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A praça sumiu!

1862 a 1863Rua da Glória em 1862/63 em foto de Militão Augusto de Azevedo

Por Edison Loureiro

A imagem acima, da Rua da Glória descendo do Largo Sete de Setembro em nada lembra o aspecto atual deste lugar, com todas aquelas decorações em estilo oriental. Na época da foto acima a rua já tinha recebido sua primeira pavimentação de macadame, que foi feita em 1855. Antes disso, conta-nos um cronista que era de terra vermelha e “cheio de boqueirões”.

Ainda na época desta foto era o caminho obrigatório para quem quisesse ir ao litoral, pois a estrada de ferro só começou a funcionar em 1866. Descia-se a Rua da Glória, que faz uma curva à esquerda e seguia-se mais ou menos pelo trajeto que hoje é formado pelas ruas Lavapés e Independência atingindo a região do Monumento do Ipiranga. Daí pelo caminho onde hoje é a Rua Bom Bom Pastor até a região conhecida por Moinhos. Eventualmente alguns amigos acompanhavam o viajante até a Árvore das Lágrimas, na atual Estrada das Lágrimas. A Rua da Glória era conhecida como Estrada ou Caminho do Mar. Havia um caminho mais antigo ainda que saía da Rua Tabatinguera, à altura da Rua do Carmo, mas pela Rua da Glória acabou ficando mais curto e do antigo caminho não sobrou nenhum vestígio.

O viajante ia passando pelas chácaras que havia por ali. Logo ao passar a Rua Conde do Pinhal que era chamada de Beco Sujo, à esquerda, detrás da fileira de casinhas baixas havia a chácara de D. Anna Machado, que se estendia até a beira do Tamanduateí que ainda serpenteava onde hoje é a Rua Glicério. Logo após, onde hoje está a Rua dos Estudantes, do lado direito estava o Cemitério Público ou Cemitério dos Aflitos e depois cemitério da Glória, o primeiro cemitério de São Paulo. Ali eram enterrados os condenados, os indigentes, os soldados e também os escravos. Pessoal de melhor posição na sociedade era enterrado nas igrejas ou terrenos adjacentes e quanto maior fosse a doação para a igreja, mais perto do altar de sua devoção. Mas não era um cemitério com lápides ou inscrições, eram simples covas com cruzes de madeira, sem datas ou lembranças do defunto. Foi criado em 1779 e ocupava toda a quadra que existia entre a Rua dos Estudantes até a Rua Américo de Campos, durou até 1858 quando o terreno foi loteado.  No meio da quadra da Rua dos Estudantes um caminho levava a uma capela dentro do cemitério. Hoje este caminho é o beco que recebeu o nome de Rua dos Aflitos e a antiga capela é a pequenina Igreja dos Aflitos que existe até hoje.

Ainda do lado direito, logo além do cemitério avistava-se um morro. No alto a figura sinistra da forca permaneceu de 1775 até 1850, quando então foi desativada. Obviamente era chamado de Morro da Forca. Hoje está ali a Capela da Santa Cruz das Almas dos Enforcados. Ou simplesmente Igreja das Almas, como ficou mais conhecida. Começou como uma cruz ao pé do morro e, em 1891, construiu-se uma simples capelinha que, apesar dos incêndios que sofreu, foi sendo ampliada até 1917 quando tomou o formato que hoje conhecemos. O morro foi aplainado e deu origem à Praça da Liberdade. A terra retirada foi usada para o aterro do Glicério empurrando o rio Tamanduateí mais para frente.

morro da forcaO Morro da Forca visto da Av. Liberdade em desenho de Pedro Alexandrino

Do lado esquerdo da Rua da Glória, no ponto onde está o viaduto Mie Ken, por cima da Via Leste-Oeste, abria-se uma pequena trilha que levava a outra elevação. Esta ficava nos terrenos da Chácara de Francisco Machado fronteiriça à Chácara de D. Anna Machado.

No alto desta colina estava o casarão sede da chácara, local que tem uma história muito interessante. Passou a ser conhecida como Chácara dos Ingleses quando nela morou o coronel John Rademaker, ocasião em que a atual Rua São Paulo, continuação da Américo de Campos, recebeu o nome de Rua dos Ingleses.

Após a morte de Rademaker, em 1820 o casarão foi vendido para o coronel João de Castro Canto e Melo que aí vivia com sua família, inclusive sua filha Domitila que seria em futuro próximo a Marquesa de Santos, célebre amante de D. Pedro I e depois esposa de Rafael Tobias de Aguiar e figura ilustre e benemérita na cidade de São Paulo nas últimas quadras de sua vida. Certamente durante sua visita a São Paulo em 1822, quando proclamou a Independência, D. Pedro deve tê-la visitado naquele casarão onde, segundo Affonso A. de Freitas, “cupido travesso fez diabruras”.

