Início > Sem categoria > A Casa de Câmara e Eusébio Stevaux

A Casa de Câmara e Eusébio Stevaux

Casa de Câmara 1910A Assembleia Provincial ou Senado Estadual, antiga Casa de Câmara e Cadeia em 1910 na Praça João Mendes.

Por Edison Loureiro

O edifício que vemos na foto não existe mais. Foi demolido na década de 1940 no Plano de Avenidas do governo Prestes Maia. Ficava onde hoje está o acesso do viaduto D. Paulina para a Praça João Mendes. Ao lado esquerdo vemos a Igreja de S. Gonçalo que está lá até hoje, firme e forte.

Até meados dos anos 1700 esta região ficou um tanto “esquecida”. Era apenas um caminho das tropas que iam e vinham pelo caminho de Santos, atual Rua da Glória, atravessando o largo do Pelourinho em diagonal, depois também a praça e entrando pela antiga Rua do Imperador, depois do Marechal Deodoro, atual lado par da Praça da Sé. Outro caminho de tropas que passava pelo Largo era o antigo caminho de Santo Amaro que seguia pela atual Avenida Liberdade e Rua Dr. Rodrigo Silva.

Após a construção da capela de S. Gonçalo, cuja provisão foi dada em 1756, a região começa a se incorporar à cidade. Em 1783 resolve-se erguer a Casa de Câmara e Cadeia no Largo. Fato pouco comum às tradições das povoações luso-brasileiras, uma vez que não era uma região central e o pelourinho não havia sido colocado ali, defronte ao paço, como de hábito. Foi instalado no antigo Largo do Pelourinho, hoje largo Sete de Setembro.

A Casa de Câmara e Cadeia foi construída quase perpendicularmente à capela de São Gonçalo, com a frente voltada ao leste. Teve a fachada reformada em torno de 1791 pelo engenheiro militar João da Costa Ferreira e permaneceu sem modificações até 1877. A Cadeia ficava no térreo e a Câmara Municipal se reunia no andar superior. Pelas janelas os presos podiam conversar com quem passava pelas ruas.

Naquele  ano a Assembleia Provincial resolveu transferir sua sede para cá, repartindo o prédio com a Câmara dos Vereadores e o edifício é então reformado.

O responsável pela obra foi Eusébio Stevaux, engenheiro francês, nascido em 1826 e que chegou ao Brasil em 1851.

Sua vinda ao Brasil foi curiosa, literalmente acidental. Com 25 anos, havia sido contratado para serviços de engenharia na Califórnia, porém a galera Elisa, em que embarcou teria que contornar toda a América do Sul para alcançar o Pacífico, uma vez que o canal do Panamá ainda não existia. A galera aportou no Rio de Janeiro, um dos pontos previstos para abastecimento e reparos quando o casal Stevaux, Eusébio e sua mulher Léonie, desembarcou para entregar uma encomenda que um amigo enviava ao imperador D. Pedro II.

Enquanto o jovem casal está em terra, em 8 de fevereiro de 1851, uma explosão afunda a galera rapidamente, levando junto toda sua bagagem. Sem alternativa, Eusébio conseguiu trabalho na construção de um canal em Campos e posteriormente voltou ao Rio de Janeiro para trabalhar na construção da estrada D. Pedro II. E assim foi dando seguimento à sua carreira no Rio, em Minas Gerais e São Paulo. Em 1870 já havia assumido a cidadania brasileira.

Em São Paulo estabeleceu uma fazenda no Pantojo, perto de São Roque, onde dispunha de uma estação ferroviária. Nesta fazenda extraiu cal e mármore para construção civil, iniciando um rendoso negócio.

A partir de 1877, realizou várias obras como engenheiro provincial, cargo que ocupou até 1885, quando se exonerou e retirou-se para São Roque, onde fez parte do Conselho de Intendência, foi eleito vereador e projetou a rede de abastecimento da cidade de água sem custo. Morreu em sua casa no Largo dos Guaianases, atual Praça Princesa Isabel em São Paulo em 1904.

A reforma da Casa de Câmara e Cadeia foi feita e o povo gostou, conforme informa Eudes Campos, no artigo “Largo Municipal”, “Dentro do quadro de precariedade que aos poucos se dissipava em São Paulo, Stevaux procurou conferir um ar de civilidade cosmopolita ao edifício, ao introduzir nele uma aparência de hotel de ville ou mairie francesa. O resultado do ponto de vista estritamente estético não deixou de ser medíocre, mas os contemporâneos ainda inabituados com os padrões da arquitetura eclética internacional receberam o predinho com teto coberto com placas de ardósia como o suprassumo da Arquitetura”. As estátuas nos altos do edifício representavam a Lei, a Justiça, o Comércio e a Agricultura.

São Paulo ganhou assim o seu Paço Municipal. O largo à frente da Assembleia foi ajardinado em 1879 de acordo com projeto de Fernando de Albuquerque, equipado com um coreto e recebeu grades ao redor. Foi a primeira praça ajardinada na cidade.

A praça ficou simpática, como podemos ver pelas fotos, porém tinha um inconveniente, nos dias de função do Teatro São José não havia espaço suficiente para a quantidade de carros e tílburis que afluíam, formando grandes congestionamentos. João Mendes Júnior em sua obra A Monographia do Município da Cidade de S. Paulo, de 1882, afirma que o jardim municipal foi uma ideia infeliz. Portanto, caro amigo ou amiga, se você costuma irritar-se ao dirigir em São Paulo, fica sabendo que nossos avós e bisavós já sofriam com os congestionamentos de tílburis e carros puxados a cavalo.

A antiga Casa de Câmara e Cadeia, resistiu assim reformada até que na década de 1940, o mesmo conjunto de obras que deu origem à Praça Clóvis Bevilaqua, o Plano de Avenidas da Cidade de São Paulo, fez com que fossem demolidos em 1943 o edifício da Assembleia Legislativa e a Igreja dos Remédios junto com todo o quarteirão onde estava situada e mais todo o quarteirão irregular que ia da antiga travessa da Glória à rua Tabatinguera.

1862A antiga Casa de Câmara e Cadeia antes da reforma, em 1862.

Anúncios
Categorias:Sem categoria
  1. Joao barbosa
    24/04/2016 às 22:04

    Excelente pesquisa documentada , nem mesmo , livros importantes da História da Cidade de São Paulo , trazem e mostram a riquesa de detalhes aqui legada aos amante da Antiga Sào Paulo – Parabéns e Muito Obrigado pelo legado Cultural. JB

    • Edison Loureiro
      26/04/2016 às 09:51

      Fico feliz que tenha gostado. Obrigado.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: