Início > Sem categoria > A Rua do Espírita

A Rua do Espírita

Rua Espírita 1905A Rua Espírita no Cambuci por volta de 1905. Ao fundo o Morro do Piolho.

Por Edison Loureiro

A Rua Espírita era curtinha e no final dela erguia-se o Morro do Piolho, local em que se reuniam os valentões e malandros do passado. Hoje a rua estendeu-se até o alto do morro.

Seu nome é uma lembrança de um personagem que lá morou, o famoso médium Batuíra, um dos precursores do kardecismo em São Paulo. Era a rua do espírita e acabou tornando-se Rua Espírita.

Batuíra foi consagrado como médium espírita, mas tem uma história interessante e para conhecê-la vamos voltar um pouco no tempo até 1838 na Vila Meã, Freguesia de São Tomé do Castelo, Concelho de Vila Real, perto da cidade do Porto, onde nasceu Antônio Gonçalves da Silva, que aos doze anos embarca para o Brasil aportando no Rio de Janeiro em 3 de janeiro de 1850. Ficou na então capital do Império por dois a três anos trabalhando no comércio, quando foi para Campinas trabalhar na agricultura.

Tinha o transmontano uns 17 anos quando veio à capital da Província e empregou-se como distribuidor de jornais de porta em porta. Entregava os exemplares do Correio Paulistano. Como andava sempre rápido de um lado para o outro recebeu o apelido de Batuíra, nome popular de uma ave de pouco mais de um palmo de altura e muito arisca chamada narceja.

Este apelido que o acompanhou por toda a vida acabou sendo adotado por Antônio Gonçalves como seu último sobrenome. Dizem que tinha muita facilidade de relacionamento com as pessoas de todos os níveis e acabou muito popular. Da convivência com seus amigos estudantes da Academia é que surgiu a ideia do teatro, que não só dirigia, mas onde também atuava em palco.

Seu teatro funcionou entre o final da década de 1860 e 1880 no número 10 da antiga Rua da Cruz Preta, depois Rua do Príncipe e atual Quintino Bocaiúva. Ficava nos fundos de uma taverna. Não era grande, devia comportar umas 200 pessoas e era conhecido como o Teatrinho do Batuíra. Era a alegria dos estudantes, pois a entrada custava mil réis, mas se o estudante não podia pagar, não tinha problema, entrava do mesmo jeito e era bem recebido. Era uma boa alternativa para quando não havia funções no Teatro São José.

Batuíra era querido por seu público. Quando as cortinas se levantavam e ele aparecia no palco, os estudantes o aplaudiam muito e era saudado com versos meio “non sense”:

Salve grande Batuíra
Com seus dentes de traíra
Com seus olhos de safira
Com tua arte que me inspira
Nas cordas da minha lira
Estes versos de mentira

Alguns jornais da época, maldosamente, chegaram a dizer que no local do teatro o que existia era na realidade uma rinha de galos, chegando até O Cabrião, semanário satírico, a utilizar-se deste boato em uma de suas charges políticas. Mas a verdade é que até artistas de boa fama apresentaram-se no teatrinho do Batuíra. Mas o local havia sido utilizado para rinhas antes de ser teatro, como mostra uma carta de Batuíra em resposta às acusações, publicada no jornal O Correio Paulistano de 2-12-1869.

Mais tarde resolveu dedicar-se à fabricação de charutos, conseguindo melhorar sua situação financeira e comprou uma área desvalorizada na região do Lavapés, onde começou a construir várias casas que alugava aos mais carentes.

Batuíra era dotado de um espírito idealista e humanitário. Participou ativamente da campanha abolicionista de Luiz Gama e Antônio Bento, chegando a esconder escravos fugitivos em sua própria casa até conseguir negociar sua alforria.

Foi um dos pioneiros na divulgação da doutrina espírita no Brasil, em 1890 fundou o Grupo Espírita Verdade e Luz, ainda existente, e no mesmo ano comprou uma tipografia a que deu o nome de Tipographia Espírita e lançou o periódico Verdade e Luz.

Conta-se uma história curiosa a respeito de como Batuíra aproximou-se do Espiritismo. Ele foi casado em segundas núpcias com Maria das Dores Coutinho e Silva, e dessa união nasceu Joaquim Gonçalves Batuíra. Em 1883, aos doze anos de idade o menino espeta o dedo num espinho de roseira e contrai um tétano, vindo a falecer. Como é natural, a morte repentina trouxe muita comoção e tristeza à família.

O velório foi realizado na casa da Rua Espírita e Batuíra mostra-se entristecido, porém respeitoso com todos, como era habitual. Lá pelas tantas, muito emocionado, Batuíra levanta-se e retira-se para seu quarto trancando a porta.

Depois de meia hora, ressurge na sala com a fisionomia modificada. A dor foi substituída pela paz e tranquilidade. Declara a todos os presentes que não quer mais lamentos e choros pelo filho, pois ele não estava morto, porém bem vivo ao lado de Jesus.

Para surpresa de todos, Batuíra sai de casa e volta mais tarde com uma banda de música, que começa a tocar. Não música fúnebre como seria de se esperar, porém alegres valsas, polcas e marchas. Para uns seria o desvario de um pai enlouquecido pela dor, para outros uma ofensa.

Mais tarde, porém Batuíra contaria aos seus amigos mais íntimos que, trancado em seu quarto começou a ver um vulto se formando envolto por uma luz. Dentro de pouco tempo reconheceu naquele vulto seu filhinho querido que lhe dizia: “Pai, não fique triste. Eu não morri. Estou mais vivo do que nunca”.

A partir deste episódio começou a interessar-se pelo Espiritismo e trabalhar na sua divulgação e prática de caridade para com os necessitados.

Batuíra morreu em 22 de janeiro de 1909 aos 69 anos, sendo enterrado no cemitério da Consolação. Em sua homenagem, em 2009, os frequentadores do Grupo Espírita Batuíra de Algés (Portugal) afixaram, uma placa com seu retrato na casa onde nasceu na Vila Meã.

Rua Espírita 1927A Rua Espírita em 1927 vista do alto do Morro do Piolho.

Fontes

http://geb-portugal.org/doutrina-espirita/batuira/ – site do Grupo Espírita Batuíra (Portugal)
Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo, Tradições e Reminiscências, Segunda Série – 1907
Idem, Oitava Série
Eduardo Carvalho Monteiro,  Batuíra, Verdade e Luz
Raimundo de Menezes, São Paulo dos Nossos Avós, Editora Saraiva

Anúncios
Categorias:Sem categoria
  1. Sumire teixeira
    31/01/2016 às 19:48

    Muito me alegrou saber mais dele. Já morei na Rua do Lavapés e meu pai falava do Morro do Piolho. Que espirito lindo tem o Bartuíra.

  1. 23/12/2015 às 11:29

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: