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Archive for the ‘Exposições’ Category

Perfume de Marquesa

Instalação de metal envolve uma banheira no Solar da MarquesaHoje, 3 de novembro de 2013, fez exatamente 146 anos do falecimento da Marquesa de Santos. Num domingo, assim como o que passou, a favorita do Imperador D. Pedro I, exalou seu último suspiro às quatro horas da tarde em seu casarão na Rua do Carmo, no centro de São Paulo.

No dia anterior, 2 de novembro, dia dos mortos foi inaugurada a exposição “Perfume de Princesa“, que integra o Beco do Pinto e os prédios do entorno, incluindo o Solar onde Domitila faleceu. A exposição, uma intervenção artística de tubos de metal, perfumes e odores corporais, foi inspirada no imaginário em torno da figura da Marquesa de Santos e no suposto hábito dela demonstrar, por meio de fragrâncias, o seu estado de espírito. Como artista é artista e historiador é historiador, não me peçam mais referências de onde essa informação surgiu. O historiador aqui não tem pálida ideia da fonte de apoio a tal afirmação utilizada pelo artista Walter Malta Tavares, responsável pela obra.

Quem ainda não lidou com a Domitila pode achar que foi proposital a inauguração da exposição no dia dos mortos e na véspera dos 146 anos da morte dela. Mas, de acordo com informações obtidas, diversos entraves, até mesmo burocráticos, teriam colaborado para a escolha da data.

Coincidência? Quem ainda não tratou de perto com a Marquesa que caia nessa! Alguém que, como eu, já coletou diversos “fenômenos” ocorridos no Solar, tais como: poças de perfume que apareceram e desapareceram sem deixar vestígio, funcionários que afirmam ter conversado com Domitila, pessoas que acharam muito interessante o “ator” fantasiado de Rafael Tobias de Aguiar, sendo que nunca houve ninguém vestido como o brigadeiro na atual exposição, ou ainda, coupe de grâceter visto mais de uma foto com o suposto fantasma da Marquesa que ronda o andar superior do solar, não tem como acreditar em “coincidências”.

Domitila está mais viva do que nunca em seu solar na Rua Roberto Simonsen e deve estar se divertindo com tanto entra e sai e tanta novidade surgindo a cada ano em torno de si. Que venham mais 146, que venham 300, 500 anos e que lendas, mentiras cabeludas, histórias tristes e alegres sobre ela continuem. Dia 27 de dezembro, aniversário dela, já está logo aí. Qual a próxima “coincidência”?

Fotografia e vivências do espaço urbano paulistano no início do século XX

A Casa da Imagem de São Paulo inicia a programação de 2012 debatendo, a partir da fotografia, o relacionamento de seus habitantes com o espaço urbano,
intensamente modificado neste período.

Sábado, 10 de março às 11h
Fraya Frehse
Regras das ruas diante e atrás da câmera na São Paulo do início do século XX

Confrontando fotografias de rua de Guilherme Gaensly, de Aurélio Becherini, de Vincenzo
Pastore e do anônimo autor das imagens da Greve Geral de 1917 publicadas na revista A Cigarra, cabe apresentar as evidências ali contidas acerca de regras de comportamento corporal e de interação social que vigoraram entre os pedestres das ruas do centro histórico paulistano nas primeiras duas décadas do século XX. Será possível discutir assim achados do recém-lançado livro Ô da Rua! O Transeunte e o Advento da Modernidade em São Paulo (Edusp, 2011).
Sábado, 17 de março às 11h
Rubens Fernandes Junior
O cotidiano urbano nas fotografias de Gaensly

Através das fotografias de Guilherme Gaensly em exposição na Casa da Imagem, evidenciar alguns índices que potencializam o cotidiano da cidade. Perceber o que ganha
destaque na imagem e através dela entender a importância de algumas atividades e de alguns movimentos na emergência da metrópole. Apesar do relatos dos viajantes,
das suas gravuras, desenhos e pinturas, é a fotografia que ocupa o lugar mais significativo como documento iconográfico no período.

