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Picadinho de Estudante

1862detalhe

Estudantes da Academia do Largo de São Francisco em 1862 . Detalhe de foto do Militão Augusto de Azevedo.

Por Edison Loureiro

Se você está pensando numa história sangrenta, não é. Ao que consta nunca houve nenhum Jack, o estripador transformando os estudantes da antiga Academia em carne de açougue. Vou falar de um antigo e famoso prato muito consumido pelos estudantes do Largo de São Francisco na segunda metade do século XIX que ficou conhecido como picadinho de estudante.

Mas primeiro vamos tentar imaginar a cidade de São Paulo por volta de 1860 e a vida dos estudantes daquele tempo, com a ajuda de antigos memorialistas e viajantes que nos deixaram suas impressões.

Conforme Almeida Nogueira, a população urbana da capital mal chegava a 15.000 habitantes somados aos quase mil estudantes, incluídos os dos cursos preparatórios.

O perímetro urbano consistia basicamente da parte que chamamos hoje de Centro Velho ou Histórico de São Paulo e limitava-se ao sul pelo Largo da Forca (Praça da Liberdade), que ficava ao lado do antigo Cemitério dos Aflitos. Além daí umas poucas casas e a sucessão de chácaras seguindo o Caminho do Carro Que Vai Para Santo Amaro (Avenida da Liberdade). Aí ficavam, do lado esquerdo, as chácaras do Fagundes, do Cônego Fidélis, o Sítio do Tapanhoim, que abrigava a famigerada Chácara Quebra-Bunda. Do lado oposto a chácara do Martiniano vizinha à grande propriedade do Barão de Limeira, Vicente de Souza Queirós, a chácara Streiss, o Matadouro e outros. Quem continuasse um pouco mais chegaria às matas do Caaguaçu, onde no final do século se abriria a Avenida Paulista.

Pelo lado norte poderíamos considerar o limite urbano a Ponte da Constituição (Florêncio de Abreu), que cruzava o riacho do Anhangabaú no ponto onde hoje está o Viaduto da Florêncio de Abreu sobre a Carlos de Souza Nazareth. Adiante vinha a chácara do Miguel Carlos, os campos do Guaré ou Guarepe, o Jardim Público, atual da Luz, o convento da Luz, o recém-inaugurado Seminário Episcopal, a nova Casa de Correção, a chácara do Bom Retiro, e a do Campo Redondo, onde frequentemente eram realizadas as corridas de cavalo. Quem seguisse adiante ia encontrar a Ponte Grande e a estrada de Santana e do Juquery.

A leste o limite natural, desde os tempos dos jesuítas, era o rio Tamanduateí, ainda serpeante na extensa várzea que nas épocas chuvosas ficava toda inundada. Quem, indo pela Ladeira do Carmo (início da Av. Rangel Pestana) cruzasse as três pontes, do Carmo, do Meio e do Ferrão alcançaria o antigo Pouso dos Tropeiros na antiga estrada do Brás ladeada de chácaras, a partir daí seguiria para o subúrbio da Penha. Augusto Emilio Zaluar, chegando a São Paulo em 1860 passou pelo Brás e comentou: “É um dos arrabaldes mais belos e concorridos da cidade, já notável pelas elegantes casas de campo e deliciosas chácaras onde residem muitas familias abastadas ao lado, todavia de alguns casebres e ranchos menos aristocráticos, mas que nem por isso deixam de formar um curioso contraste”.

A oeste, pela Rua do Paredão (Xavier de Toledo) logo estaríamos na chácara do Senador Queirós, Francisco Antonio de Souza Queirós, o Barão de Souza Queirós, que ficava no local onde está a Biblioteca Mário de Andrade. A Rua da Palha (Sete de Abril) tinha uma série de pequenas habitações simples e levava ao Largo dos Curros (Praça da República) onde se adestravam cavalos e às vezes se apresentavam touradas. Entre a Rua da Palha e a Rua de São João ficava o Morro do Chá com a chácara do Barão de Itapetiniga, Joaquim José dos Santos Silva, que antes de ser barão era conhecido como o Cadete Santos. Descendo a íngreme Ladeira de São João veria à direita o Beco do Sapo, atravessaria a ponte do Acu sobre o Anhangabaú e logo estaria passando pela grande propriedade do Comendador Souza Barros, Luiz Antonio de Souza Barros. Logo mais chegaria ao Tanque do Zunega (Largo Paiçandu) e atingiria o Largo dos Curros. Terminando o Largo dos Curros estava o Asilo dos Variolosos, convenientemente bem longe da cidade.

São Paulo, no começo da década de 1860 ainda era uma pequena cidade provinciana. Somente as ruas principais eram calçadas e ainda assim com pedras irregulares. A pouca iluminação era fornecida por malcheirosos lampiões de óleo e se fosse noite de lua cheia era mais provável que estivessem apagados por economia.

O dinheiro da lavoura do café ainda não era significativo para a economia local, o que viria a acontecer somente na década seguinte. O paulistano da época, na observação dos visitantes era geralmente desconfiado e algumas vezes até pouco sociável. Ao contrário dos estudantes em plena juventude, muitos vindos da Corte e longe dos olhos dos pais, ansiavam por extravasar suas energias. Claro que essa mistura volta e meia acabava em confusão, sem contar as famosas estudantadas.

E além dos estudos, o que faziam aqueles jovens para se divertir? As opções eram poucas. Passeios pelo Jardim Público, cavalgadas pelos arrabaldes e subúrbios, como a Penha, Santo Amaro ou Conceição de Guarulhos. Caçadas pelos campos do Bexiga ou nas matas da encostas do Caaguaçu. Costumavam também nadar no Rio Tamanduateí, desafiando a proibição e perseguição dos policiais, uma vez que nadavam nus em pelo, uma vez que trajes de banho eram desconhecidos naquele tempo.

E volta e meia os estudantes aprontavam as famosas estudantadas, como sumir com o grande cruzeiro que dava nome à Rua da Cruz Preta, ou roubar o emblema da Botica o Veado D’Ouro, inventar fantasmas para assustar a população ou ainda as caçadas noturnas, que nada mais eram que surrupiar cabritinhos, leitões ou perus dos quintais alheios para uma bela ceia. Muitas vezes a própria vítima do furto era convidada a participar da ceia.

A vida noturna era praticamente inexistente. Não existiam ainda os cafés, com a única exceção do de Maria Punga, na atual Rua Anchieta.  Mas já existiam alguns salões de bilhares, mas era bom não abusar, pois a maledicência popular logo se espalhava e chegava aos ouvidos dos lentes da Faculdade. Como comentou um antigo estudante ao visitar a cidade após trinta anos de ausência: “antigamente se ali fôssemos tomar um copo de cerveja da Penha ou mesmo de água com açúcar passaríamos desde logo por moços extravagantes; não os fiscais da moralidade pública e zelosos também da vida particular à censura de todos, já se sabe – asseverando que nos viram em dificuldades para conservar o equilíbrio.”

O teatro sempre foi uma opção de divertimento e cultura para o corpo estudantil que chegou a formar grupos dramáticos e escrever várias peças. Mas na década em questão, o antigo Teatrinho de Ópera estava caindo aos pedaços e pouco funcionava, o novo Teatro São José custava a ficar pronto e acabou sendo inaugurado inacabado mesmo, com uma peça escrita por um estudante, Sizenando Nabuco, irmão mais velho do abolicionista Joaquim Nabuco. Restava o teatrinho do Batuíra, na Rua da Cruz Preta (Quintino Bocaiúva).

Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, salvava a situação promovendo bailes e saraus e era muito bem relacionada com o corpo estudantil, mas viria a morrer em 1867.

A grande maioria dos estudantes era de fora da cidade e viviam em repúblicas. Grupos de três a cinco estudantes que alugavam e repartiam as despesas de uma casa. Todos os cômodos da casa, exceto a cozinha e a sala, que era chamada de varanda, eram transformados em dormitórios. Os estudantes mais veteranos iam ficando com os cômodos melhores e os piores ficavam com os calouros e os bichos. Entre o aluguel, cozinheira, um criado, o pagamento da lavadeira e a bolsa, que eram as despesas de comida e bebida, a despesa a ser dividida era aproximadamente 150 mil réis. Variava muito, pois existiam as repúblicas mais aristocráticas dos mais abastados às mais simples.

Os hábitos do dia a dia eram bem diferentes dos atuais. Logo de manhã um chá simples com pão. Almoçava-se cedo, entre 9:30 e 10:00. O clássico picadinho, ovos estrelados, arroz chá e pão. Entre 14:00 e 15:00 o jantar com sopa, que nesse tempo estava se popularizando, arroz com feijão e um prato de ensopado ou carne assada. De sobremesa, café. Nas repúblicas fidalgas doces. Às oito da noite a ceia: chá com pão e manteiga.

Se você ficou curioso em saber como era o tal Picadinho de Estudante, aí vai, ipsis litteris, a receita como foi passada pela Tia Silvana a Almeida Nogueira:

“Toma-se um kilo de alcatra ou ‘filet’, carne de primeira, lava-se, enxuga-se bem, bate-se, corta-se em pedacinhos pouco maiores que um dado; refoga-se com cebola picada; deita-se-lhe depois um copo de agua quente, um ‘bouquet’ de cebolas em rama, salsa e uma folha de louro ; ajuntam-se alguns pedacinhos de toucinho fresco, sal e pimenta, e deixa se ferver a fogo brando até que a carne fique bem cozida, tendo-se o cuidado de augmentar a agua, sempre que venha a seccar. Ajunte-se em tempo batata picada, que não deve ficar muito cozida. Nada de engrossar o caldo; ao contrario, deve ser abundante e bastante aquoso. Serve-se em prato de tampa.”

Diz o cronista que este caldo era o melhor da festa. Os estudantes mineiros e gaúchos o comiam com farinha, os fluminenses com pão e os paulistas com arroz. Alguns tomavam com colher.

Talvez não seja muito adequado ao nosso paladar moderno, mas os estudantes que viviam curtos de dinheiro achavam ótimo. Quem quiser testar a receita que o faça por sua conta e risco, não aceito reclamações.

Fontes
Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo – Tradições e Reminiscências.
Maria Paes de Barros, No Tempo de Dantes.
Plan-História da Cidade de São Paulo de Affonso A, de Freitas.
Augusto-Emilio Zaluar, Peregrinação pela Província de São Paulo.
Firmo de Albuquerque Diniz (Junius), Notas de Viagem.

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  1. J. A. Dias Lopes
    10/04/2016 às 17:03

    Caríssimo Edison, obrigado pela preciosa contribuição. Eu já conhecia a história desse picadinho. Cheguei a mencioná-lo em uma crônica publicada no jornal O Estado de São Paulo. Mas informações que tinha não eram tão substanciosas. Abraço, DL

    • Edison Loureiro
      10/04/2016 às 17:33

      Prezado Dias Lopes, fico feliz que tenha gostado. Para mim foi um prazer, mesmo sem ter provado o tal picadinho.

  2. priscilla gusmão nogueira rath
    23/08/2016 às 00:55

    meu bisavô foi aluno das Arcadas dessa época eu conheço esse picadinho, era como minha avó fazia e eu o faço. Não tinha a menor idéia de que era o picadinho dos estudantes

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