Arquivo

Archive for the ‘Cotidiano Paulistano’ Category

Pixaram O Brecheret

Num país de alienados

Num país de alienados, de pseudos antenados, nada se cria, tudo se destrói. Patrimônio histórico é lixo.

Corpos que já foram símbolos da pátria, usados e abusados por diversas vertentes políticas jaziam esquecidos e, até, perdidos no monumento à Independência. Não era moda falar deles e quem mexeu com “aquilo” agora é mau visto, pois “só queriam aparecer”.

Mudam museus por moda, e o Primeiro Reinado foi pro lixo e vai virar um novo modismo, até que venha outro governante alienado e pseudamente antenado e mude tudo de novo. E agora pixaram o Brecheret… se a moda pegasse na Rússia Soviética não tinha sobrado um palácio em Moscou, Petersburgo ou Tsarskoye Selo intacto. Mas lá os marxistas eram mais civilizados, preservaram e reconstruiram castelos, palácios e monumentos após serem devastados por nazistas pois haviam sido feito pelo povo, eram arte. Aqui, pixasse porque os pseudos antenados são contrários a exploração dos índios, dos negros e da forma como a história foi contada.

Num discurso cada vez mais abrangentes onde os pseudos antenados utilizam-se de expressões como “Bom dia a TODOS E TODAS”, porque eu não me sinto incluído? Porque eu me sinto barbarizado cada vez que a minha cidade e suas obras de arte são atacadas por quem quer ser respeitado? Onde está a lógica disso?

Entendo que formulas como “O Brasil foi descoberto em 1500” não fazem mais sentido. Os índios já estavam aqui. A forma como a nossa história foi ensinada, através da ótica do Europeu, deve e tem que ser revista… Mas porque os nossos monumentos, nossas obras de arte, nossos espaços (poucos) de lazer tem que pagar o pato?

Anúncios

Carta denúncia sobre a Bucha

Este documento foi achado no ano passado enquanto eu pesquisava sobre a BUCHA – a Sociedade Secreta das Arcadas. Trata-se de uma carta anônima enviada ao jornal O Estado de São Paulo, entre março e julho de 1932 – conclusão obtida pela referência ao então interventor do estado, Pedro de Toledo. Por motivos óbvios, o jornal não a publicou.

“A CAMORRA DE CIMA”

Toda evolução política do Brasil vem há muito tempo sendo controlada e impulsionada por uma Associação Secreta que hoje ameaça novamente sugjulgar o povo brasileiro, suicando todo o anseio de liberdade das massas.

Esta Associação, fundada nos moldes da já existente desde 1815, na Alemanha, aqui foi criada pelo exilado político Julius Frank, fugido da Alemanha e perseguido por suas idéias sociais Marxistas, amigo de Carlos Marx, é o seu túmulo venearado na Fraculdade de Dreito de São Paulo, pois foi nesse meio que ele escolheu para estabelecê-la, como uma associação de estudantes. É a cópia fiel da Associação Alemã. Até o nome foi conservado. Por ele vê-se perfeitamente a sua finalidade: BRUSCHENSCHAFT, que quer dizer CONFRARIA DE CAMARADAS. Camaradas foi sempre a designação usada pelos adeptos do comunismo. A sua estrutura é a mesma da Associação alemã: Conta três gáus: Catecumenos, Crentes e Apóstolos, dos quais são eleitos três para a sua suprema direção, que é vitalícia.

Os estudantes são selecionados nos seus dois primeiros anos de curso iniciado geralmente no terceiro ano. É uma sociedade rigorosamente secreta. O estudante escolhido para fazer parte da confraria é convidado para assistir a sua festa por dois ou três colegas, e a vir trajado a rigor. No dia determinado os colegas vão buscá-lo e aí tomam o compromisso sagrado pelo qual respondem com a vida, se por ventura fale sequer sobre o que lhe vai ser revelado. Mesmo que, uma vez exposto os seus fins, dela não queria ser parte.

Os fins aparentes são resumidos na sua fórmula fundamental de abertura das seções: FÉ – ESPERANÇA – CARIDADE.

FÉ, na ciência e a divulgação; fé na socieade para a qual pelo resto da vida estará ligado, sob terríveis juramentos; fé na sua proteção, pois terão para consquista de posições todas as facilidades.

ESPERANÇA, em serem sempre os senhores deste maravilhoso tonel e desta enorme população de ignorantes, onde eles são a verdadeira aristocracia.

CARIDADE, auxílio mútuo, em todas as emergências da vida, ao camarada.

Com o correr do tempo, simplificou-se o nme da confraria e ficou conhecida pelo nome de “BUCHA”

A “BUCHA” dirigia os estudantes através do Centro XI de Agosto. Todos os seus presidentes foram bucheiros, pertencentes ao apostolado e ao conselho dos doze, até que oposição acadêmica conseguiu vender a “BUCHA”, elegendo a direito do Centro para 1926 e trazendo para o domínio público o conhecimento da existênci dessa terrível camorra.

Tem ela em ela em suas mãos todos os altos poderes do Estado.

A ela devemos algumas campanhas na evolução política do Brasil, até 1922; assim a palavra de ordem foi dada para a campnaha abolicionista, para a proclamação da República, para o serviço militar obrigatório.

Quando se fundou o Centro Acabdêmico compunham a suprema direção da “BUCHA” os senhores: Pedro Lessa, Frederico Vergueiro Steidel, e Raphael Smapio, todos catedráticos da Faculdade; era chefe supremo o sr. Pedro Lessa. Por morte deste assumiu a direção o sr. Steidel.

Com a extraordinária expansão do país, achou Vergueiro Steidel conveniente fazer a explansão da “BUCHA”, estabelecendo-a em outras Escolas Superiores. Assim, propagou-se para a Esocla Politécnica e Faculdade de Medicina de São Paulo.

Foi ela quem fechou a Universidade de São Paulo.

Parte dela a oposição movida contra os engenheiros do Mackenzie College que encontram todos os entraves possíveis para venderem na vida. Vem cuminar esta oposição com o recente decreto do Governo Provisóiro invalidando diploma de engenheiro fornecido por esta escola.

Resolveu também Vergueiro Steidel criar um corpo externo que combatesse pleo programa da “BUCHA”. Fundou-se então a Liga Nacionalista propagando o voto secreto.

Já os anseios do povo brasilerio eram fortes para a sua libertação política e social: a “B UCHA”, com a fundação da Liga Nacionalista e Campnha do Voto Secreto, lançava uma máscara ao povo, tapenado-o na sua revolta contra os dominadores. Era o voto secreto para a Liga Nacionaista, a panacéia que haviera de regenerar as imoralidades administrativas e políticas, quase todas praticadas por membros da camorra.

O polvo bucheiro dominava discrecionariamente o Brasil todo. Tal o seu poder que o Barão do Rio Branco, homem de maior veneração dos brasileiros no período republicano, teve de vir a São Paulo responder perante a “BUCHA” por ter inconscientemente conversado sobre ela com um amigo que julgou ser também da confraria. Isto em 1905;

O grande Pinheiro Machado, pagou com a vida o ter-se oposto ás ordens da “BUCHA”. Foi por esta assassinado. Manso Paiva não foi mais que instrumento inconsciente.

O ridículo e o oprobio cobriram o Marechal Hermes da Fonseca: era um Presidente não bucheiro. Teve que suportar todo o peso da camorra.

A “BUCHA” mata quem se lhe opõe ou divulga o seu conhecimento!

Moacyr Pisa quis enfretá-la e foi por ela morto. Seu irmão silenciou por conveniência política.

Quando algum profado alegava imprevistamente ter conhecimento da “Bucha”, era forçado a calar-se ou ser iniciado, dizendo-se, então, na gíria bucheira, que tinha entrado pela janela. Foi o que aconteceu ao atual chefe de polícia, Thyrson Martins, que, quando ofi pela primera vez chefe de polícia em São Paulo, teve ciência, por seus inspetores de que havia reuniões secretas na rua da Liberdade; estávamos já em pleno período de intranquilidade. Abava de realizar-se a greve dos operários do Bras e da Moóca, greve que foi sufocada a metralhadora. Era presidente do Estado do bspo civil de São Paulo, Altino Arantes, representante do cleo junto a “BUCHA”.

Thyrson Martins, homem corajoso, quis pessoalmente dirigir a diligência. Dado o cerco a casa, ele em pessoa fez abrir a porta em nome da polícia e qual não foi o seu espanto, quando lhe apareceu o secretário da justiça, o estão Elou Chaves, encasacado e também o beatífico queixo do sr. Altino Arantes, presidente do Estado.

Caira o Sr. Thyrson Martins em cheio na “BUCHA”. Resultado: entrou pela janela, sendo iniciado nessa mesma noite; depois de ter dispensado os seus inspetores. A grei estava toda reunida: Steidel, Rapahel Sampai, Reynaldo Porchat. Quem deu as boas vindas ao neófito, foi o orador oficial da “BUCHA” na época, o dr. Lino Moreira, genro do atual interventor de São Paulo, Pedro de Toledo. Vejam bem por aí a missão de Pedro de Toledo em São Paulo. Como bom bucheiro restabeleceu o domínio absoluto da “BUCHA”.

É hoje o sr. Thyrson Martins um dos seus apóstolos. Os anseios de liberdade do povo são sempre abafados pela camorra e de uma maneira magistral.

Fazem com que as oposições sejam chefiadas pelos bucheiros; assim o povo, na sua ignorância, julga ter chefes quando não tem mais do que traídores. A campanha da Liga Nacionalista pelo voto secreto é o princípio de tomada de posições para desviar os anseios do povo.

Chegamos em pleno regime revolucionário. Temos a revlução de 1924 em São Paulo. parece como um de seus chefes civis o Dr. José Carlos de Macedo Soares, influenciando e anulando o bravo e generoso general Izidoro Dias Lopes. Para valizarmos a hiporcrisia deste bucheiro graduado, ex-presidente do Centro Acadêmico, basta notarmos que, sendo ele chefe civil de uma revolução, foi quem escondeu em sua cas Sylvio de Campos e irmandade. Foi desde então o fiscal destacado pela Câmara conta Izidoro e vemos como, depois de 1930, consegue anular a ação do general Izidoro, incotestavelmente um dos ídolos de São Paulo. Acabada a obra de destuição de Izidoro; ei-lo gozando as delícias de uma embaixada. “

São Paulo em 1822, ou o que o Demonão viu além das curvas de Titília

Dom Pedro e sua comitiva entraram por São Paulo pelo melhor caminho que existia na época para apreciar devidamente a cidade. Depois de passar a colina da Penha, uma outra, mais ao longe, ostentava as torres de oito igrejas, dois conventos e três mosteiros. Passando pela Várzea do Carmo, um verdadeiro pântano onde hoje encontra-se o Parque D. Pedro II, Pedro I subiu a atual Rangel Pestana em direção ao então núcleo urbano da cidade, desenvolvido ao redor do Colégio dos Jesuitas e confinado entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí. O que Dom Pedro viu? Além das curvas de sua Titília?

Uma das primeiras coisas que D. Pedro deve ter notado foi a taipa paulista. Diferente dos nossos atuais arranha-céus, a morada paulista da época era feita de barro, socado com o pilão ou espalmado em treliças de madeira. As casas eram pintadas com uma espécie de cal, tirado da região da ladeira da Tabatinguera, o “Barro Branco” que dava o nome indígena ao local. Raras eram as casas de pedra ou tijolos. As construções eram, geralmente, de dois andares, dotadas de balcões onde os paulista “tomavam a fresca”, de manhã e de noite, onde assistiam às passagens das procissões, que não eram poucas. Aliás, o povo paulista era bastante devoto: a cidade inteira parava para rezar o terço à hora da Ave-Maria. Em 1822 existiam três oratórios públicos, um deles nos famosos “Quatro Cantos”, a antiga encruzilhada formada pela Rua Direita e a Rua de São Bento. Alguém que conhece a Pauliceia consegue imaginar parte da população ajoelhada lá, às 18h, em pleno horário atual de “rush”? Pois na época isso ocorria: a multidão tomava toda a calçada e parte da largura da rua, onde rezavam por 25 minutos. Atropelamentos não existiam, afinal, só havia um coche na cidade inteira em 1822, o do Bispo de São Paulo. Os outros meios de transporte eram as cadeirinhas, onde escravos faziam o papel de motor, e os milenares carros de boi com seu gemer característico.

O povo paulista abastecia-se de água em fontes, geralmente próximas das igrejas, que, pela época da vinda de D. Pedro I, deviam estar, como aconteceria por mais cinquenta anos até a implantação da Companhia Cantareira, secas.

Quando os paulistas não estavam rezando ou procurando água, poderiam ser encontrados matando tempo jogando em família a bisca, a douradinha e o “vive l´amour”; exercitando suas primeiras tacadas no bilhar do Antonio José Pereira dos Santos, na rua do Comércio; trocando dedos de prosa na Botica do Lúcio ou na do Mota, tio do futuro poeta Alvares de Azevedo, que tão bem deixou ilustrado em “Macário” o hábito paulista de comer couves cozidas. Falando em comida, não podia faltar na mesa do paulista a excelente mostarda que vinha da fazenda dos padres beneditinos em São Bernardo. Também o doce de figo, um dos maiores quitutes da cozinha paulista, estava sempre presente.

Jornal só existiria no próximo ano, em 1823. Escrito a mão, servia cinco assinantes. Era confeccionado pelo “Mestrinho”, apelido do genial Antonio Mariano de Azevedo Marques, que, com onze anos, lecionava latim na Sé.

Além das prosas, o paulista também tinha diversões noturnas, como bailes, sendo os mais concorridos o do Palácio do Governo, então localizado no Pátio do Colégio após a desapropriação dos bens dos jesuítas. A vinte passos da sede do governo ficava o teatro em que D. Pedro, com a sociedade paulista, comemorou na noite de 7 de setembro de 1822  o “Grito” que deu no Ipiranga, sendo aclamado pelo padre Idelfonso Xavier o “Primeiro Rei do Brasil”. Na época, a sociedade teatral começava a se organizar. Os escravos e prostitutas colocados no palco anteriormente, já davam lugar a artistas mais experientes. Sim, eu falei em prostitutas; se é a mais antiga das profissões, não podia deixar de falar sobre as que a praticavam na São Paulo de Piratininga.

As prostitutas paulistas do começo dos 1800 seriam virgens nos dias de hoje! Elas só apareciam à noite atrás de tropeiros. Cobertas por amplos capotes de lã, deixavam somente parte do rosto à mostra. Vindas, geralmente, de muito longe, davam um toque oriental à noite paulista mal iluminada. O viajante francês Saint-Hilaire afirmava que elas passeavam lentamente pelos caminhos ermos da cidade, jamais abordando ninguém. Não conversavam nem entre elas, e Saint-Hilaire atestava que nada tinham do cinismo e descaramento das suas colegas de profissão francesas.

A peça que foi apresentada à D. Pedro na noite de 7 de setembro de 1822 no teatro, e que ele não ficou até o fim para assitir, chamava-se “O Cavaleiro de Pedra”, uma história a respeito do célebre amante Don Juan. A peça foi imortalizada por Mozart na ópera “Dom Giovani”, na qual Leporello, empregado de Giovanni, conta que seu mestre tinha, só na Espanha, “Mille e Tre” amantes. D. Pedro, que ficaria famoso pelas suas, sendo a mais famosa a nossa Titília, tinha bem mais o que fazer naquela noite além de ouvir sobre o caso amoroso dos outros. Segundo alguns relatos, tinha pressa em ver Domitila, com quem já tinha “ficado” em 29 de agosto, dias depois de ter entrado na cidade.

Do Palácio, no Pátio do Colégio, ele governou São Paulo por 15 dias, apaziguou os ânimos políticos dos bernardistas x andradistas, convocou novas eleições. Mas o que levou mesmo daqui foi a lembrança de um grande amor que duraria sete longos e escandalosos anos. Como não assistiu a peça até o final, não aprendeu o mais importante segredo de Don Juan: nunca se apaixonar por suas amantes.