45 vagas, serão distribuídas senhas a partir das 10h15

Casa da Imagem
Rua Roberto Simonsen, 136-B
Pátio do Colégio
Sugerimos usar taxi ou metrô (Metrô Sé/São Bento)
Informações: 6051 3807 – contato.casai@prefeitura.sp.gov.br

Realização
Prefeitura de São Paulo
Secretaria Municipal de Cultura
Departamento do Patrimônio Histórico
Museu da Cidade de São Paulo / Casa da Imagem de São Paulo

Fraya Frehse é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), onde fez a graduação em Ciências Sociais, além do mestrado e do doutorado em Antropologia Social, com um “doutorado-sanduíche” na Universidade de Oxford. Em 2010 concluiu um pós-doutoramento em sociologia urbana nas universidades Livre e Humboldt, de Berlim, sob os auspícios da Alexander von Humboldt Foundation. Pesquisadora associada do Núcleo de Antropologia Urbana da USP e pesquisadora colaboradora da Rede Brasil-Portugal de Estudos Urbanos, coordena também o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociologia do Espaço na USP. É autora de O Tempo das Ruas na São Paulo de Fins do Império (2005) e de Ô da Rua! O Transeunte e o Advento da Modernidade em São Paulo (2011), ambos pela Edusp, além de co-organizadora (com Samuel Titan Jr.) de Roger Bastide. Impressões do Brasil (Imprensa Oficial, 2011), contando com contribuições em revistas especializadas e coletâneas no Brasil e no exterior.
Rubens Fernandes Junior é pesquisador, curador e crítico de fotografia, com importantes trabalhos na área. É, ainda, diretor da Faculdade de Comunicação e Marketing da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). É autor de Labirinto e identidade – Panorama da fotografia no Brasil [1946-1998] (2003), organizador de Otto Stupakoff (2006) e Geraldo de Barros (2006), e colaborador nos livros Da Antropofagia à Brasília – Brasil 1920-1950, B. J. Duarte, Aurélio Becherini e Guilherme Gaensly, todos pela editora CosacNaify, os três últimos co-patrocinados pela Secretaria Municipal de Cultura. É membro do conselho curador da Coleção Pirelli-MASP de Fotografia e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

O retorno da velha senhora, ou a volta da Marquesa de Santos

Foi inaugurado no último dia 19, após três anos de restauro, o Solar da Marquesa de Santos, no centro de São Paulo, bem ao lado do Pátio do Colégio. Também foram reabertos os recém-restaurados Beco do Pinto e Casa Número 1, atual Museu da Imagem da Cidade de São Paulo.

Casa nº 1, Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos

Da esquerda para a direita: Casa nº 1, que abriga o Museu da Imagem, o pórtico do Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos. Fotomontagem do Arquiteto Victor Hugo Mori

O solar é considerado o último exemplar residencial urbano do século XVIII da cidade. Infelizmente somente as paredes de taipa de pilão e de mão, parte da fachada e a disposição de algumas salas do andar superior mantêm resquícios de como era o local na época em que a marquesa de Santos lá morou. As sucessivas reformas por que o Retrato da Marquesa de Santos que veio do Rio de Janeiro para a mostraimóvel passou descaracterizaram profundamente sua disposição interior. Após a morte do filho mais velho de Domitila, Felício, que herdou o imóvel, o solar foi leiloado e adquirido pela Cúria Metropolitana. A residência do bispo de São Paulo lá funcionou de 1880 até 1909 e existem relatos de que a capela, que ficava no andar superior, foi utilizada para casamentos e batizados. Depois de 1909 o local foi sede da The San Paulo Gas Company Ltda. Após a encampação dessa companhia, que passou a chamar-se Comgás, o solar passou para a Secretaria de Cultura do Município de São Paulo.

Hoje, a parte de baixo, que originariamente servia para os trabalhos domésticos, estocaPrato pertencente a Marquesa de Santosgem de gêneros alimentícios etc., abriga uma exposição que nos leva ao tempo de uma São Paulo mais calma, onde o cantar do carro de boi era uma constante. Os painéis nos conduzem a um passeio através da evolução histórica do entorno, física e psicologicamente.  Uma bela e bem conservada cadeirinha de arruar mostra como as damas, do calibre da mais ilustre moradora da casa, eram transportadas por seus escravos pelas ruas da velha São Paulo.

