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Uma Lembrança da Vila Madalena

Fradique CoutinhoRua Fradique Coutinho provavelmente na década de 1960

Por Edison Loureiro

A Vila Madalena de hoje concentra estúdios de artes, fotografia, galerias, exposições, escolas de teatro e principalmente bares, muitos bares. É um ponto de concentração de artistas, escritores, jornalistas e gente jovem à procura de diversão. Nada que lembre a de 1954, quando a parte alta da Fradique Coutinho nem era pavimentada, como todas as ruas em redor, mas já existia a Escola de Balé Elza Prado que está no mesmo lugar até hoje.

Naquele ano de 1954 foi inaugurada a linha do bonde 28 que saía da Rua Xavier de Toledo bem do lado da Light e subia a Fradique até a Rua Wisard, contornava pela Fidalga e Purpurina e voltava pela Fradique, subindo pela Teodoro Sampaio em direção à Dr. Arnaldo de volta ao ponto inicial. Até então quem vinha para estas bandas usava o bonde 29 Pinheiros e descia na esquina da Teodoro Sampaio e enfrentava o ladeirão a pé.

Pois foi numa bela manhã ensolarada dum domingo de 1954 que de repente ouviu-se um estrondo como um tiro de canhão vindo do alto da Rua Fradique Coutinho. Mas o povo do bairro não se assustou, era só o morador do número 1239 da Fradique Coutinho, conhecido fogueteiro do bairro e fabricante de uns papagaios enormes formato barrilete com rabiola de pano os quais ia empinar com o filho ainda pequeno e a molecada do bairro. Seu nome era Natur, que além das bombas e papagaios tinha paixão pelo radioamadorismo.

Era um jovem de 30 anos, porte atlético e estatura mediana para a época, 1m65, cabelos pretos com umas entradas, apesar da pouca idade, que prenunciavam a futura calvície. Era elegante, com pinta de galã e um bigodinho à moda de Clark Gable.

Essas brincadeiras de domingo eram feitas num campo usado também para futebol que ficava no final da Rua Purpurina, apenas a uma quadra da Fradique Coutinho. Ma estava se aproximando a hora do almoço, portanto chamou o garoto e foram os dois para casa no Ford Anglia verde 1949, recém-adquirido. Descendo a Fradique Coutinho resolveu dar uma paradinha na padaria na esquina da Wisard, onde havia uma parada de bondes, para se abastecer de cigarros e tomar um rápido aperitivo, afinal era domingo…

Do outro lado da Wisard existia um bar, um tanto mal frequentado, com portas de vaivém, estilo bar de filme de faroeste. Como estava próximo da hora do almoço e era uma parada rápida, resolveu deixar o garoto, que tinha cinco anos no carro, para evitar a tentação dos doces.

Era tudo o que o garoto queria. Logo se aboletou no banco do motorista para brincar que estava dirigindo, imitando tudo o que via o pai fazer, inclusive destravar o freio de mão… E não deu outra, o carro foi descendo pela Fradique e, como estava com a direção ligeiramente para a direita, cruzou a Wisard e foi direto para o bar da outra esquina, de onde alguém gritou:

– O carro do Natur está andando sozinho! E só se viam os frequentadores correndo para fora.

O garoto era pequeno e nem se via sua cabeça pelo para-brisa. O fordinho só parou quando bateu na porta de vaivém do boteco.

Muito susto e correria, mas além da porta do bar arrebentada, faróis partidos e lataria amassada, o garoto não sofreu dano algum. Tanto que cresceu, teve filhos, já é vovô e criou o hábito de contar historinhas antigas.

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  1. Boris Fausto
    25/11/2015 às 12:54

    Prezado Edson Loureiro

    Excelente texto. Olhando a Fradique da década de 60, com a série de casinhas enfileiradas, o bonde e um cachorro no meio da rua, me deixei invadir pelo saudosismo, que muitos acham um pecado.
    Abraço
    Boris Fausto

    • Edison Loureiro
      25/11/2015 às 15:47

      Olá Boris Fausto

      Obrigado pelo comentário.
      Eu penso que nada há de errado em saborear bons momentos vividos e deixar-se levar por este tipo de devaneio e sentimento.
      Abraço
      Edison Loureiro

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