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São Paulo higienizado, ou como 3 milhões cabem em um espaço para 100 mil.

Sempre amei São Paulo e passei a amar mais ainda depois das aulas de urbanismo que tive com o professor Jairo Ludmer na Faculdade de Belas Artes, onde me formei já vão décadas.

Jairo nos levava para o centro da cidade, à noite. As aulas eram in loco, seu ensino peripatético cravou na minha alma ainda mais o amor à história da cidade. Aprendi com ele como o tecido urbano ainda guarda elementos representativos de nossa história material e imaterial por meio de suas construções e, até mesmo, por meio da fala de seus espaços vazios que igualmente revelam tanto como os ocupados.

A Virada Cultural, com um público estimado em 3 milhões de pessoas, fazia dessa cidade, em horas antes mortas, o cenário a ser vivenciado e apreciado entre o deslocamento de um palco a outro, de um show a outro. O centro pulsava, revivia como na época dos grandes cinemas e espetáculos e de outros tempos em que tudo lá ocorria, antes que a nossa generosa geografia permitisse que São Paulo se espraiasse deixando para trás, como áreas necrosadas, espaços que não mais interessavam para a elite.

A atual gestão Haddad perdeu uma excelente oportunidade em juntar a Virada do Patrimônio a Virada Cultural. Mostrar e explicar melhor para a população que ali estava o que era tudo aquilo que viam, ou não. Perderam a chance de terem aberto o Terraço do Martinelli para se ver a cidade a meia-noite, terem o hall do velho Banco de São Paulo, melhor exemplo em arquitetura e decoração art-déco da cidade, ocupado com algum espetáculo. Isso para falarmos em apenas dois, das centenas de espaços possíveis e, quase, anônimos, que poucos viram e sabem do que estou falando.

Agora, o novo prefeito, que sonha com um parque no Jockey Club, em uma das áreas que mais tem opções de lazer de São Paulo, – ao contrário do Capão Redondo, onde as traves dos gols, quando existem, viram locais enlameados quando chovem -, anunciou que irá levar a Virada Cultural, de 3 milhões de pessoas, para Interlagos. Como fazer 3 milhões de pessoas caberem em um espaço que dificilmente cabem 100 mil não deve tirar o sono do atual alcaide eleito. Algum gráfico deve ter contentado o atual gestor, altamente capacitado para gerar uma das maiores metrópoles do mundo, após o seu merecido descanso em Miami, necessário após vencer a disputa eleitoral.

A cidade é vida, é pulsante, assim como a história, tecnocratas já tentaram domá-la, e falharam miseravelmente. Prestes Maia que o diga. Seu arrojadíssimo Plano Avenidas tornou-se defasado após alguns anos de implementado.  O alcaide eleito, ainda não empossado, além de domá-la quer higienizá-la, a começar pelo próprio centro a quem nega a vida levada pela Virada. Quer limpá-lo, quer trocar lâmpadas, limpar jardins, arrumar o que está quebrado e pintar tudo. Falta saber quando virá a cúpula de cristal Swarovski para cobrir e, assim, preservar, sem vida, o centro de São Paulo puro, lido e belo, como uma pintura de Romero Britto.

Paulo Rezzutti

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Os Segredos da Cripta, ou como uma arqueóloga obstinada, um escritor ansioso, um ex-segurança fortão e a Marquesa de Santos, ajudaram a resgatar o corpo da Imperatriz Amélia.

Creiam-me, o título quixotesco, inspirado nos do escritor e jornalista Laurentino Gomes, não descrevem nem um terço de todas as aventuras passadas dentro da Cripta Imperial!

Dizem que o desespero faz com que tomemos resoluções que racionalmente nem cogitaríamos. Desespero, aflição e, sobretudo, ansiedade foram os motores que me impulsionaram em 30 de junho de 2012 até o Cemitério da Consolação para levar flores ao túmulo da Marquesa de Santos.

Já havia terminado em maio a biografia da Domitila, que queria lançar em setembro durante as comemorações dos 190 anos da Independência. A minha editora, a Geração Editorial, pacientemente – mais do que eu, aliás – aguardava para poder lançá-la. O leitor deve estar perguntando: como assim? Aguardava o quê? E a resposta é: a Amélia.

Às vésperas do carnaval de 2012, eu estava encarregado de realizar uma permuta de publicações entre o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e o Museu da Cidade de São Paulo, cuja sede fica no Solar da Marquesa de Santos. Numa tarde, encontrei-me com a ex-diretora do Museu, Regina Pontes, que comentou comigo a respeito de uma arqueóloga que queria realizar um estudo a respeito dos restos mortais de d. Pedro I e das imperatrizes d. Leopoldina e d. Amélia, sepultados na cripta imperial, embaixo do Monumento da Independência, no Ipiranga.

Certa vez, o Maurício Ferreira, diretor do Museu Imperial, me contou um chiste que haviam dito a ele: “Museu é o seguinte: se cobrir, vira circo, se cercar, vira hospício”. Com base nisso, as minhas exclamações eram até justificadas: “Mais uma louca?”, “A família imperial autorizou?”. Calculando as toneladas de papel que seriam necessária para se obter as permissões para uma operação de tamanha magnitude, soube, pela Regina, para meu total espanto, que a “louca” em questão já estava autorizada por todas as instâncias e, para completar, havia montado uma equipe multidisciplinar de fazer inveja. A publicação do fechamento da Cripta para os trabalhos da arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel sairia no Diário Oficial do Município durante o carnaval.

