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Posts Tagged ‘São Paulo’

São Paulo higienizado, ou como 3 milhões cabem em um espaço para 100 mil.

Sempre amei São Paulo e passei a amar mais ainda depois das aulas de urbanismo que tive com o professor Jairo Ludmer na Faculdade de Belas Artes, onde me formei já vão décadas.

Jairo nos levava para o centro da cidade, à noite. As aulas eram in loco, seu ensino peripatético cravou na minha alma ainda mais o amor à história da cidade. Aprendi com ele como o tecido urbano ainda guarda elementos representativos de nossa história material e imaterial por meio de suas construções e, até mesmo, por meio da fala de seus espaços vazios que igualmente revelam tanto como os ocupados.

A Virada Cultural, com um público estimado em 3 milhões de pessoas, fazia dessa cidade, em horas antes mortas, o cenário a ser vivenciado e apreciado entre o deslocamento de um palco a outro, de um show a outro. O centro pulsava, revivia como na época dos grandes cinemas e espetáculos e de outros tempos em que tudo lá ocorria, antes que a nossa generosa geografia permitisse que São Paulo se espraiasse deixando para trás, como áreas necrosadas, espaços que não mais interessavam para a elite.

A atual gestão Haddad perdeu uma excelente oportunidade em juntar a Virada do Patrimônio a Virada Cultural. Mostrar e explicar melhor para a população que ali estava o que era tudo aquilo que viam, ou não. Perderam a chance de terem aberto o Terraço do Martinelli para se ver a cidade a meia-noite, terem o hall do velho Banco de São Paulo, melhor exemplo em arquitetura e decoração art-déco da cidade, ocupado com algum espetáculo. Isso para falarmos em apenas dois, das centenas de espaços possíveis e, quase, anônimos, que poucos viram e sabem do que estou falando.

Agora, o novo prefeito, que sonha com um parque no Jockey Club, em uma das áreas que mais tem opções de lazer de São Paulo, – ao contrário do Capão Redondo, onde as traves dos gols, quando existem, viram locais enlameados quando chovem -, anunciou que irá levar a Virada Cultural, de 3 milhões de pessoas, para Interlagos. Como fazer 3 milhões de pessoas caberem em um espaço que dificilmente cabem 100 mil não deve tirar o sono do atual alcaide eleito. Algum gráfico deve ter contentado o atual gestor, altamente capacitado para gerar uma das maiores metrópoles do mundo, após o seu merecido descanso em Miami, necessário após vencer a disputa eleitoral.

A cidade é vida, é pulsante, assim como a história, tecnocratas já tentaram domá-la, e falharam miseravelmente. Prestes Maia que o diga. Seu arrojadíssimo Plano Avenidas tornou-se defasado após alguns anos de implementado.  O alcaide eleito, ainda não empossado, além de domá-la quer higienizá-la, a começar pelo próprio centro a quem nega a vida levada pela Virada. Quer limpá-lo, quer trocar lâmpadas, limpar jardins, arrumar o que está quebrado e pintar tudo. Falta saber quando virá a cúpula de cristal Swarovski para cobrir e, assim, preservar, sem vida, o centro de São Paulo puro, lido e belo, como uma pintura de Romero Britto.

