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O Tesouro da Casa Lebre

Tesouro

Esquina da Rua Direita com a Rua XV de Novembro no começo da década de 1900

Por Edison Loureiro

O casarão que vemos no centro da foto acima foi conhecido por ter pertencido ao Barão do Tietê. Mais tarde, em 1858 aí se instalou a Casa Lebre. Este casarão e o do Café Girondino na outra esquina da Rua XV de Novembro formavam um estreitamento da rua. O mesmo estreitamento era observado no final da rua, na Praça Antônio Prado, o que fazia com que a rua ficasse meio “barriguda”.

Por ocasião da demolição destes casarões a Prefeitura determinou um grande recuo para fazer o alinhamento com o novo prédio da Casa Paiva, na esquina com a Rua do Tesouro, eliminando o gargalo.

O casarão foi demolido no começo de 1907. Foi quando aconteceu um fato curioso.

Era manhã de domingo, 17 de março, mesmo assim Vicente Romeu, operário da obra de demolição trabalhava duro metendo a picareta na taipa de pilão para derrubar as paredes do sobradão.

Num dos golpes, viu que rolou dos escombros um cano de chumbo com as duas extremidades lacradas. Vicente largou a picareta por uns momentos e pegou o canudo para olhar de perto. Achou que poderia ser algo valioso e o escondeu por baixo do casaco com medo que algum outro operário visse e disputasse com ele.

O dia foi longo, morria de curiosidade. Poderia ser alguma joia escondida ou mesmo dinheiro, quem sabe? Afina, casas antigas têm seus segredos.

Enfim o expediente encerrou-se. Vicente correu para Rua de São João, 172 onde morava e entrou tão pálido e agitado, que a mulher perguntou se estava passando mal. Vicente respondeu que talvez tivesse encontrado uma fortuna. A mulher deu risada, mas quando viu o canudo perfeitamente lacrado, também se interessou.

O canudo tinha aproximadamente dois palmos de comprimento. Vicente quebrou o lacre e retirou de dentro um papel com um texto escrito em tinta roxa.

Isso era um tremendo problema! Como decifrar aquilo se nenhum dos dois sabia ler?

A solução foi chamar um compadre. Contou o acontecido e pede o máximo segredo. Em seguida pediu-lhe que leia o texto em voz baixa.

O papel dizia:

Sam Paulo, 14 de novembro de 1842 – Declaro que, tendo de me retirar desta cidade, por motivos políticos, e não podendo levar commigo o que possuo, deixo-o enterrado sob uma pedra, a quatro covados de profundidade, no centro desta loja, no ponto em que se cortam duas diagonaes tiradas dos quatro cantos da mesma loja. Na certeza de que talvez a Providencia não permitta o meu regresso lego este meu deixado ao feliz que este encontrar. Appello à sua caridade, como bom christão que mande celebrar cem missas para o descanço da minha alma. Outrossim, incumbo-lhe de distribuir da quantia e objetos hoje depositados a insignificante parcela de 5:000$000 de réis aos pobres desta cidade. Cumpra este meu pedido, quanto não tema a maldição e perseguição eterna da alma penada deste peccador, J.C.”

Vicente estava ansioso, mas não sabia exatamente o que fazer, portanto aceitou a sugestão do compadre e foram procurar um advogado. O advogado explicou como proceder e fez uma petição ao juiz de ausentes Dr. Clementino de Souza e Castro. Nesta petição relatava o acontecido e solicitava a metade do eventual tesouro encontrado para Vicente na forma da lei. Solicitava também que designasse operários da demolição para cavar no local indicado.

O juiz deferiu a petição e designou o doutor curador de ausentes para marcar a hora em que deveria se feita a diligência.

Tudo acertado, diligência marcada para as dez horas da noite de quarta-feira, 20 de março, lá se vão Vicente, o doutor curador de ausentes, policiais e operários, acompanhados de grande número de curiosos, cavar o chão do prédio em demolição.

Nas primeiras escavações encontraram uma grande pedra em formato de pirâmide de base retangular. Aumenta a expectativa, porém, não havia luz suficiente para continuarem os trabalhos. Assim suspenderam as escavações e marcaram para o dia seguinte às oito horas da manhã.

No dia seguinte a notícia do encontro do canudo que indicava um tesouro escondido já tinha corrido a cidade. Fazia-se todo tipo de especulação. Desde que era tudo uma troça, pois a tinta roxa não teria existido em 1842, ou quem seria o misterioso J. C. Ora, diziam os mais velhos, o barão de Tietê, José Manuel da Silva, antigo proprietário da casa, era sogro do sargento-mór José da Silva Carvalho, político inimigo dos revolucionários de 1842, que avançavam de Sorocaba sobre São Paulo. Na idade em que já estava deve ter se refugiado. Portanto, J. C. iniciais de José Carvalho.

O jornal O Estado de S. Paulo calculou em quinze mil o número de curiosos que passou pelo local e muitos ficavam acompanhando as escavações. Estavam presentes o próprio juiz de ausentes e o procurador da República, além de muitos policiais.

A obra foi interditada e cavaram das oito da manhã ao meio-dia e a única coisa que encontraram foi um pedaço de uma panela de ferro. O juiz determinou então que cavassem exatamente no centro da loja.

Outras quatro horas se passaram, e nada. Frustrados, retiraram-se o juiz e as outras autoridades ficando, porém alguns curiosos.

Cogitou-se de continuar em as escavações após a demolição total do casarão, mas nunca encontraram nenhum tesouro. Ou foram vítimas de alguma brincadeira ou o misterioso J. C. enganou-se na geometria. Em compensação o povo teve bastante assunto para comentar por um bom tempo.

Como lembrança do episódio o canudo ficou exposto na vitrine do jornal O Estado de S. Paulo. Era um tempo em que se acreditava em tesouros escondidos…

casa Lebre

O novo edifício que foi construído no lugar do antigo casarão. Era conhecido como Palacete Tietê. Ao fundo a torre pontuda do novo prédio da Casa Paiva. Foto de 1912.

Nota

Este relato foi extraído de reportagens publicadas no jornal O Estado de S. Paulo de 21 e 22 de março de 1907.

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