Passado o impacto da notícia, me lembrei de alguns documentos sobre a morte de d. Leopoldina, como extratos de jornais da época de seu falecimento, que a querida amiga Mary Del Priore havia me enviado. Além disso, por uma dessas coincidências do destino, no mesmo dia em que soube da futura exumação, eu havia descoberto os documentos referentes ao traslado do corpo da imperatriz do Rio para São Paulo na década de 1950. Esse material, restrito à consulta, haveria de ser importante para a pesquisadora.

Contei isso tudo para a Regina e perguntei se ela poderia me colocar em contato com a arqueóloga para falarmos sobre o material. Na mesma hora, ela ligou para a Valdirene e fez a ponte. Assim tinha início a maior aventura da minha vida.

Primeiro, foi o convite para participar da exumação de D. Leopoldina, em 27 de fevereiro de 2012. Depois, a ajuda, inclusive envolvendo o Instituto Histórico e Geográfico e membros lusitanos da instituição, para a identificação das medalhas com as quais d. Pedro fora enterrado.

Para quem não tem a mínima ideia de como é a cripta, preciso destacar um detalhe: o projeto original só previa os sepulcros dos soberanos envolvidos no processo da independência, ou seja, d. Pedro e d. Leopoldina. A planta da cripta, em forma de cruz grega, tem, em cada um de seus braços um elemento. A entrada do espaço fica em um, diante da entrada fica o altar, do lado esquerdo o sarcófago de D. Pedro I e diante desse, no braço direito, o sarcófago de D. Leopoldina.

Se era “fácil”, tirando questões como peso e outros fatores, abrir as tumbas dos dois imperadores, ninguém tinha a mais pálida ideia de onde se encontrava o corpo de d. Amélia. A única pista era uma placa de granito gravada na parede que informava o nome dela e seus títulos, um deles errado. Onde haviam enfiado a mulher? Em qualquer ponto civilizado do planeta, haveria uma planta no órgão responsável pelo monumento indicando isso, menos em São Paulo…

Um serviço de georradar contratado realizou a varredura da parede onde estava a inscrição e verificou anomalias abaixo dessa pedra. A prefeitura impôs uma condição para que a placa pudesse ser quebrada: uma nova laje de granito verde (Ubatuba) deveria ser levada ao local para que técnicos do Departamento de Patrimônio Histórico a examinassem; se estivesse condizente com as especificações, podia-se descer o martelo, e a imperatriz emparedada finalmente veria a luz. Mas… sempre existe um mas… o custo total de R$ 3.000,00 para a compra e instalação dessa pedra foi a parte, digamos, mais fácil, apesar do susto do valor, que foi rateado em três cotas.

Aí começou a parte do circo e hospício. Chegaram as técnicas do DPH responsáveis pelo monumento para verificarem se a pedra comprada era semelhante à que seria destruída durante a busca por D. Amélia. Primeiro criticaram que não era totalmente igual (Olá? Dona… err… então, a natureza não cria duas pedras idênticas…), depois vieram com um discurso de que, quando o espaço museológico acima da cripta foi criado, “uma certa caixa ficou rodando por lá”, causando temor aos operários, que imaginavam que o receptáculo contivesse os restos mortais de alguém. Depois de mandarem os trabalhadores “rezarem um pai-nosso”, foi ordenado que a caixa fosse concretada no piso superior. Informação bastante válida, se a pedra de R$ 3.000 já não houvesse sido adquirida e devidamente esnobada por “não ser igual à outra”…

Valdirene resolveu literalmente pagar para ver: mandou quebrar o granito onde o georradar apontou as anomalias e encontrou: TERRA… Nada mais que terra… O georradar foi novamente utilizado, agora no local onde as técnicas do DPH informavam ter concretado alguma coisa que não tinham ideia do que seria. Apareceram duas anomalias. Uma delas realmente apontava para uma caixa de concreto medindo 70×70. Estaria ali d. Amélia?!?!

Mas havia algo errado nessa história toda. Em uma visita a Petrópolis, em junho, fiquei sabendo pelo Maurício Ferreira, história confirmada pela Neibe Machado, do arquivo histórico, que o antigo diretor da instituição, Lourenço Luiz Lacombe, esteve presente na exumação e no traslado da imperatriz d. Amélia na década de 1980 e relatou que o corpo dela se encontrava em perfeito estado de conservação, fato registrado em uma ata do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Como um corpo em perfeito estado havia sido acondicionado dentro de uma caixa de 70×70 cm? Esquartejaram a ex-imperatriz? Cremaram o corpo à revelia da família imperial? Dúvidas e mais dúvidas saltavam a cada informação desencontrada.

Nova consulta ao DPH, quebra, não quebra? As técnicas que haviam ido inicialmente à cripta, a essa altura, desapareceram. Uma teria ficado doente, segundo informações dadas, e a outra foi cuidar da uma. Quebra, não quebra? Consegue autorização ou não? Parecia que só as duas poderiam falar sobre o assunto, não se conseguia outro técnico, e minha ansiedade em modo 5… Nada de eu poder lançar a biografia da Domitila, que já dormitava havia quase três meses. Por conta de o trabalho da Valdirene estar correndo sob sigilo acadêmico, eu não podia falar a respeito da exumação de d. Leopoldina e das descobertas feitas antes que a arqueóloga defendesse o seu mestrado. Com isso, a biografia da Marquesa estava inexoravelmente amarrada a d. Amélia. Maldosamente, comecei a imaginar que a imperatriz continuava prejudicando a vida da Domitila 183 anos depois da expulsão da amante de d. Pedro da corte…