Casamento Matarazzo na Av. Paulista – 1945

As histórias sobre a família Matarazzo são uma parte importante do folclore urbano da cidade de São Paulo. O casamento, em 1945, de Filomena Matarazzo, a filha do conde Chiquinho Matarazzo, neta do patriarca, rendeu diversas histórias por toda a pompa e circustância da festa realizada na antiga mansão da família na Avenida Paulista. O jornalista Joel Silveira, então repórter dos Diários Associados, capitaneado pelo arqui-inimigo do conde Chiquinho, o jornalista Assis Chateaubriand, produziu uma das mais irônicas críticas sociais a respeito do evento: “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”. Mas resolvi postar uma outra crônica sobre o ocorrido. Foi escrita pelo jornalista Frederico Branco e encontra-se no seu livro “Postais Paulistas”. Só nos restam esses relatos a respeito da festança, pois o próprio cenário foi destruído pelos herdeiros do conde durante o governo da prefeita Luiza Erundina. Muito escândalo na época sobre o ocorrido, mas, na realidade, artisticamente falando, não houve perda. A mansão era um horror fascista, um prédio neo-neoclássico aguado, com um arremedo de monumentalidade que faria a simpática Villa Virginia, primeira residência dos Matarazzo na Paulista, atirar-se no Vesúvio de raiva. O responsavel pelo crime, ou melhor, pelo projeto, foi Marcello Piacentini, architetto del regime de Benito Mussolini, Il Duce. Sim, os Matarazzo não tinham apenas poder econômico, apitavam na política aqui e na Itália fascista, onde seus parentes ocuparam cargos políticos. Piacentini foi o “culpado” por outros prédios da família na cidade. Também é dele o edifício que fica no viaduto do Chá, antiga sede das Industrias Reunidas Franscisco Matarazzo, ocupado atualmente pela Prefeitura; e o horrendo palácio dos Bandeirantes, que foi construído pelos Matarazzo para ser uma faculdade que levaria o seu nome, em velha e eterna rixa com a família Crespi, criadores do colégio Dante Alighieri. Com as dificuldades financeiras, que acabaram levando à falência do grupo na década de 80, esses edifícios foram repassados ao governo do estado para o pagamento de impostos atrasados.

Mas já falei muito. Com vocês, a engraçada crônica de Frederico Branco:

Por pouco, quase o papa

Quarenta e tantos anos antes da prefeita ter quebrado a cara na mansão dos Matarazzo, já nos conhecíamos há tempo. A mansão e eu, claro, que naquela altura d. Erundina ainda estava longe, acho que nem pensava em converter o Sul Maravilha numa extensão do seu Agreste. Eu conhecia a mansão de vista, simplesmente por estar situada na rota de minha casa, na esquina da Paulista com a Pamplona, onde o Jardim Paulista 40 fazia uma conversão à esquerda, antes de precipitar-se ladeira abaixo. A mansão estava lá, simplesmente. Se nunca me fez bem, também nunca me fez mal. E uma vez até me divertiu.

Foi quando se casou a filha do conde. Como nunca fui chegado às colunas de fofoca social, nem sabia do tal casamento – ao contrário de meu irmão, o Luiz Carlos, que era colega do “condinho” no Eduardo Prado e ganhou convite para o casório, com direito a ceia, bebericos diversos e uma canetinha folheada a ouro.

Eu não estava nem ali. Só percebi que alguma coisa estava acontecendo na esquina da Paulista com a Pamplona quando o Jardim Paulista em que eu voltava para casa ficou preso num congestionamento de trânsito, na altura da Eugênio de Lima. Pensei logo em desastre. Descarrilamento, trombada. E, como sempre fui um pouco curioso, saltei do camarão e prossegui a pé pela Paulista.

Bem antes da Pamplona já deparei com uma multidão. Havia gente às pencas, concentrada na frente da mansão e no lado oposto, junto à casa romana da irmã do conde. No meio da Avenida, nas calçadas e até sobre as árvores. Na base do apito, boas maneiras e autoridade exercida em azul, os guardas-civis mantinham a custo caminho aberto para os convidados que chegavam. Não era fácil, pois o povão estava aceso. E não era para menos. Afinal, nem todo dia se casava em São Paulo uma filha de conde. Dizem até que conde de verdade.

Empurra daqui, vara dali, acabei encontrando um lugar do outro lado da Avenida, dividindo a mureta da casa da irmã do conde com outros curiosos. Meio apertado, mas da mureta eu tinha uma razoável visão dos portões da mansão, bem na esquina, abertos por lacaios agaloados a cada ilustre convidado que chegava em automóvel de fino trato.

Na calçada, na minha frente, estavam os que tinham chegado muito antes: mães com crianças de todas as idades, senhores e senhoras em roupas de domingo, rapazes e mocinhas. Quase todos, grandes e pequenos, empunhando bandeirinhas ou flâmulas feitas em casa com as cores da Itália e do Brasil. Não era preciso ser Sherlock para constatar que eram famílias do Bexiga, que começava praticamento nos fundos da mansão dos Matarazzo, descendo as encostas da Sacadura Pequena. Sob a garoa fina, estavam ali festejando, aclamando a chegada de cada convidado como se o casamento fosse de parente próximo, a ser alegremente comemorado.

Bem ao meu lado, sobre o murinho, um senhor de boné de lã, metido num sobretudo de gola de veludo preto, já meio puído mas ainda de corte elegante, atuava como uma espécie de locutor de campo, danto conta, à sua audiência cativa na calçada, de quem ia chegando para cruzar os portões da mansão. Fazia frio e ele garantia seu aquecimento interno com a garrafa que tirava do bolso do sobretudo. Acho que já tinha exagerado um pouco na garrafa, pois exagerava outro tanto na locução. Mais de uma vez, por exemplo, anunciou solenemente a chegada do governador, proclamando em bela voz de barítono:

– Il governatore. Evviva il governatore!

Pondo de lado pernas e asas de frango para empunhar as bandeirinhas e flâmulas, os que estavam abaixo da mureta, na calçada, reagiam com entusiasmo:

-Evviva!

Sempre atento a quem chegava, compenetrado da importância de seu papel de arauto, o locutor de campo não perdia nenhum dos ilustres convidados que chegavam, designados por seus títulos reais ou imaginários, comendadori, generali, gentiluomini, cavaliere-ufficiali e não sei mais quantos, todos devida e longamente aplaudidos pelos circunstantes.

No fim, o locutor de campo acabou por exceder-se de fato. Talvez inflamado pelo próprio entusiasmo. Talvez pelos goles que tomava da garrafa para fazer frente ao frio. O fato é que, quando divisou no assento tradeiro de um carro que chegava aos portões uma figura de solidéu purpurino, não teve dúvida em proclamar:

– Evviva il papa!

A comoção foi geral e instantânea. Vi gente que se ajoelhava na calçada, senhoras que se persignavam, pais que erguiam nos braços os filhos pequenos. No empurra-empurra que se seguiu, todos querendo ver o papa que teria chegado para o casamento da filha do conde, acabei sendo empurrado da mureta, com o próprio locutor de campo. Foi a custo que consegui chegar à Pamplona e escafeder-me ladeirão abaixo. Só sosseguei quando me vi a salvo, no reduto seguro do Bar e Bilhares Benfica.

Ainda me lembro que um dos sinuqueiros de plantão notou que eu estava muito pálido e me perguntou se eu tinha visto alguma alma do outro mundo. Quase respondi que não, que tinha visto o papa. Mas não disse. Jogador de sinuca geralmente não tem senso de humor. E o tal estava de taco na mão.

Tomei um café com conhaque, fui dormir. E nunca mais pensei na mansão dos Matarazzo, até d. Erundina declarar guerra à própria.

Frederico Branco: Postais Paulistas

Mansão Matarazzo parcialmente demolida

 

São Paulo vista por Satã / Álvares de Azevedo

O poeta Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, mas muito cedo mudou-se para a Corte, voltando para cá duas vezes, sendo que na última frequentou o Curso Jurídico instalado no velho mosteiro franciscano.

