da Justiça.

Charge Cabrião maio 1867 pb

Charges de Ângelo Agostini publicada no jornal satírico Cabrião de maio de 1867

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  1. 18/08/2015 às 18:24

    nas escolas nao aprendemos realmente a verdadeira historia do brasil…..infelismente ,Estou amando receber esses emails,.

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