Meus nervos finalmente cederam, e eu resolvi apelar a todos os anjos e santos, e por que não à própria Marquesa de Santos? No seu túmulo, há placa agradecendo graças alcançadas, e, para o estabelecimento do mito da Marquesa, eu pesquisara e entrevistara pessoas que diziam ter conseguido milagres depois de apelarem à ex-amante do imperador. Mandando às favas qualquer escrúpulo, pensei que tinha uma barganha para fazer com a Marquesa. Se, por um lado, d. Amélia foi o fator principal de sua expulsão da corte e consequente exílio paulista, foi a mesma imperatriz quem criou a Duquesa de Goiás, filha de Domitila com d. Pedro, como se fosse sua própria filha e a fez se casar muito bem na alta nobreza alemã. Quem sabe a Marquesa de Todos os Santos e Demônios não se sentiria tocada com o arrazoado de seu biógrafo junto ao seu túmulo? Achei que deveria levar lírios brancos. Mas, obra do destino, parecia que lírios não haviam acordado para trabalhar no dia 30 de junho em São Paulo! Após a terceira parada, os achei, de cor laranja! Enfim, teriam de servir.

Cemitério da Consolação, lírios e orações feitas, volto para casa, recado na secretária eletrônica: era o Carlos Beutel, da Caminhada Noturna, me chamando para participar da caminhada do dia 12 de julho para falar sobre quem? Obviamente sobre a Marquesa de Santos. Convite aceito, nesse meio tempo, a Valdirene, ainda enfrentando mais uma semana de quebra-não-quebra, conseguiu o contato com Emanuel von Lauenstein Massarani, um dos responsáveis pelo traslado de d. Amélia de Portugal para o Brasil.

Conversando com o Massarani, Valdirene soube que o buraco aberto e a laje de granito quebrada podiam não ter sido em vão. Se a escavação avançasse mais para cima, haveria de se chegar aonde estaria o caixão. Acreditar no Massarani seria pôr em dúvida todas as informações prestadas pelo DPH até então, mas, na altura do campeonato, não havia por que não arriscar. Decidida, como sempre, Valdirene cavou e realmente encontrou algo que parecia ser uma laje de concreto, bem acima do buraco aberto na terra. Nesse meio tempo, o Carlos Beutel havia me ligado dizendo que o outro palestrante precisava trocar o dia, se eu me incomodava de transferir o passeio em que falaria sobre Domitila para o dia 19. Coincidência ou não, nesse dia, bem cedo, por volta das 7 da manhã, cheguei ao monumento do Ipiranga. Encontrei a Valdirene do lado de fora, e entramos junto com outros funcionários de uma empresa que a auxiliava. Começou a escavação e a remoção de mais terra. Realmente, era uma laje, e algumas paredes já se tornavam visíveis. Por volta das 11h, foi rompido um pedaço pequeno do concreto, de tamanho suficiente para uma microcâmera passar pelo buraco aberto.

A emoção tomou conta de todos os presentes ao vermos os primeiros detalhes do caixão de madeira no monitor da câmera digital que nos revelava o que havia por detrás do concreto. Nunca vou me esquecer da reação da Valdirene: “Nós achamos a Amélia”. Era ela a mestranda, foi ela que nunca desistiu de achar o caixão perdido. O caráter das pessoas se mede em momentos de grande emoção como esses, e ela, com aquela frase, deu prova de sua generosidade ao inserir todos os que estavam naquela cripta como agentes da sua descoberta.

O caixão, pelo que as imagens revelavam, estava intacto. Estávamos, dentro do buraco, embaixo do túmulo que havia sido feito para a ex-imperatriz.

O meu tempo já estava ficando curto, ainda tinha trabalho a fazer antes de me unir à Caminhada Noturna às 20h, em frente ao Teatro Municipal. Me despedi de todos e fui cuidar da vida, da melhor maneira que podia, afinal, não me saía da mente a “coincidência” de ter pedido “ajuda” para a Domitila para achar d. Amélia e, no dia em que ela foi achada, ter que palestrar sobre a Marquesa. E que palestra! Como foi duro me segurar durante mais de duas horas para não falar sobre o que eu havia vivenciado naquela manhã. E como e quanto falei! Por alguma razão, a caminhada descontrolou-se: ao invés de terminar às 22h, nesse horário estávamos ainda diante do Mosteiro de São Bento, em silêncio, ouvindo a música de seu maravilhoso carrilhão marcar a hora cheia. O passeio se estendeu por mais 45 minutos, e eu não me importando nem um pouco em falar sobre a Titília, ainda mais naquele dia tão especial e que entraria para a história.

Achado o sepulcro, o caixão precisava ser retirado do local para proceder à identificação do cadáver e aos demais exames da Valdirene e equipe. Achei que a empresa de restauro que estava assessorando a arqueóloga iria enviar um técnico para coordenar os trabalhos, o que não ocorreu, e, numa ligação em pleno domingo, fui intimado pela Valdirene, devido a minha formação em arquitetura, para comparecer à cripta às 7 horas da manhã de 23 de julho, segunda-feira.

Figura 1 Eu escorando o caixão, Célio próximo do caixão e Valter Muniz escorando a rampa por onde o caixão vinha deslizando.

Figura 1 Eu escorando o caixão, Célio próximo do caixão e Valter Muniz escorando a rampa por onde o caixão vinha deslizando.