Paulo Rezzutti

Eventos culturais do Turismo na História para o mês de abril de 2015

  • No sábado, dia 25/04, no período da manhã, das 9 as 12hs temos: São Paulo literáriaA literatura, os boêmios e os vagabundos que marcaram a cidade com sua arte. Venha aprender conosco o que Monteiro Lobato, Alvares de Azevedo, Rudyard Kipling (criador do Mogli), Mário de Andrade e Guilherme de Almeida têm em comum com São Paulo! Nesse passeio cultural iremos mostrar onde viveram, trabalharam e nasceram os principais escritores paulistas e internacionais que passaram pela cidade. O passeio inclui uma visita guiada na Biblioteca Mário de Andrade, a 2ª maior do Brasil. Valor R$ 40,00 por pessoa. Para mais informações acesse: http://www.turismonahistoria.com.br/rot_SP_Literaria.htm
  • No mesmo dia 25, no período da tarde, das 14 as 17hs temos: Ouro Verde: o Café e a Cidade de São Paulo. O impacto de uma cultura na vida, na sociedade e nas artes de uma cidade. De onde veio o café? Como ele chegou ao Brasil e enriqueceu toda uma cidade e um país. Como eram as antigas cafeterias paulistas, quem as frequentava? Como esse fruto se misturou com a arquitetura paulista, qual a importância dele na criação de uma das principais e mais complexas ferrovias do mundo é o que iremos descobrir nesse passeio cultural. O passeio inclui um café no Café Girondino, uma dramatização feita com um ator e a visita a Vila dos Ingleses no bairro da Luz, com direito a visita a uma das casas do local que abrigou os engenheiros britânicos da antiga São Paulo Railway, atual sede do Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo. Valor R$ 45,00 Para mais informações acesse: http://www.turismonahistoria.com.br/rot_Cafeterias.htm
  • No domingo, dia 27/04 pela manhã, das 10 as 13hs temos: Da série bairros: Ipiranga. Da ermida da Luz no séc. XVI as independências política e industrial. Um dos bairros com mais histórias, não apenas da cidade de São Paulo mas do Brasil. Nasceu com uma capela, depois transferida de local, e foi povoada pelos “homens bons” vindos de Portugal. Da passagem do príncipe d. Pedro na região onde foi proclamada a nossa independência até a saga da empreendedora família Jafet que ainda marca sua presença no bairro com seus imponentes casarões. O passeio inclui a visita ao Memorial Madre Paulina, onde conheceremos a história e o local onde está enterrado a primeira “santa brasileira”. Valor R$ 35,00 Para mais informações acesse: http://www.turismonahistoria.com.br/rot_Ipiranga.htm

Para mais informações a respeito do Turismo na História, acesse: www.turismonahistoria.com.br

Turismo na História

Prezados, após tanto tempo sem escrever aqui, venho contar uma novidade. Eu, Paulo Rezzutti, e a Kátia Nicolav, a Cacau, montamos uma empresa, a Turismo na História.

Estamos iniciando o primeiro semestre com uma programação super diferenciada e dinâmica.

Confiram em www.turismonahistoria.com.br

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Carnaval em São Paulo no início do século XX

Acabo de receber o cartão de final de ano do Paulo Kuczynski – Escritório de Arte. A foto é de um óleo mostrando o Carnaval na cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Ajudei eles a identificarem o local, que é a praça Antonio Prado, tendo ao fundo o escritório do Correio Paulistano, ao lado do Café Paulista. Muito linda a tela.

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Os 215 anos da Marquesa de Santos

Há exatos 215 anos, nascia Domitila de Castro do Canto e Melo, a famosa Marquesa de Santos. Era a sétima filha do tenente-coronel João de Castro do Canto e Melo, militar de distinta família açoriana, e de Escolástica Bonifácia de Oliveira Toledo Ribas, cuja descendência ligava Domitila aos primeiros povoadores paulistas e a um irmão de Pedro Álvares Cabral.

Quadro de Domitila no Museu Paulista/USP

Quadro de Domitila no Museu Paulista/USP

Apesar do seu famoso caso com o imperador d. Pedro I, sua mudança para o Rio de Janeiro e suas visitas ao interior, onde possuía diversas fazendas, a maior parte de sua existência transcorreu praticamente dentro do que conhecemos hoje como o Centro Velho, ou Antigo, da cidade de São Paulo.

Na época do nascimento de Domitila, São Paulo modorrava pacificamente no alto da Serra do Mar. A antiga vila que abrigara a “raça de gigantes”, os bandeirantes, havia se transformado em uma cidade caipira que sobrevivia em grande parte à custa dos impostos dos gêneros que transitavam pelo seu entroncamento em sentido a Rio, Santos, Minas e sul do Brasil. O dinheiro e a prosperidade que viria com o “ouro verde”, o café, estavam ainda distantes.

A cidade na época, aliás, o que era considerado a parte urbana de São Paulo, confinado entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, tinha pouco mais de cinco mil habitantes.

São Paulo, nessa ocasião, além de trilhas, travessas e becos, contava com poucas ruas mal calçadas por pedras brutas, como Direita, São Bento, Carmo, Quitanda, Cadeia, das Casinhas, Boa Vista, São Gonçalo, Pelourinho, Rosário e da Freira. O calçamento bruto acabou adestrando a mulher paulista a um andar faceiro, registrado pelos viajantes. Na verdade, o passo leve e seguro era para evitar que torcessem os delicados tornozelos nas pedras…

Foi nesse cenário que Domitila viveu até se casar, em 13 de janeiro de 1812, duas semanas após completar 15 anos, com o alferes mineiro Felício Pinto Coelho de Mendonça. Felício era membro de uma família de ricos proprietários de lavras de ouro em Vila Rica, para onde se mudou com a esposa. Domitila viveu em Minas até que o marido violento, dado a jogos e bebedeiras, começasse a espancá-la. Então retornou para a casa paterna.