Em um canto, próximo da cadeirinha, encontram-se alguns achados arqueológicos. Se pertenciam todos a Domitila, ou à família, é difícil saber. O beco, ao lado do imóvel, pode ser considerado como o mais antigo caminho paulista. Durante décadas foi usado por escravos que iam jogar o lixo de seus senhores no rio Tamanduateí. As diversas disputas tendo por motivo a divisa entre o beco e os lotes confrontantes nos mostram o hábito de escravos preguiçosos que descarregavam seus monturos no quintal do brigadeiro Joaquim José Pinto de Morais Leme, antigo proprietário do solar e que acabou dando seu nome ao beco.

A parte da exposição que mais tem atiçado a curiosidade está no andar superior do imóvel. Antes de subir, vale a pena a leitura de um grande painel onde a vida de Domitila é contada cronologicamente.

Ao vencermos o lance que nos leva ao segundo pavimento, um pequeno aposento do lado esquerdo abriga uma exposição sobre as cartas trocadas entre a marquesa de Santos e seu amante, d. Pedro I. Além de algumas fotos de cartas originais, existem outras transcritas em letras brancas sobre acrílico transparente. E aí temos um problema para quem, como eu, sofre com dificuldades de visão (corrigido, meus olhos e de vários outros agradecem. Agora só falta correções ortográfivas em alguns painéis, como o caso de um dos filhos da Domitila ter morrido “bebe”, cirrose talvez?) . O fundo das vitrines é amarelo e, dependendo da luz incidente, torna-se um suplício ler o que está escrito. O mesmo ocorre com diversas outras placas explicativas ao longo da exposição.

Fotos da Marquesa de Santos idosaA mostra “Marquesa de Santos: uma mulher, um tempo, um lugar”, apesar de se focar principalmente na vida de Domitila após seu retorno a São Paulo em 1829, não poderia deixar de lado, mesmo que com uma referência pequena, como ocorreu, o caso dela com o imperador. Afinal, se Domitila era filha de família ilustre, os processo envolvendo seu pai por falta de pagamento de aluguéis, antes de ela se envolver com d. Pedro I, mostra claramente que se ascendJogo de cadeiras e mesa para chá pertencentes a marquesaentes ilustres existiam em seus costados, dinheiro não.

O caso com d. Pedro abriu-lhe não somente livre acesso a um nível social de que não dispunha em São Paulo como ao enriquecimento obtido ao pé do trono. Domitila, que partira para a corte sem posses, retornaria para São Paulo com uma fortuna em joias, títulos e 52 escravos. Nesse período, o preço médio de um escravo era de 170 mil réis; a soma geral deles daria algo em torno de 9 contos. Para se ter uma ideia do que isso representava em valor da época, em 1834 a marquesa pagou pelo solar 11 contos de réis. Uma enorme casa muito bem localizada, próxima do centro de poder paulista. Tobias de Aguiar, seu novo amante e futuro marido, despachava no Palácio do Governo no Pátio do Colégio, quase em frente ao solar.

A próxima sala nos mostra a delicadeza das formas de Domitila. Não é outro o pensamento que surge ao observarmos o conjunto de mesa e cadeiras para chá.

Diversos retratos, inclusive um que não se parece nada com ela, vieram de várias instituições governamentais. Aliás, esse é um traço forte da exposição: nenhuma peça veio de colecionadores particulares. Nessa sala podemos observar o célebre retrato de Domitila jovem que pertence ao Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Após conversa com o editor Pedro Correa do Lago, da Capivara, parece que em 5 de dezembro teremos outro “suspeito” de ter pintado esse retrato, mas isso é outro artigo para este blog. Essa sala, não só a mim, mas a diversas pessoas com quem conversei, causou bastante impacto. São três telas a óleo retratando Domitila, além de duas fotos, móveis, textos de biógrafos e notícias de jornais ligando-a a temas, como a maçonaria e a Guerra do Paraguai. Se nem as cartas de amor fizeram você se emocionar, duvido que passe incólume por essa overdose de rostos que, envelhecendo, o contemplam com uma pergunta: “O que está fazendo na minha casa?”.

A velha senhora voltou!