            Figura 2 Momento em que colocamos o caixão da Imperatriz Amélia nos cavaletes armados diante do altar

Figura 2 Momento em que colocamos o caixão da Imperatriz Amélia nos cavaletes armados diante do altar

Os trabalhos se iniciaram realmente cedo. Um ajudante de obras, Célio Jr., se destacava. Bastante disposto e concentrado no trabalho que fazia e no que eu dizia, foi tirando lentamente as fileiras de blocos, rompendo a laje de concreto, sustentando o caixão com uma coluna de madeira, para que ele não despencasse na cabeça de ninguém. O trabalho foi lento, mas preciso. Não se devia quebrar nem de mais, nem de menos, tudo na medida certa, com calma, para não ocorrerem imprevistos e desabamentos. Somente após as 18h, já com boa parte do piso e das paredes da sepultura quebrados, demos início à retirada do caixão. Como aquilo pesava! Várias vezes, o hercúleo Célio foi obrigado a entrar novamente no buraco e erguer o ataúde nos ombros enquanto nós acertávamos a inclinação da tábua que o faria deslizar para fora. Houve momentos em que ficou evidente para todos que lá estavam que, se não fosse pela força de vontade desse funcionário e sua dedicação, d. Amélia sofreria muito mais para sair de dentro da parede. Finalmente, por volta das 20h, o caixão já estava do lado de fora, em cima de um cavalete, diante do altar e entre os túmulos de d. Pedro e d. Leopoldina. D. Amélia comemoraria seu aniversário de 200 anos, em 31 de julho, livre do emparedamento.

Óbvio que saímos de lá e fomos comemorar em uma padaria próxima ao monumento. Conversa vai, conversa vem, o Célio começou a falar espontaneamente da Domitila. Puxei-o pela língua, e a história toda fluiu. Ele contou que trabalhara em uma empresa de segurança (se alguém visse o tamanho dele, entenderia o porquê) que prestava serviço para a Prefeitura e estava lotado inicialmente no Solar da Marquesa de Santos. Começou a nos relatar sobre as coisas estranhas que lá ocorriam e do respeito que sentia pela ex-amante de d. Pedro, chegando até a dar bom dia para a grande dama quando o sol começava a raiar e seu turno chegava ao fim. Mas a cereja do bolo realmente foi a história que ele nos contou sobre uma estranha foto em que um vulto feminino – que alguém disse ser a Marquesa – apareceu do nada, refletido no vidro que protege um altar na exposição que acontece no Solar. Essa história não havia se espalhado, somente gente da administração e alguns funcionários do Solar sabiam dela, e eu a conhecia pois me repassaram a imagem. Pois bem, naquele exato momento, descobri que estava diante do autor da foto.

Devido à mudança de escala, ele foi enviado para fazer a segurança do monumento. Acabou se interessando e ajudando a Valdirene no início, até que soube que a empresa em que trabalhava não prestaria mais serviço à Prefeitura e conseguiu uma colocação na empresa de restauro que assessorava a arqueóloga.

Saí do convescote abismado. Não é que a Titília era boa mesmo? Não só a d. Amélia apareceu, mas ainda a Marquesa enviou ajuda para tirar a ex-imperatriz da parede!

Bem, a Valdirene, que eu achei que fosse louca no início desta história, devido a sua persistência e determinação inquebrantável, deu a São Paulo sua primeira múmia. A imperatriz d. Amélia foi tão bem embalsamada que está completamente intacta, inclusive com os órgãos internos preservados.

O que seria do mundo e da história sem os loucos? Fora que eles são muito mais divertidos e interessantes que os ditos “sãos”.

Agora, na cripta, só existe mais um segredo: o que será que concretaram no piso do espaço museológico? Alguns dos loucos acham que é uma marmita velha, outros, que se tratava da “pedra fundamental” do Monumento à Independência lançado no início dos anos 1920 e que bem poderia estar onde disseram que acharam a caixa… Seja lá o que for, acho que dessa vez nem com todos os lírios do mundo a Domitila vai ajudar a descobrir o que está lá.

Planta indicando a localização em que estava a Imperatriz Amélia

Planta indicando a localização em que estava a Imperatriz Amélia

Elevação 3d indicando a caixa de concreto onde se encontrava o ataúde de D. Amélia

Elevação 3d indicando a caixa de concreto onde se encontrava o ataúde de D. Amélia

Pixaram O Brecheret

Num país de alienados

Num país de alienados, de pseudos antenados, nada se cria, tudo se destrói. Patrimônio histórico é lixo.

Corpos que já foram símbolos da pátria, usados e abusados por diversas vertentes políticas jaziam esquecidos e, até, perdidos no monumento à Independência. Não era moda falar deles e quem mexeu com “aquilo” agora é mau visto, pois “só queriam aparecer”.

Mudam museus por moda, e o Primeiro Reinado foi pro lixo e vai virar um novo modismo, até que venha outro governante alienado e pseudamente antenado e mude tudo de novo. E agora pixaram o Brecheret… se a moda pegasse na Rússia Soviética não tinha sobrado um palácio em Moscou, Petersburgo ou Tsarskoye Selo intacto. Mas lá os marxistas eram mais civilizados, preservaram e reconstruiram castelos, palácios e monumentos após serem devastados por nazistas pois haviam sido feito pelo povo, eram arte. Aqui, pixasse porque os pseudos antenados são contrários a exploração dos índios, dos negros e da forma como a história foi contada.

Num discurso cada vez mais abrangentes onde os pseudos antenados utilizam-se de expressões como “Bom dia a TODOS E TODAS”, porque eu não me sinto incluído? Porque eu me sinto barbarizado cada vez que a minha cidade e suas obras de arte são atacadas por quem quer ser respeitado? Onde está a lógica disso?

Entendo que formulas como “O Brasil foi descoberto em 1500” não fazem mais sentido. Os índios já estavam aqui. A forma como a nossa história foi ensinada, através da ótica do Europeu, deve e tem que ser revista… Mas porque os nossos monumentos, nossas obras de arte, nossos espaços (poucos) de lazer tem que pagar o pato?

Festa de Aniversário de 200 para a Imperatriz Dona Amélia, de corpo presente.

Alguns jornais, revistas e programas de televisão já falaram bastante sobre a exumação e conservação dos remanescentes humanos dos primeiros Imperadores do Brasil na Cripta Imperial, trabalho coordenado pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel. Porém, como nenhum jornalista estave presente durante os trabalhos, somente algumas curiosidades foram reveladas até agora. Uma delas, sem dúvida a história mais inusitada, o São Paulo Passado dará com exclusividade.

Os apaixonados pela história paulista devem já ter ouvido falar sobre uma outra comemoração que se tornou lendária. Ela ocorreu quando o então Governador Adhemar de Barros deu um banquete para 50 pessoas dentro da barriga do cavalo do Monumento ao Duque de Caxias. Uma outra que deve entrar para a lenda urbana paulista foi a que ocorreu na tarde de 31 de julho de 2012 no Ipiranga.

Cláudia Witte, biógrafa de D. Amélia

Cláudia Witte, biógrafa de D. Amélia

Enquanto grupos monarquistas preparavam-se para jantares no Rio de Janeiro e em São Paulo em homenagem ao aniversário de 200 anos da Imperatriz Amélia de Leuchtenberg, na cripta do Ipiranga, uma comemoração muito mais despojada, animada e inusitada ocorria. Velinhas rosas (uma lembraça da Ordem da Rosa e da condição feminina da aniversariante) ornavam um belo e suculento bolo de chocolate vindo da Padaria Maria Louca. Afinal, não é avó que geralmente é a boleira da família? Também tinha brigadeiro, sanduíche de metro e outros acepipes, além de refrigerante, tudo para homenagear a Imperatriz Amélia, de corpo presente. Obviamente, ela foi respeitada, e o ataúde não foi aberto, até porque seria desconfortavel participar dos comes e bebes com máscaras e luvas cirúrgicas cobrindo rostos e mãos.

Além de alguns membros da equipe da Valdirene Ambiel, como eu, Paulo Rezzutti, e o hérculeo Célio Jr., que suou muito para “tirar a Amélia do buraco” (falaremos sobre esse assunto em outra matéria), estavam presentes também os funcionários da cripta, tanto os seguranças quanto o pessoal do educativo, e a “arquiteta” dessa festa toda, a pesquisadora Cláudia Witte, biógrafa da Imperatriz Amélia.

“A abertura de dona Amélia foi poucos dias antes de seu aniversário de 200 anos. Eu já havia comemorado o dia de seu aniversário em casa, com bolo e velas, em outros anos, mas dessa vez, além da data especial, havia a possibilidade de tê-la presente, era imperdível!”, afirma Cláudia Witte. A biógrafa ainda providenciou cópias coloridas de retratos de todos os familiares de Dona Amélia, incluindo dos locais na Europa onde a ex-imperatriz viveu. “Cantamos parabéns e prestamos uma homenagem nada oficial, mas de coração, para ela. Só não tive coragem de levar minha filha de 4 anos porque fiquei com medo de ela contar na escola que tinha cantado parabéns para uma múmia e mandarem me internar!”, confessa.

VAldirene Ambiel e Cláudia Witte durante a exumação de D. Amélia

VAldirene Ambiel e Cláudia Witte durante a exumação de D. Amélia

Uma outra emoção muito grande pela qual a biógrafa de Dona Amélia passou havia sido o convite surpresa da arqueóloga Valdirene para abrir a tampa do caixão da ex-imperatriz durante a exumação, feita 5 dias antes. “Foi uma surpresa, só fiquei sabendo alguns instantes antes, e foi um grande presente para mim. Enquanto estava vestindo a roupa de proteção, me lembro de ter pensado: ‘eu sei que esse momento vai ficar guardado para sempre na minha memória’! Foi um privilégio único, que poucos biógrafos até hoje devem ter vivenciado…”.

Mas as surpresas com D. Amélia não ficaram restritas apenas a abrir o caixão junto com a arqueóloga. Segundo Cláudia, não era novidade que a ex-imperatriz houvesse sido embalsamada em 1873, e que em 1982, quando ocorreu o traslado do corpo dela para o Brasil, sabia-se que ele estava muito bem preservado. Entretanto, “após 30 anos, com todos os problemas de umidade e principalmente por já ter tido contato com o ar atmosférico, não imaginávamos que ela continuasse tão intacta. Quando a vimos, foi uma emoção muito grande, e a Valdirene me disse: ‘Está vendo? Isso é arqueologia, é adrenalina pura!’. Nós pulamos e nos abraçamos, foi muito emocionante!”.

Festa de Aniversário dos 200 anos de nascimento de D. Amélia.

Festa de Aniversário dos 200 anos de nascimento de D. Amélia.