Após uma malfadada tentativa de reconciliação, Felício esfaqueou Domitila na bica de Santa Luzia, próximo do local onde hoje se ergue a capela de Santa Luzia e do Menino Jesus de Praga, na Rua Tabatinguera.

Fotografia de Domitila já idosa feita por Militão Augusto de Azevedo

Fotografia de Domitila já idosa feita por Militão Augusto de Azevedo

Dois meses Domitila passou entre a vida e a morte, sem poder sair da cama, enquanto o marido, preso, era enviado à sede de seu regimento em Santos. Dava-se aí o início da briga pela guarda dos filhos que só seria resolvida com a separação do casal em maio de 1824, já com ela como amante de d. Pedro I e morando no Rio de Janeiro.

Durante sete anos, de 1822 a 1829, viveria o maior e mais longo escândalo sexual do Brasil. Amante de d. Pedro I, este a fará Dama Camarista da Imperatriz, cargo que a colocava acima das demais damas do paço e na escala dos semanários, ou seja, ao menos uma vez por mês moraria junto com os imperadores.

D. Pedro, jovem e no auge do poder, pouco fez para esconder o caso, o que lhe dificultaria muito na Europa a busca de uma nova esposa após a morte de d. Leopoldina, em dezembro de 1826. Jornais na Europa chegariam até a culpar d. Pedro e Domitila da morte da imperatriz. O nome da Marquesa de Santos foi constante nos relatórios dos diplomatas estrangeiros no Rio de Janeiro. Sua proximidade com o imperador atraía para si desde comerciantes estrangeiros querendo a liberação de uma carga no porto até o enviado de Sua Majestade Britânica, Sir Charles Stuart, encarregado das negociações do reconhecimento da independência do Brasil com Portugal.

Após quase um ano de negociações, finalmente surgiu uma noiva, a princesa Amélia de Leuchtenberg, neta do rei da Baviera e da ex-imperatriz dos franceses, Josefina, esposa de Napoleão. Ela aceitou a proposta de d. Pedro, e assim Domitila foi substituída na cama e no coração do monarca por uma garota de 17 anos, que podia ser filha da Marquesa.

Com a perspectiva do novo casamento, d. Pedro cassou sua titulação de Dama Camarista e expulsou-a, juntamente com sua família, do Rio de Janeiro. Inicialmente pretendeu exilá-la na Europa, mas por fim permitiu que se mudasse novamente para São Paulo.

Eis novamente Domitila de volta à sua cidade natal. Como tudo deve ter parecido pequeno, feio, acanhado. No Rio de Janeiro, recebia ministros estrangeiros e suas esposas, vestia-se nas melhores modistas francesas da Rua do Ouvidor, via de perto a iluminação pública do Rio de Janeiro, que aqui só apareceria anos depois de seu retorno. Também no Rio tomara gosto pelas comédias francesas que se habituara assistir no Imperial Teatro São Pedro de Alcântara, onde atualmente se ergue o Teatro João Caetano, no centro. Aqui em São Paulo o teatro onde vira a aclamação de d. Pedro em 7 de setembro de 1822 lhe pareceria agora terrivelmente pobre.

Túmulo da Marquesa de Santos no Cemitério da Consolação, São Paulo

Túmulo da Marquesa de Santos no Cemitério da Consolação, São Paulo

Mas era São Paulo que ela tinha e daqui não a podiam expulsar; parte da diversão mais rica, ela própria resolveu prover. Não existia ninguém na cidade que se atrevia a concorrer com ela nos festejos do 7 de setembro e do 11 de agosto, dia da criação dos cursos jurídicos no Brasil. Seria uma segunda mãe dos estudantes de Direito da Academia instalada no antigo convento franciscano, cuidaria dos doentes e os receberia em seus saraus, como bem provam as cartas do jovem Álvares de Azevedo para sua mãe no Rio.

De 1830 até o final de sua vida, em 1867, casaria novamente – dessa vez com o brigadeiro Tobias de Aguiar, duas vezes presidente da Província de São Paulo –, teria diversos filhos, gerenciaria seus escravos, que alugava para a realização de melhoramentos da cidade, cuidaria de suas fazendas, de seus parentes e de seu marido, chegando até a ser presa junto com ele por conta da Revolução Liberal.