A sua correspondência com sua mãe –  a parte que sobreviveu e foi publicada –  mostra muito do rapaz acostumado com as mordomias da capital do império em detrimento à vida enfadonha da capital da província paulista. Mas, além de fofocas de baile, dos vestidos, penteados e jóias, que estranhamente parecem encantar o autor de “Se eu morresse amanhã”, ele nos legou uma saborossíssima crônica sobre São Paulo no seu “Macário”, onde fala sobre os tipos paulistas e os hábitos da época (final da década de 1840 e começo dos 50).

Macário, o personagem da peça, é um estudante e poeta romântico que vem estudar na capital, e em uma taverna, após vencer a Serra do Mar, encontra um misteriosos companheiro de viagem, que revela-se depois ser Satã. É através do próprio Tinhoso que Álvares de Azevedo despeja toda sua crítica à capital paulista.

MACÁRIO

– Tudo isso não prova que ele não trota danadamente. Falta-nos muito para chegar?

SATÃ

– Não. Daqui a cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Hás de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma essa de enterro.

Vista da cidade de São Paulo da estrada de Santos, 1839

MACÁRIO

– Tenho ânsia de lá chegar. É bonita?

SATÃ ( boceja )

– Ah! é divertida.

MACÁRIO

– Por acaso também há mulheres ali?

SATÃ

– Mulheres, padres, soldados e estudantes. As mulheres são mulheres, os padres são soldados, os soldados são padres, e os estudantes são estudantes: para falar mais claro: as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isto salvo honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante, tu.

MACÁRIO

– Esta cidade deveria ter o teu nome.

SATÃ

– Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge. Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calçadas!

MACÁRIO

– Que têm?

SATÃ

– São intransitáveis. Parecem encastoadas as tais pedras. As calçadas do inferno são mil vezes melhores. Mas o pior da história é que as beatas e os cônegos cada vez que saem, a cada topada, blasfemam tanto com o rosário na mão que já estou enjoado. Admiras-te? por que abres essa boca espantada? Antigamente o diabo corria atrás dos homens, hoje são eles que rezam pelo diabo. Acredita que faço-te um favor muito grande em preferir-te à moça de um frade que me trocaria pelo seu Menino Jesus, e a um cento de padres que dariam a alma, que já não têm, por uma candidatura.

Uma das pontes de alvenaria sobre o Tamanduatei, com o mosteiro e a igreja do Carmo no alto da ladeira

MACÁRIO

– Mas, como dizias, as mulheres…

SATÃ

– Debaixo do pano luzidio da mantilha, entre a renda do véu, com suas faces cor-de-rosa, olhos e cabelos pretos (e que olhos e que longos cabelos!) são bonitas. Demais, são beatas como uma bisavó; e sabem a arte moderna de entremear uma Ave-Maria com um namoro; e soltando uma conta do rosário lançar uma olhadela.

Detalhe de uma aquarela de Eduard Hildebrandt mostrando as mulheres paulistas, tanto criança quanto adulta, cobertas dos pés a cabeça, para sairem à rua. O desenho é de 1844

MACÁRIO

– Oh! a mantilha acetinada! os olhares de andaluza! e a tez fresca como uma rosa! os olhos negros, muito negros, entre o véu de seda dos cílios!.. Apertá-las ao seio com seus ais, seus suspiros, suas orações entrecortadas de soluços! Beijar-lhes o seio palpitante e a cruz que se agita no seu colo, apertar-lhes a cintura, e sufocar-lhes nos lábios uma oração… Deve ser delicioso!

SATÃ

– Tá! tá! tá… Que ladainha… parece que já estás enamorado, meu Dom Quixote, antes de ver as Dulcinéias!

MACÁRIO

– Que boa terra! É o Paraíso de Mafoma!

SATÃ

– Mas as moças poucas vezes tem bons dentes. A cidade colocada na montanha, envolta de várzeas relvosas, tem ladeiras íngremes e ruas péssimas. É raro o minuto em que não se esbarra a gente com um burro ou com um padre. Um médico que ali viveu e morreu deixou escrito numa obra inédita, que para sua desgraça o mundo não há-de ler, que a virgindade era uma ilusão. E contudo não há em parte alguma mulheres que tenham sido mais vezes virgens que ali.