A marquesa de Santos foi expulsa novamente de sua casa no Rio de Janeiro no começo de 2011. O Museu do Primeiro Reinado foi desativado, e seu acervo, enviado para um museu em Niterói. Domitila retornou à Pauliceia, onde foi reentronada no seu velho solar da antiga Rua do Carmo em apoteose. Mal se andava no local no dia da inauguração. Todos queriam ver as cartas, o retrato da amante, sua cama, o faqueiro e ouvir histórias a respeito dela. Domitila retornou e veio para ficar.

2011 abriu e fechou tendo Domitila de volta ao noticiário nacional. Em março foi o lançamento do meu livro “Titília e o Demonão”, trazendo as cartas perdidas escritas por d. Pedro à sua amante; em novembro, a reabertura do solar e a exposição. Em 2012 haverá mais. Em março: o lançamento da obra “A Carne e o Sangue”, na qual a historiadora Mary Del Priore biografa o triângulo amoroso Leopoldina x Pedro x Domitila, e em setembro: “Domitila, a verdadeira história da marquesa de Santos”. Aguardem!

Museu da Cidade de São Paulo
Rua Roberto Simonsen, 136, Sé, centro, São Paulo, SP.
Tel.: (11)3105-6118. Ter. a dom.: 9h as 17h. Entrada grátis

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São Paulo olha o Egito através de Napoleão

Vue du sphinx et de la grande pyramide, prise du sud-est. Cobre - Schroeder - 43,2 x 60 cm - Água forte e bruril

Milhares de exposições e eventos acontecendo nesta enorme cidade, fica difícil escolher um para ir, mas neste sábado chuvoso acertei em cheio. Hoje, 6 de novembro, foi a abertura da exposição “O Egito sob o olhar de Napoleão“, no Itaú Cultural. Ela abrirá para o público amanhã, domingo, dia 7, e irá até 19 de dezembro. A entrada é franca e, para quem curte livros, história antiga e tecnologia, é imperdível.

Quando Napoleão invadiu o Egito para fechar o principal caminho dos ingleses para a Índia, junto com o exército seguiu uma legião de naturalistas, historiadores, artistas, pesquisadores, entre ele o nosso conhecido Saint-Hilaire, que esteve em São Paulo e deixou algumas passagens interessantes em seus livros, como a da pousada de um tal português Bexiga, que ficava mais ou menos na altura da Praça da Bandeira, no centro da cidade.

Pois, bem, os trabalhos produzidos por mais de 150 pesquisadores membros dessa expedição científica ao Egito foram reunidos em uma obra composta por 21 volumes: “Description de L’Egypte”, de 1809. O Itaú Cultural possui a obra, chamada de “elephantine” não sem razão, e a exposição gira em torno das gravuras de ciências naturais, arquitetônicas, arqueológicas, cartográficas e históricas selecionadas de 13 desses livros. As peças tanto podem ser observadas abertas e expostas, protegidas por vitrines, como interativamente, através de expositores digitais que dão a sensação de folhear as páginas dos livros e permitem obter visuais ampliados de alguns detalhes. Do Louvre vieram 14 matrizes de cobre com as quais as gravuras foram impressas há mais de duzentos anos; de coleções particulares e do Museu Nacional da Universidade do Rio de Janeiro vieram algumas peças egípcias bastante interessantes. Vale realmente a pena conferir.

Se você, como eu, odeia pegar trânsito e aceitar a minha dica de ver a exposição, vá de metrô e aproveite para dar uma passada na plataforma da estação Paraíso, sentido Jabaquara, onde, num pequeno e simpático túnel feito de madeira, vários painéis fotográficos contam a história do bairro. Mostram, por exemplo, a antiga fábrica da Brahma, ao lado da Igreja Ortodoxa, e a velha Igreja Santa Generosa, ambas já demolidas, além de uma delirante perspectiva do Jules Martin mostrando a inauguração da Paulista em 1891. Ele só poderia ter tomado aquela vista de um balão, a uns vinte metros de altura! Ou usado muita criatividade e regras básicas de perspectiva.

O Egito sob o Olhar de Napoleão – Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776, metrô Brigadeiro. 3ª a 6ª, 9h/ 20h; sáb., dom. e fer., 11h/20h. Grátis. Até 19/12.

Inauguração da Avenida Paulista, 8 de dezembro de 1891. Aquarela sobre papel - Jules Martin. Museu Paulista/USP

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