Uma face de Domitila pouco estudada é a sua benemerência. Ao longo da vida, tanto no Rio de Janeiro, como, principalmente, em São Paulo, dedicou-se a diversas causas, desde ajudar financeiramente o governo durante a Guerra da Cisplatina até emprestar uma de suas fazendas para servir de abrigo aos soldados que partiam para a Guerra do Paraguai, presenteados por ela com dinheiro antes de irem para a frente. Ela também chegou a abrir enfermarias para os pobres, ajudou financeiramente a Santa Casa de Misericórdia a conseguir sua primeira sede própria e doou dinheiro para a construção da primeira capela do cemitério da Consolação, próximo da qual ainda hoje se encontra enterrada.

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São Paulo em 1822, ou o que o Demonão viu além das curvas de Titília

Dom Pedro e sua comitiva entraram por São Paulo pelo melhor caminho que existia na época para apreciar devidamente a cidade. Depois de passar a colina da Penha, uma outra, mais ao longe, ostentava as torres de oito igrejas, dois conventos e três mosteiros. Passando pela Várzea do Carmo, um verdadeiro pântano onde hoje encontra-se o Parque D. Pedro II, Pedro I subiu a atual Rangel Pestana em direção ao então núcleo urbano da cidade, desenvolvido ao redor do Colégio dos Jesuitas e confinado entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí. O que Dom Pedro viu? Além das curvas de sua Titília?

Uma das primeiras coisas que D. Pedro deve ter notado foi a taipa paulista. Diferente dos nossos atuais arranha-céus, a morada paulista da época era feita de barro, socado com o pilão ou espalmado em treliças de madeira. As casas eram pintadas com uma espécie de cal, tirado da região da ladeira da Tabatinguera, o “Barro Branco” que dava o nome indígena ao local. Raras eram as casas de pedra ou tijolos. As construções eram, geralmente, de dois andares, dotadas de balcões onde os paulista “tomavam a fresca”, de manhã e de noite, onde assistiam às passagens das procissões, que não eram poucas. Aliás, o povo paulista era bastante devoto: a cidade inteira parava para rezar o terço à hora da Ave-Maria. Em 1822 existiam três oratórios públicos, um deles nos famosos “Quatro Cantos”, a antiga encruzilhada formada pela Rua Direita e a Rua de São Bento. Alguém que conhece a Pauliceia consegue imaginar parte da população ajoelhada lá, às 18h, em pleno horário atual de “rush”? Pois na época isso ocorria: a multidão tomava toda a calçada e parte da largura da rua, onde rezavam por 25 minutos. Atropelamentos não existiam, afinal, só havia um coche na cidade inteira em 1822, o do Bispo de São Paulo. Os outros meios de transporte eram as cadeirinhas, onde escravos faziam o papel de motor, e os milenares carros de boi com seu gemer característico.

O povo paulista abastecia-se de água em fontes, geralmente próximas das igrejas, que, pela época da vinda de D. Pedro I, deviam estar, como aconteceria por mais cinquenta anos até a implantação da Companhia Cantareira, secas.

Quando os paulistas não estavam rezando ou procurando água, poderiam ser encontrados matando tempo jogando em família a bisca, a douradinha e o “vive l´amour”; exercitando suas primeiras tacadas no bilhar do Antonio José Pereira dos Santos, na rua do Comércio; trocando dedos de prosa na Botica do Lúcio ou na do Mota, tio do futuro poeta Alvares de Azevedo, que tão bem deixou ilustrado em “Macário” o hábito paulista de comer couves cozidas. Falando em comida, não podia faltar na mesa do paulista a excelente mostarda que vinha da fazenda dos padres beneditinos em São Bernardo. Também o doce de figo, um dos maiores quitutes da cozinha paulista, estava sempre presente.

Jornal só existiria no próximo ano, em 1823. Escrito a mão, servia cinco assinantes. Era confeccionado pelo “Mestrinho”, apelido do genial Antonio Mariano de Azevedo Marques, que, com onze anos, lecionava latim na Sé.

Além das prosas, o paulista também tinha diversões noturnas, como bailes, sendo os mais concorridos o do Palácio do Governo, então localizado no Pátio do Colégio após a desapropriação dos bens dos jesuítas. A vinte passos da sede do governo ficava o teatro em que D. Pedro, com a sociedade paulista, comemorou na noite de 7 de setembro de 1822  o “Grito” que deu no Ipiranga, sendo aclamado pelo padre Idelfonso Xavier o “Primeiro Rei do Brasil”. Na época, a sociedade teatral começava a se organizar. Os escravos e prostitutas colocados no palco anteriormente, já davam lugar a artistas mais experientes. Sim, eu falei em prostitutas; se é a mais antiga das profissões, não podia deixar de falar sobre as que a praticavam na São Paulo de Piratininga.