Outra curiosidade é que D. Amélia não queria ser embalsamada. Uma das grandes descobertas da Cripta teria ocorrido por mero acaso, segundo Cláudia: “D. Amélia havia deixado por escrito em seu testamento que queria uma cerimônia fúnebre muito simples, não queria ser embalsamada, nem autopsiada. Mas só abriram o testamento depois do funeral, e aí ela já havia sido embalsamada”. Uma das hipóteses para o caso, levantada pela biógrafa, é que, por ocasião da morte da princesa d. Maria Amélia, filha de D. Pedro I e D. Amélia, ocorrida na Ilha da Madeira, a ex-imperatriz havia determinado que o corpo da jovem fosse embalsamado, para poder ser velado durante várias semanas na ilha até ser embarcado para Portugal, onde permaneceu algum tempo fora do Panteão dos Braganças. Provavelmente, segundo Cláudia, os médicos que acompanhavam dona Amélia, entre eles o que havia cuidado de sua filha, decidiram fazer o que ela própria havia feito.

Cláudia espera que a apagada figura da segunda imperatriz do Brasil possa agora ser resgatada, e o fato do corpo preservado pode ser um gancho para isso. “Espero que essa grande descoberta desperte o interesse por nossa segunda imperatriz, que, embora não tenha tido o mesmo vínculo com o Brasil que seu esposo, ou que dona Leopoldina, também teve uma vida bastante interessante e deixou grandes obras”.

Ao fundo, da esquerda para a direita, Paulo Rezzutti e Célio, Do outro lado do ataúde, Valdirene Ambiel e Cláudia Witte

Ao fundo, da esquerda para a direita, Paulo Rezzutti e Célio, Do outro lado do ataúde, Valdirene Ambiel e Cláudia Witte

Por mais inusitada que seja uma festa dessas, hoje, por conta dela, todos os funcionários da Cripta, dos Seguranças ao pessoal do Serviço Educativo, sabem muito mais sobre a segunda Imperatriz do Brasil do que pode ser visto nos painéis de uma desaparatada instalação informativa sobre a Independência Brasileira, o local e seus ocupantes.

Segundo a arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, a quem também ouvimos para esta matéria, essa também é a proposta do seu trabalho: “A pesquisa arqueológica realizada nos remanescentes humanos depositados na Capela Imperial do Monumento à Independência é importante por mostrar uma outra abordagem para a história do Brasil e principalmente para preservação da memória e identidade nacional. Só se preserva o que se conhece e, acima de tudo, se identifica”.

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Por falar em sexta-feira 13 – A maldição dos Bragança

Tentei me recordar de alguma história paulista para essa fria sexta-feira 13 mas não me vem nada na cabeça. Mas me lembrei de uma história envolvendo um ancestral de d. Pedro I, que por se comportar mal com um religioso recebeu deste uma maldição que assombraria a família até hoje. A história é a seguinte:

Segundo a lenda, um irmão leigo franciscano teria pedido esmolas a d. João IV, rei de Portugal, quando ainda não passava de 8º duque de Bragança. O nobre, que estava de péssimo humor naquele dia, impaciente, mandou o mendincante embora, não sem antes dar-lhe um ponta-pé na canela. O chute feriu o franscicano e esse, deixando de lado o temor ao nobre lhe teria rogado a seguinte praga: – que a sua descendência nunca passaria pelo primogênito e os que lhe sucedessem, permitisse Deus, que tivessem o mesmo sinal na perna que ele tão injustamente lhe tinha produzido.

D. João IV, o primeiro rei da dinastia de Bragança, e seus sucessores viram a praga funcionar, dificilmente um primogênitos dos Bragança sentou-se no trono de Portugal. Não adiantou esmolas, promessas, e nem os reis portugueses sentarem-se juntos com os monges franciscanos para comer da mesma comida que eles no dia do santo português. Diz a lenda que d. Pedro I do Brasil teria até mesmo chegado a mumificar o primeiro filho que teve com a francesa Noemi Thierry, seria uma forma de lembrar aos céus que o primogênito, não importando se bastardo, já havia sido retirado dele, mas isso não bastou, os dois primeiros filhos que o imperador brasileiro teve com d. Leopoldina, d. Miguel e d. João Carlos, morreram bebês.

Com os dois ramos da Casa de Bragança bifurcados, um ocupando o trono português e o outro o brasileiro, a maldição passou a atuar dos dois lados do Atlântico. Os filhos que d. Pedro II teve morreram criança também. Raras excessões ocorreram na maldição, mas dificilmente o primogênito que chegou a ocupar o trono teve vida breve. Alguns autores afirmam que a praga do franciscano teve fim com a queda da monarquia em Portugal e no Brasil, outros, discordam e citam o falecimento do jovem príncipe d. Pedro Luís, filho primogênito de d. Antonio e sobrinho de d. Luís e de d. Bertand, quarto na linha de sucessão ao trono brasileiro. Ele estava entre as centenas de vítimas do Voo Air France 447, que caiu no Atlântico em 31 de maio de 2009.

O retorno da velha senhora, ou a volta da Marquesa de Santos

Foi inaugurado no último dia 19, após três anos de restauro, o Solar da Marquesa de Santos, no centro de São Paulo, bem ao lado do Pátio do Colégio. Também foram reabertos os recém-restaurados Beco do Pinto e Casa Número 1, atual Museu da Imagem da Cidade de São Paulo.