MACÁRIO

– Têm-se-me contado muito bonitas histórias. Dizem na minha terra que aí, à noite, as moças procuram os mancebos, que lhes batem à porta, e na rua os puxam pelo capote Deve ser delicioso! Quanto a mim, quadra-me essa vida excelentemente; nem mais nem menos que um Sultão escolherei entre essas belezas vagabundas a mais bela. Aplicarei contudo o ecletismo ao amor. Hoje uma, amanhã outra: experimentarei todas as taças. A mais doce embriaguez é a que resulta da mistura dos vinhos.

SATÃ

– A única que tu ganharás será nojenta. Aquelas mulheres são repulsivas. O rosto é macio, os olhos lânguidos, o seio morno… Mas o corpo é imundo. Têm uma lepra que ocultam num sorriso. Bofarinheiras de infâmia dão em troco do gozo o veneno da sífilis. Antes amar uma lazarenta!

MACÁRIO

– És o diabo em pessoa. Para ti nada há bom. Pelo que vejo, na criação só há uma perfeição, a tua. Tudo o mais nada vale para ti. Substância da soberba, ris de tudo o mais embuçado no teu desdém. Há uma tradição, que quando Deus fez o homem, veio SATÃ; achou a criatura adormecida, apalpou-lhe o corpo: achou-o perfeito, e deitou aí as paixões.

SATÃ

– Essa história é uma mentira. O que Satã pôs aí foi o orgulho. E o que são vossas virtudes humanas senão a encarnação do orgulho?

MACÁRIO

– Oh! Ali vejo luzes ao longe. Uma montanha oculta no horizonte. Disséreis um pântano escuro cheio de fogos errantes. Por que paras o teu animal?

SATÃ
– Tenho uma casa aqui na entrada da cidade. Entrando à direita, defronte docemitério. Sturn, meu pajem, lá está preparando a ceia. Levanta-te sobre meus ombros: não vês naquele palácio uma luz correr uma por uma as janelas? Sentiram a minha chegada.

Chácara dos Ingleses, localizada próximo ao cemitério dos Aflitos, na entrada da cidade. Transformada em uma república de estudades, Alvares de Azevedo ai morou

MACÁRIO

– Que ruínas são estas? É uma igreja esquecida? A lua se levanta ao longe nas montanhas. Sua luz horizontal banha o vale, e branqueia os pardieiros escuros do convento. Não mora ali ninguém? Eu tinha desejo de correr aquela solidão.

SATÃ

– É uma propensão singular a do homem pelas ruínas. Devia ser um frade bem sombrio, ébrio de sua crença profunda, o Jesuíta que aí lançou nas montanhas a semente dessa cidade. Seria o acaso quem lhe pôs no caminho, à entrada mesmo, um cemitério à esquerda e umas ruínas à direita?

MACÁRIO

– Se quisesses, Satã, podíamos descer pelo despenhadeiro, e ir ter lá embaixo, enquanto Sturn prepara ceia.

SATÃ

– Não, Macário. Minha barriga está seca como a de um eremita; deves também ter fome. Molhar os pés no orvalho não deve ser bom para quem vem de viagem. Vamos cear. Daqui a pouco o luar estará claro e poderemos vir.

MACÁRIO

Fiat voluntas tua.

SATÃ

Amen! (…)

Santinhos da Elite Paulista

Com a implatação da estrada de ferro na segunda metade do século XIX, a produção cafeeira passou a escoar mais rapidamente. O trem descia a Serra do Mar com o café e subia carregado de materiais importados da Europa. A entrada em grande escala desses produtos pode ser notada em algumas construções remanescentes do período e de outras formas, no dia-a-dia das famílias paulistanas. Abaixo seguem alguns santinhos que selecionei da minha coleção; todos foram impressos em Paris. Parece que a produção da oficina gráfica existente na Rue Saint Sulpice acompanhava os paulistas em diversas fases da vida, desde a primeira comunhão até os funerais.

%d blogueiros gostam disto: