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Esquecidos pela História

Largo da Sé 1880 72dpiLargo e igreja da Sé no final de século XIX

Por Edison Loureiro

Todo bairro de São Paulo, assim como as pequenas cidades têm aqueles personagens que todos conhecem. Seja devido a alguma excentricidade, ou por algum hábito, ou até por ter feito algum trabalho admirável.

Eu mesmo recordo de alguns do tempo de garoto no Bexiga. O “Caropita” (corruptela de Achiropita), um baixinho que andava como se estivesse marchando em passos rápidos e os mais largos que suas curtas pernas permitiam e o corpo tombado para a esquerda. Sempre de terno azul amarrotado e a gravata com um nó enorme. Quando ele passava a molecada gritava: “Ei Caropiiiita!”. Ele não olhava para os lados, simplesmente levantava o braço e gritava de volta em tom grave: “Ooooi!”. Quando passava andando mais devagar e bem ereto, sem a inclinação para a esquerda, todos sabiam que já tinha tomado todas. Diziam que tinha lutado na guerra e voltou daquele jeito. Vivia de biscates pelo bairro e não se sabe se tinha algum parente. Que fim será que levou?

A cidade de São Paulo no decorrer de sua história, quando a população era pequena também teve seus tipos populares, personagens que em sua época todos conheciam, mas a maioria acabou esquecida pela história oficial e só são encontrados nas paginas amarelecidas das histórias dos memorialistas e cronistas antigos.

Um deles é Tebas, antigo escravo construtor nascido na primeira metade do século XVIII. Consta que foi escravo de um mestre pedreiro chamado Bento de Oliveira Lima e responsável por várias obras de vulto na cidade. A primeira foi a torre da antiga catedral de São Paulo, reconstruída em 1755. Conforme um daqueles cronistas, existiam dificuldades técnicas para a construção da torre e nenhum engenheiro dispunha-se a executara obra. Eis que surge Tebas e garante fazer o trabalho.

Seu senhor veio a falecer durante a obra, mas antes concedeu a alforria a Tebas com a condição de que ele terminasse a obra, recebendo pelo trabalho uma pataca e meia de diária. A obra foi executada e a partir daí Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas faria muitos outros trabalhos importantes. É dele ainda o frontispício da catedral, a torre do Recolhimento de Santa Teresa e frontispício da igreja da Ordem Terceira do Carmo. Mas sua obra mais famosa talvez seja o chafariz da Misericórdia, o primeiro chafariz da cidade, construído em 1792. Dessas obras todas, a única que restou foi o frontispício da igreja da Ordem Terceira do Carmo. Tebas morreu em 1811 aos 90 anos e seu corpo está sepultado na igreja de São Gonçalo.

Pouco se fala também de Vicente Gomes Pereira, o Mestre Vicentinho que ergueu o primeiro monumento de São Paulo. Um monumento muito simples, mas até hoje o Obelisco da Memória resiste bravamente no Largo que ganhou seu nome. Mestre Vicentinho teve menos sorte que seu antecessor, morreu internado como louco.

No começo de século XIX todos conheciam o preto velho alforriado que esmolava na escadaria da Sé antiga. Era o Zé Prequeté. A molecada que vivia pelas ruas atormentava o pobre velho com uns versos que mesmo depois do tempo dele ainda serviam para atormentar outros:

Oh! Zé Prequeté
Tira bicho do pé
Prá comer com café
Na porta da Sé.

Existiram outros tipos curiosos muito conhecidos em suas épocas, como o Tomás Rabada que trabalhou por muito tempo junto à Irmandade dos Pretos de N. S. do Rosário, organizando suas tradições e festas e finalmente fazendo com que fossem aceitos pela comunidade. Dizem que era baixote, usava suíças e tinha as pernas curtinhas. Seu apelido devia-se ao fato de que, numa época em que ninguém mais usava casaca, ele continuou usando uma casaca comprida por toda a vida.

Toda a cidade conhecia Garibaldi, o cocheiro italiano que na virada do século XIX para o XX estacionava seu carro de aluguel no Largo do Paiçandu em frente ao Moulin Rouge. Ali aguardava os passageiros, com seu rosto corado, chapelão de abas largas e as longas barbas grisalhas cobrindo o peito. Era a boia salva-vidas dos boêmios tardios que voltavam após as farras nos cabarés e pensões alegres que abundavam naquela região.

Falando em boêmios, talvez o personagem mais esquecido seja o Cunegundes. Esse foi o maior de todos os boêmios do final do século XIX. Nunca teve um tostão na vida, mas comia e bebia cerveja em todas as tavernas e confeitarias, da taverna do Corvo até a seleta confeitaria Castellões no Largo do Rosário, se bem que segundo um cronista alguns garçons meio mal humorados às vezes barrassem a sua entrada. Entrava no Polytheama, no Eldorado sem nenhum impedimento assistia aos espetáculos e ainda era o primeiro a sair e aguardar na porta, onde era cumprimentado por todos. Era especialmente querido pelos jornalistas, artistas e os estudantes. Tanto que foi inscrito como sócio fundador e honorário do Cabaré do Sapo Morto, fundado pela flor da boemia local no começo da então Rua de São João e que teve vida efêmera.

Como todo boêmio, às vezes arrumava brigas e ia dormir esfolado. Aliás, lugar para dormir não era problema, qualquer canto servia. Quanto ao seu fim existem divergências, uns dizem que foi atropelado por uma carroça de lixo no Largo do Rosário, outros dizem que distraiu-se com uma cadelinha, a carrocinha o apanhou e acabou virando sabão. Sim, Cunegundes era um cão amarelo escuro de pelo curto com uma mancha em forma de estrela branca no peito. Um vira-latas, mas um vira-latas que sabia levar a vida.

Fontes

RIBEIRO, Wagner, Tebas, O Escravo Arquiteto de século 18, em Leituras da História.
RAGO, Margareth, A invenção do Cotidiano na Metrópole.
MENEZES, Raimundo de, São Paulo dos Nossos Avós.
SCHMIDT, Afonso, São Paulo de Meus Amores.
CAMARGO, Daisy de, Alegrias Engarrafadas: os alcoóis e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do século XX.
MARQUES, Cícero, Tempos Passados.
MOURA, Paulo Cursino de, São Paulo de Outrora.
FREITAS, Affonso de, Tradições e Reminiscências Paulistanas.
CONSTANTINO, Antonio, Evocações da Faculdade de Direito – Cunegundes, jornal O Estado de S. Paulo de 01/12/1943.

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  1. 29/12/2015 às 00:47

    Adorei conhecer a história

  2. 29/03/2016 às 22:17

    Bela matéria! Lembrei dos muitos tipos curiosos (alguns destes e outros) que desfilam pelas páginas dos livros de Paulo Cursino de Moura e Affonso de Freitas, cuja leitura é imprescindível aos que se interessam pela história de São Paulo.

  3. Luis Eduardo Salvucci Rodrigues
    30/03/2017 às 12:23

    Muito bom Edison, belo texto! Eu me lembrei dos tipos da minha infância em Campinas e dos causos contados pelo Ariano Suassuna.

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