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Tragédia em alto estilo

Rua XV de NovembroRua XV de Novembro na década de 1900, foto de Guilherme Gaensly

Por Edison Loureiro

Os salões do café-restaurante Progredior na Rua XV de Novembro devem ter presenciado muitos negócios sendo realizados pelos figurões da época, famílias passando umas horas agradáveis ao som da orquestra dirigida pelo professor Mazzi, o sexteto Progredior, que se apresentava também no hipódromo da Mooca, casais trocando olhares apaixonados e bilhetes furtivos. Tudo o que caracterizava o comportamento típico da virada do século XIX para o XX.
Presenciou também as novidades da época, como o kinetoscópio, cinematógrafo e as primeiras experiências de “filme falante”.

Mas em 1910, os elegantes frequentadores do Progredior presenciaram uma cena inusitada e trágica.
Foi no dia 19 de janeiro daquele ano que Felício Brandão, um rapaz de dezoito anos entrou no bar do Progredior acompanhado de seu primo Humberto Rubião para tomar um chope. Eram duas horas da tarde e os dois conversaram animadamente como os rapazes desta idade sempre fizeram em todos os tempos. Foram para casa, mas Felício, agora só saiu novamente no final da tarde e às oito e meia volta ao Progredior. Desta vez toma uma mesa numa das salas do reservado, escolhe uma das últimas ao longo da parede. Dava a impressão que queria um pouco de isolamento distante do burburinho das mesas do bar e também do salão do restaurante. Pediu ao garçom um chope duplo e começou a escrever di-versas cartas para familiares. Em seguida pediu ao garçom duas doses sucessivas de vinho do Porto, que ia bebendo em pequenos goles, enquanto distraía-se com a leitura de algumas revistas.

A esta altura já eram dez e quarenta da noite e o Progredior estava lotado de seus frequentadores habituais, na outras mesas do reservado onde se encontrava Felício havia mais seis ou oito pessoas. A orquestra já estava executando seus últimos números.

Felício bebeu o último gole de vinho do Porto que havia em seu copo e, num rápido movimento, sacou de um revólver Smith & Wesson que trazia consigo e disparou no lado direito de sua cabeça.

As pessoas que se encontravam no bar correram ao reservado para saber o que estava se passando e a cena que encontraram mostrava Felício com a cabeça reclinada sobre o mármore branco da mesa que fazia contraste com a poça de sangue. Estava vivo ainda, chegou a balbuciar algumas palavras quando foi socorrido, porém logo em seguida desfaleceu outra vez.

Os jornais do dia seguinte esclareceram o assunto. Felício, estudante do curso preparatório, era filho adotivo e morava com sua família na rua Lopes de Oliveira. A família não era favorecida pela fortuna, ele porém envolveu-se com outros jovens, estes sim de família abastada, que o levaram a uma vida desregrada e de boemias. Felício, inconsequente, assumiu dívidas e compromissos que comprometeram o bom nome da família. Mesmo advertido pelo padrasto continuou com esta prática. Seu padrasto apresentou queixa na sub-delegacia de Santa Ifigênia e Felício recebeu uma intimação para apresentar-se e dar explicações. Não chegou a comparecer, preferiu atentar contra a própria vida.

Foi o que fez. Porém em alto estilo, no café-restaurante mais elegante de São Paulo.

Fontes:
O Estado de S. Paulo e Correio Paulistano de 20-01-1910.

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