Casa nº 1, Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos

Da esquerda para a direita: Casa nº 1, que abriga o Museu da Imagem, o pórtico do Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos. Fotomontagem do Arquiteto Victor Hugo Mori

O solar é considerado o último exemplar residencial urbano do século XVIII da cidade. Infelizmente somente as paredes de taipa de pilão e de mão, parte da fachada e a disposição de algumas salas do andar superior mantêm resquícios de como era o local na época em que a marquesa de Santos lá morou. As sucessivas reformas por que o Retrato da Marquesa de Santos que veio do Rio de Janeiro para a mostraimóvel passou descaracterizaram profundamente sua disposição interior. Após a morte do filho mais velho de Domitila, Felício, que herdou o imóvel, o solar foi leiloado e adquirido pela Cúria Metropolitana. A residência do bispo de São Paulo lá funcionou de 1880 até 1909 e existem relatos de que a capela, que ficava no andar superior, foi utilizada para casamentos e batizados. Depois de 1909 o local foi sede da The San Paulo Gas Company Ltda. Após a encampação dessa companhia, que passou a chamar-se Comgás, o solar passou para a Secretaria de Cultura do Município de São Paulo.

Hoje, a parte de baixo, que originariamente servia para os trabalhos domésticos, estocaPrato pertencente a Marquesa de Santosgem de gêneros alimentícios etc., abriga uma exposição que nos leva ao tempo de uma São Paulo mais calma, onde o cantar do carro de boi era uma constante. Os painéis nos conduzem a um passeio através da evolução histórica do entorno, física e psicologicamente.  Uma bela e bem conservada cadeirinha de arruar mostra como as damas, do calibre da mais ilustre moradora da casa, eram transportadas por seus escravos pelas ruas da velha São Paulo.

Em um canto, próximo da cadeirinha, encontram-se alguns achados arqueológicos. Se pertenciam todos a Domitila, ou à família, é difícil saber. O beco, ao lado do imóvel, pode ser considerado como o mais antigo caminho paulista. Durante décadas foi usado por escravos que iam jogar o lixo de seus senhores no rio Tamanduateí. As diversas disputas tendo por motivo a divisa entre o beco e os lotes confrontantes nos mostram o hábito de escravos preguiçosos que descarregavam seus monturos no quintal do brigadeiro Joaquim José Pinto de Morais Leme, antigo proprietário do solar e que acabou dando seu nome ao beco.

A parte da exposição que mais tem atiçado a curiosidade está no andar superior do imóvel. Antes de subir, vale a pena a leitura de um grande painel onde a vida de Domitila é contada cronologicamente.

Ao vencermos o lance que nos leva ao segundo pavimento, um pequeno aposento do lado esquerdo abriga uma exposição sobre as cartas trocadas entre a marquesa de Santos e seu amante, d. Pedro I. Além de algumas fotos de cartas originais, existem outras transcritas em letras brancas sobre acrílico transparente. E aí temos um problema para quem, como eu, sofre com dificuldades de visão (corrigido, meus olhos e de vários outros agradecem. Agora só falta correções ortográfivas em alguns painéis, como o caso de um dos filhos da Domitila ter morrido “bebe”, cirrose talvez?) . O fundo das vitrines é amarelo e, dependendo da luz incidente, torna-se um suplício ler o que está escrito. O mesmo ocorre com diversas outras placas explicativas ao longo da exposição.

Fotos da Marquesa de Santos idosaA mostra “Marquesa de Santos: uma mulher, um tempo, um lugar”, apesar de se focar principalmente na vida de Domitila após seu retorno a São Paulo em 1829, não poderia deixar de lado, mesmo que com uma referência pequena, como ocorreu, o caso dela com o imperador. Afinal, se Domitila era filha de família ilustre, os processo envolvendo seu pai por falta de pagamento de aluguéis, antes de ela se envolver com d. Pedro I, mostra claramente que se ascendJogo de cadeiras e mesa para chá pertencentes a marquesaentes ilustres existiam em seus costados, dinheiro não.

O caso com d. Pedro abriu-lhe não somente livre acesso a um nível social de que não dispunha em São Paulo como ao enriquecimento obtido ao pé do trono. Domitila, que partira para a corte sem posses, retornaria para São Paulo com uma fortuna em joias, títulos e 52 escravos. Nesse período, o preço médio de um escravo era de 170 mil réis; a soma geral deles daria algo em torno de 9 contos. Para se ter uma ideia do que isso representava em valor da época, em 1834 a marquesa pagou pelo solar 11 contos de réis. Uma enorme casa muito bem localizada, próxima do centro de poder paulista. Tobias de Aguiar, seu novo amante e futuro marido, despachava no Palácio do Governo no Pátio do Colégio, quase em frente ao solar.

A próxima sala nos mostra a delicadeza das formas de Domitila. Não é outro o pensamento que surge ao observarmos o conjunto de mesa e cadeiras para chá.

Diversos retratos, inclusive um que não se parece nada com ela, vieram de várias instituições governamentais. Aliás, esse é um traço forte da exposição: nenhuma peça veio de colecionadores particulares. Nessa sala podemos observar o célebre retrato de Domitila jovem que pertence ao Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Após conversa com o editor Pedro Correa do Lago, da Capivara, parece que em 5 de dezembro teremos outro “suspeito” de ter pintado esse retrato, mas isso é outro artigo para este blog. Essa sala, não só a mim, mas a diversas pessoas com quem conversei, causou bastante impacto. São três telas a óleo retratando Domitila, além de duas fotos, móveis, textos de biógrafos e notícias de jornais ligando-a a temas, como a maçonaria e a Guerra do Paraguai. Se nem as cartas de amor fizeram você se emocionar, duvido que passe incólume por essa overdose de rostos que, envelhecendo, o contemplam com uma pergunta: “O que está fazendo na minha casa?”.

A velha senhora voltou!

A marquesa de Santos foi expulsa novamente de sua casa no Rio de Janeiro no começo de 2011. O Museu do Primeiro Reinado foi desativado, e seu acervo, enviado para um museu em Niterói. Domitila retornou à Pauliceia, onde foi reentronada no seu velho solar da antiga Rua do Carmo em apoteose. Mal se andava no local no dia da inauguração. Todos queriam ver as cartas, o retrato da amante, sua cama, o faqueiro e ouvir histórias a respeito dela. Domitila retornou e veio para ficar.

2011 abriu e fechou tendo Domitila de volta ao noticiário nacional. Em março foi o lançamento do meu livro “Titília e o Demonão”, trazendo as cartas perdidas escritas por d. Pedro à sua amante; em novembro, a reabertura do solar e a exposição. Em 2012 haverá mais. Em março: o lançamento da obra “A Carne e o Sangue”, na qual a historiadora Mary Del Priore biografa o triângulo amoroso Leopoldina x Pedro x Domitila, e em setembro: “Domitila, a verdadeira história da marquesa de Santos”. Aguardem!

Museu da Cidade de São Paulo
Rua Roberto Simonsen, 136, Sé, centro, São Paulo, SP.
Tel.: (11)3105-6118. Ter. a dom.: 9h as 17h. Entrada grátis

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A Burrocracia e a Pesquisa Histórica

Recentemente o escritor Laurentino Gomes, em um artigo do seu blog, comentou sobre as cartas que descobri em Nova York, publicadas no livro “Titília e o Demonão“, e lançou a pergunta: “A quem interessa esconder o passado?”.

Envolvido nas pesquisas para a conclusão da biografia “Domitila de Castro, a verdadeira história da Marquesa de Santos”, me deparei com a mesma questão levantada pelo autor de “1808” e “1822”. Em um livro chamado “História do Império: O Primeiro Reinado”, de Tobias Monteiro, o autor lança uma nota de rodapé um tanto quanto hermética:

Em país estrangeiro há, em mãos de uma sociedade de estudos históricos, preciosa coleção de cartas de D. Pedro I a Domitila, que o A. durante cerca de vinte anos debalde procurou fazer copiar, sem vencer a obstinação do respectivo presidente, insensível aos mais valiosos pedidos de compatriotas seus. Talvez um dia o exame desses documentos algo esclareça acreca deste assunto, a menos que eles não sejam de certa espécie, inconvenientes à publicidade.”

Decifrando: Alberto Rangel, o primeiro historiador dos amantes, soube que na Hispanic Society haviam cartas de Pedro para Domitila, mas Mr. Huttington, criador e presidente da instituição até sua morte, na década de sessenta do século passado, obstinadamente, sem razão alguma, impediu o pesquisador de ter acesso às cartas que eu reencontrei. Tal como Moisés diante da Terra Prometida, Rangel foi impedido, pela censura de um estrangeiro, de ver completa a obra que lhe consumiu mais de meio século, uma publicação contendo todas as cartas conhecidas trocadas entre o casal.

No Brasil não precisamos de censura para que a roda da pesquisa trave. Temos nossa herança lusitana: a Burrocracia. Até estudantes do ensino fundamental sabem como algumas bibliotecas e Centros Culturais em nosso país funcionam, com raras e gloriosas exceções. Se o microfilme está funcionando, não existe papel para tirar cópia do artigo de que você precisa; se tem papel, é a máquina que está quebrada e não tem previsão de conserto “porque o administrativo ainda não teve tempo de mandar uma solicitação para que seja feita uma licitação”… Com a copiadora idem!

Determinados museus, como o Museu Imperial, em Petrópolis, com o seu excelente atendimento a distância, pertencem a um mundo a parte. Tudo funciona, prazos são cumpridos, e o pessoal atende sempre com simpatia e prestatividade. Me iludi terrivelmente. Ao ser mimado por eles, imaginei que outros arquivos federais funcionassem do mesmo modo… “Ledo e ivo engano”, parafraseando Cony. Em alguns você simplesmente perde a viagem, como recentemente ocorreu, pois me atrevi a aparecer, no dia de atendimento ao público de um arquivo, sem marcar hora – no site da instituição não dizia que isso era necessário. Os funcionários que deveriam estar realizando atendimento encontravam-se todos em um imenso salão cheio… de moscas. Uma atendente lia catálogo da Natura, a outra lixava a unha, e um terceiro não desgrudava do seu celular pelo qual enviava sms. Quanto a mim, tive que voltar com hora marcada…

Em outras instituições, já passei por um trabalho gigantesco de identificação. Como não pertenço à USP ou a alguma universidade, e pela minha idade, que vergonha, nem professor sou, me identifico como mero e simples “pesquisador independente”. Os atendentes ficam ao redor como se a qualquer momento você fosse enfiar um documento raro no bolso. Pena que o extremo cuidado é só com os consulentes. Já foi mais do que provado pelas notícias de jornais que os saques ocorridos em instituições brasileiras, cujos produtos, não raro, vão parar em leilões no Brasil e no exterior, são praticados de dentro para fora. Estagiários, ou até mesmo presidentes dessas instituições, numa prática muito comum no país, confundem o público com o privado, e o pobre do historiador de final de semana é que paga o pato…

A censura de documentos no Brasil prevalece? Se prevalecer, provavelmente, haverá algum burocrata de plantão que fará com que a censura tenha que preencher tantas vias necessárias para que seja impedido determinado documento de ser exposto que, quando o trabalho finalmente terminar, o documento já terá sido corroído pelas traças…

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