Em julho de 1825 o casarão passou a ser ocupado por uma instituição que já naqueles tempos era mais que centenária, a Santa Casa de Misericórdia, que ali instalou seu hospital e o Asilo dos Expostos para abrigar as crianças enjeitadas pelos pais e abandonadas na Roda dos Enjeitados que primeiramente foi instalada lá. Até 1840 ficou o casarão com esta nobre ocupação, quando a Santa Casa resolveu construir um edifício mais apropriado na esquina da atual Rua da Glória com a Rua dos Estudantes, na banda do lado do Tamanduateí. Naqueles tempos a Rua da Glória ficou conhecida como Rua da Santa Casa, somente em 1851 recebeu o nome atual.

De circunspecto hospital de caridade o casarão vem conhecer dias mais turbulentos. Transforma-se numa república de estudantes, abrigando a nata da juventude intelectual e romântica da cidade naquele meio do século XIX, liderados por Bernardo Guimarães, autor de A Escrava Isaura e Álvares de Azevedo da Lira dos Vinte Anos. A antiga casa colonial passa então a ser palco de celebrações, pândegas e mesmo orgias. Vários textos daqueles jovens autores foram concebidos ali mesmo.

Alguns estudantes haviam formado em 1845 (segundo Spencer Vampré) uma associação de caráter secreto a que deram o nome de Sociedade Epicureia com o objetivo um tanto extravagante de “realizar os sonhos de Byron”. Lorde George Gordon Byron (1788-1824) foi um poeta excêntrico que cultivava a beleza do horror, do repulsivo, do monstruoso e do satânico.

Consta que certa vez passaram quinze dias fechados na casa, com todas as janelas vedadas, à luz de candeeiros, fazendo todo tipo de loucuras na companhia de algumas prostitutas.  Contam que havia gatos pretos e morcegos soltos pelo casarão e esqueletos roubados do cemitério vizinho. Só saíram quando a bebida e o tabaco tinham terminado.  Talvez estas “celebrações” tenham inspirado ao jovem Álvares de Azevedo a obra uma Noite na Taverna.

Na peça intitulada Macário, Álvares de Azevedo colocou Satã morando no casarão da Chácara dos Ingleses quando descreve a chegada do jovem Macário a São Paulo subindo a Rua da Glória:

Macário: Oh! Ali vejo luzes ao longe. Uma montanha oculta no horizonte. Disséreis um pântano escuro cheio de fogos errantes. Porque paras o teu animal?

Satã: Tenho uma casa aqui na entrada da cidade. Entrando à direita, defronte do cemitério. Sturn, meu pajem, lá está preparando a ceia. Levanta-te sobre meus ombros: não vês naquele palácio uma luz correr uma por uma as janelas? Sentiram a minha chegada.”

Com a saída dos estudantes e depois de servir a alguns colégios, o antigo casarão ainda teve um último morador famoso: o Conselheiro Furtado de Mendonça, lente da Academia e delegado de polícia crônico de São Paulo. Conta Affonso de Freitas que o Conselheiro Furtado por tanto tempo exerceu a função que seu nome já era sinônimo de delegado.

Não deixa de ser uma ironia, pois Furtado de Mendonça foi nomeado delegado exatamente por ser lente da Faculdade e ter bom relacionamento com os estudantes e, assim por freio em suas “estudantadas” que tanto atormentavam a cidade.

Pedro Alexandrino

O casarão da Chácara dos Ingleses em aquarela de Pedro Alexandrino

O Conselheiro Furtado morreu em 1890 e logo em seguida também o casarão. Na segunda metade da década foi construído ali um mercado que logo foi transformado em depósito de carne verde, conhecido como o Tendal do Largo São Paulo, que foi o nome dado ao largo que se formou.

A carne dos animais abatidos no Matadouro da Vila Mariana, onde hoje fica a Cinemateca, era transportada à estação de bondes São Joaquim, onde hoje está a Estação do Metrô, pelos bondes a vapor da Viação Santo Amaro e chegava ao Tendal por bondes cargueiros puxados a burro da Companhia Viação Paulista. Era então distribuída entre vários açougueiros que as levavam em carroções. Até 1903 o largo ainda não era calçado com paralelepípedos e quando chovia o local ficava um lamaçal que acabava sendo levado para dentro do Tendal.

A disputa por melhores preços e a formação de cartel por parte dos marchantes era motivo constante de discussões e até brigas sérias com direito a cacetadas e facadas, houve até casos de mortes no local.

1904

O Tendal do Largo São Paulo em 1904

Mas em março de 1911 uma lei municipal autorizou o prefeito Raymundo Duprat a arrendar o Tendal do Largo São Paulo por 25 anos para a construção de um teatro no local, nos mesmos moldes do que havia sido feito em 1908 com o Teatro Colombo construído no lugar do Mercado do Largo da Concórdia. Findo o período de concessão, as benfeitorias seriam propriedade da municipalidade sem direito a indenização. O depósito de carnes seria transferido para junto do Matadouro da Vila Mariana.

O depósito mudou-se em 1912 e o antigo tendal foi precariamente adaptado para funcionar como cinema e também apresentando alguns números de palco.