As prostitutas paulistas do começo dos 1800 seriam virgens nos dias de hoje! Elas só apareciam à noite atrás de tropeiros. Cobertas por amplos capotes de lã, deixavam somente parte do rosto à mostra. Vindas, geralmente, de muito longe, davam um toque oriental à noite paulista mal iluminada. O viajante francês Saint-Hilaire afirmava que elas passeavam lentamente pelos caminhos ermos da cidade, jamais abordando ninguém. Não conversavam nem entre elas, e Saint-Hilaire atestava que nada tinham do cinismo e descaramento das suas colegas de profissão francesas.

A peça que foi apresentada à D. Pedro na noite de 7 de setembro de 1822 no teatro, e que ele não ficou até o fim para assitir, chamava-se “O Cavaleiro de Pedra”, uma história a respeito do célebre amante Don Juan. A peça foi imortalizada por Mozart na ópera “Dom Giovani”, na qual Leporello, empregado de Giovanni, conta que seu mestre tinha, só na Espanha, “Mille e Tre” amantes. D. Pedro, que ficaria famoso pelas suas, sendo a mais famosa a nossa Titília, tinha bem mais o que fazer naquela noite além de ouvir sobre o caso amoroso dos outros. Segundo alguns relatos, tinha pressa em ver Domitila, com quem já tinha “ficado” em 29 de agosto, dias depois de ter entrado na cidade.

Do Palácio, no Pátio do Colégio, ele governou São Paulo por 15 dias, apaziguou os ânimos políticos dos bernardistas x andradistas, convocou novas eleições. Mas o que levou mesmo daqui foi a lembrança de um grande amor que duraria sete longos e escandalosos anos. Como não assistiu a peça até o final, não aprendeu o mais importante segredo de Don Juan: nunca se apaixonar por suas amantes.

Equívocos sobre a Marquesa de Santos na Revista de História

A Revista de História da Biblioteca Nacional, trouxe na edição de janeiro de 2011 dentro do tema (eu ia colocar retranca mas me disseram que é técnico demais…) “Dossiê Amantes” uma matéria chamada “Traição aprendida no berço real”, onde são narradas as diversas aventuras amorosas de d. Pedro I, em especial com Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, com quem se relacionou por quase oito anos. Fiz uma lista dos equívocos que encontrei e mandei para lá. Foram todos bastante simpáticos e disseram que iriam selecionar algumas das falhas apontadas e publicar na sessão de cartas, enquanto isso não ocorre, publico aqui na íntegra os equívocos cometidos na matéria:

– D. Pedro I não se fixava com nenhuma amante “até ir a São Paulo, em setembro de 1822, quando proclamou a independência”. Na realidade d. Pedro partiu do Rio de Janeiro em 14 de agosto, entrando na cidade de São Paulo em 25 do mesmo mês.

– “Ela (Domitila) levara uma facada do marido certa manhã em que voltava, às escondidas, para casa”. Domitila foi esfaqueada pelo marido não uma, mas duas vezes, uma na coxa e outra na virilha, próximo da fonte de Santa Luzia, que se localizava nas imediações de onde hoje se encontra a pequena capela de Santa Luzia e do Menino Jesus de Praga, na rua Tabatinguera, 104, no centro de São Paulo. O marido tentou acusá-la de adúltera, e ela foi defendida pelo capitão-general de São Paulo, espécie de governador da época, João Carlos de Augusto de Oyenhausen, em carta para d. João VI. Oyenhausen afirmava que Felício, então marido de Domitila, era um homem violento e desumano, que deixava a esposa e os filhos passarem necessidades.

– “Logo após tornar-se imperador, D. Pedro deixa de lado a discrição, transformando Titília, como a chamava, numa ‘teúda e manteúda’ que é apresentada à Corte e instalada em uma casa, atual Museu do Primeiro Reinado, ao lado do Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro”. D. Pedro foi coroado Imperador do Brasil em dezembro de 1822. Domitila chegou ao Rio de Janeiro no primeiro trimestre de 1823, indo morar em Mata-Porcos, onde hoje se localiza o bairro do Estácio. D. Pedro perderia a discrição por volta de 1826, com a viagem a Bahia levando Domitila e o reconhecimento da paternidade da primeira filha que teve com ela. Nesse ano, Domitila muda-se para a propriedade que ficou conhecida como Palacete do Caminho Novo do Imperador, atual Museu do Primeiro Reinado, distante 900 metros da residência do imperador em São Cristóvão.

– Sobre o incidente do Teatrinho Constitucional Fluminense, ele ocorreu em 1824, diferente do que sugere a sucessão de datas onde o acontecimento está inserido, reforçado pelo fato de chamar Domitila de “Marquesa”, título só recebido em 12 de outubro de 1826. Um incidente mais grave e de maior repercussão, não informado no artigo, foi o modo como Domitila foi destratada pela Baronesa de Goytacazes ao tentar assistir missa na tribuna reservada às damas do paço na Capela Imperial, em 1825. Esse incidente fez com que fosse nomeada, por d. Leopoldina, como Dama Camarista da Imperatriz, cargo que lhe conferia, além do direito de usufruir da tal tribuna, precedência sobre as demais damas de honra.

– Isabel, a “Bela” ou “Belinha”, como carinhosamente chamava d. Pedro I a primeira filha dele com Domitila, só passou a se chamar Isabel Maria após 1826, quando o pai a reconheceu oficialmente.

– “Tudo cheirando – como disse um biógrafo – a lençóis molhados e em desalinho”. Alberto Rangel, o principal biógrafo do casal de amantes, na realidade refere-se ao pseudônimo “Fogo-Foguinho”, usado por d. Pedro, como “cheirando a lençóis usados, num leito em bem pouca ordem”. (RANGEL, Alberto. Cartas de Pedro I à Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, Nova Fronteira, 1984. p. 45)

– “Na presença daquela que é a causa de todas as minhas desgraças” é um trecho da provável última carta de d. Leopoldina, que teria sido ditada para a marquesa de Aguiar. A carta foi endereçada a sua irmã, Maria Luísa, ex-imperatriz dos franceses, e não para o pai, o imperador Francisco I da Áustria, como consta no artigo.

– “O secretário da imperatriz escreveu, em fevereiro de 1826, ao chanceler austríaco (…) para reprovar a ‘fatal publicidade da ligação’ (entre d. Pedro e Domitila)”. O autor da carta, ou melhor, do relatório, foi Philippe Leopold Wenzel, barão de Mareschal (1784-1851), diplomata austríaco encarregado de negócios da Áustria, no Brasil, de 1819 a 1826 e ministro plenipotenciário em 1827, a quem d. Leopoldina dificilmente confiaria o cargo de secretário particular. Em carta de 6 de abril de 1823, a imperatriz pediu ao barão von Stürmer: “(…) seria bom chamar de volta o barão Mareschal, que desfruta aqui de péssima reputação devido a suas opiniões intrigantes e levianas.” in KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. Cartas de uma imperatriz. São Paulo: Estação Liberdade, 2006. p. 419

– “Reunia em São Cristóvão (…) filhos legítimos e ilegítimos, seus sete irmãos, sobrinhos e cunhadas“. Como explicado anteriormente, no início do relacionamento entre Domitila e d. Pedro, esta morava em uma chácara em Mata-Porcos, junto com seus filhos e seus pais. Sua irmã Ana Cândida, seu cunhado Carlos Maria Oliva e sua avó materna moravam no Engenho Velho; a outra irmã, a baronesa de Sorocaba, vivia com a família em uma casa no começo da ladeira da Glória; seu irmão mais novo, Francisco de Castro, ajudante de ordens de Pedro I durante sua viagem a São Paulo em 1822, morava nesta cidade, onde assumira um posto militar; seus irmãos mais velhos serviram ao Exército durante a Guerra da Cisplatina e chegaram a se estabelecer em Porto Alegre.

– “Grávida do imperador pela quarta vez – a filha Maria Isabel de Alcântara Brasileira nasceu no dia 13 de agosto”. Na realidade essa foi a terceira filha do casal de amantes, que morreria de meningite um ano depois. A quarta filha deles recebeu o mesmo nome da criança falecida. Maria Isabel, futura Condessa de Iguaçu, nasceu em São Paulo em 28 de fevereiro de 1830, após o banimento de Domitila da corte para que d. Pedro pudesse se casar

“Ainda como viscondessa, o imperador chegou ao cúmulo de elevar Domitila a dama camarista de sua esposa, D. Leopoldina”. Na realidade foi o contrário, primeiro Domitila foi nomeada Dama Camarista em 4 de abril de 1825. Ela recebeu o título de viscondessa de Santos em 12 de outubro do mesmo ano.

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