1912

O Tendal adaptado para teatro em 1912

Só em 28 de janeiro de 1914 seria inaugurado o Teatro São Paulo com um espetáculo privativo para a imprensa, no dia seguinte seria aberto ao público. Com frente para a Rua da Glória, o prédio apresentava uma fachada estilo que lembra o mourisco com duas cúpulas. Na plateia existiam 1036 cadeiras mais 20 frisas, 36 camarotes e galeria para acomodar 800 espectadores. Tinha ainda um corredor esterno com o bar, bilheteria e demais dependências. Na parte externa um terraço com cadeira e mesas. Talvez fosse mais apropriado chamá-lo de Cine-Teatro, pois a maior parte do tempo funcionou como cinema. Na inauguração foi apresentado o filme “Entre homens e feras” e no intervalo uma orquestra com 10 professores distaria os espectadores.

1919pb

O Teatro São Paulo em 1919

Em 1931 o prefeito Anhaia Melo, atendendo solicitação da Sociedade Paulista de Belas Artes mudou o nome do Largo São Paulo para Praça Almeida Júnior em homenagem ao artista.

A década de 1950 foi a que mais apresentou atividades no Teatro São Paulo, com apresentações de artistas de renome como Maria Della Costa, Bibi Ferreira, Procópio Ferreira, Oscarito, Mazzaropi e muitos outros. Também nesta década aí foi realizado, por vários anos, o Festival de Teatro Amador além de ter sido palco para os famosos Teleteatros Tupi, nos primórdios da televisão paulista.

No ano de 1953 aprovou-se um projeto autorizando a mudança provisória da Câmara Municipal para o Teatro São Paulo enquanto o novo Paço Municipal era construído, porém em 1954 esta ideia foi abandonada e o Teatro então passou por uma reforma na qual perderia suas cúpulas.

Dec 1950O Teatro São Paulo na década de 1950, após a reforma

Até que em maio de 1967 o prefeito Faria Lima determinou a demolição do velho teatro para a abertura da Radial Leste-Oeste e o viaduto Mie Ken na Rua da Glória. Assim o antigo Largo São Paulo deixou de existir em sua configuração original e a Praça Almeida Júnior foi reduzida às suas proporções atuais.

Não restaram vestígios do lugar onde “o cupido travesso fez diabruras”, Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães faziam suas odes à Satã, houve brigas e mortes por negócios com carne e espetáculos teatrais divertiram o paulistano.

Um visitante do passado andando pela Rua da Glória estranharia:

– Cadê a praça que estava aqui?

– A avenida comeu!

Fontes
SEVCENKO, Nicolau – A cidade metástasis e urbanismo inflacionário: incursões na entropia paulista.
FREITAS, Affonso A. de – Tradições e Reminiscências Paulistanas.
FREITAS, Affonso A. de – Plan-História da Cidade de São Paulo 1800-1875.
VAMPRÉ, Spencer – Álvares de Azevedo na Academia.
Jornal O Correio Paulistano, diversas edições.
Jornal O Estado de S. Paulo, diversas edições.
Lei Municipal 1393 de 20/03/1911

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  1. Paulo Francisco da Costa Aguiar Toschi
    10/11/2015 às 23:22

    Muito interessante. Quanto ao prédio onde funcionou a Santa Casa de Misericórdia, quando esta se mudou para o local onde está hoje, foi destinado ao Externato São José, também de responsabilidade da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia. João Antonio Julião, meu bisavô, foi nomeado o Mordomo encarregado da adaptação e inauguração dessa casa de ensino. Era um colégio para meninas e obrigatório falar em francês, inclusive nos recreios. Minha mãe e suas irmãs, bem como minhas irmãs e primas estudaram lá. Mas, o incrível é que dois tios meus, Francisco Xavier da Costa Aguiar Junior e João Julião da Costa Aguiar foram alunos do Externato. Tinham recreio em separado, numa área isolada das meninas.

    • Edison Loureiro
      11/11/2015 às 09:43

      Muito obrigado por seus comentários Paulo. Enriqueceu o artigo.

  2. 11/11/2015 às 13:15

    …linda as fotos..o desenho do morro é sem duvida uma raridade…como sao paulo é rico em historia…

  3. Rene Sanches
    08/10/2016 às 11:58

    Parabéns! Belo relato histórico sobre o Bairro da Liberdade!

  4. Décio Monteiro
    08/10/2016 às 12:30

    Muito bom Edison !

  5. yramaia fogaça de almeida
    08/10/2016 às 14:51

    Passei minha infância no largo São Paulo, o teatro em seus últimos anos tinha aulas de ioga, violão, dança e teatro para as pessoas que viviam nas redondezas. Frequentei quase todas com minhas colegas do Colégio São José ( local onde funcionou a Santa Casa). Com este artigo fiz um passeio por lugares tão queridos da minha memória e que a modernidade tirou do nosso convívio.

  6. BEATRIZ NOGUEIRA CALAÇA
    09/10/2016 às 10:27

    Gostei, um belo relato!!!

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