Heróis de quatro patas

Eduardo Dick e Muniz de Souza
O Soldado José Muniz de Souza, o cão policial Dick e o menino Eduardinho

Por Edison Loureiro

Tarde de abril de 1956.

Duzentos policiais, comandados por 10 delegados, com viaturas da Radiopatrulha e do RUDI faziam investigações e buscas desde o dia 17, atrás do paradeiro do menino Eduardo Jaime Benevides, o Eduardinho, de três anos e meio, desaparecido da porta de sua residência na Rua Senador Casimiro da Rocha. Suspeitava-se de sequestro, em vista de outro caso semelhante, ocorrido no dia 11 do mesmo mês, quando a criança foi encontrada na Estrada do Taboão, Água Funda.

Em vista disso as buscas concentravam-se nos bairros de Vila Morais, Vila Liviero, Água Funda e a região do Parque do Estado, onde hoje encontra-se o Zoológico de São Paulo.

Eram sete e meia da manhã do dia 21 quando, nas matas no Parque, o subtenente Audoramo Antunes Moreira, comandava o cabo Benedito Bicudo Caraça e os soldados Nodis Cristofoletti e José Muniz de Souza, que conduziam os cães pastores alemães Tufão, Fúria e Dick. Os cães haviam farejado um travesseiro usado somente pelo menino.

Coube ao cão Dick levar seu adestrador, o soldado Muniz de Souza, à uma cova com um metro e meio de profundidade,coberta com uma folha de zinco onde estava o garoto sujo e com as roupas esfarrapadas, mas vivo. Junto a ele, algumas bananas e tangerinas.

O Governador Jânio Quadros, que havia recentemente ameaçado fechar o Canil Central da Força Pública através de um dos seus famosos “bilhetinhos”, recomendou a promoção do soldado Muniz de Souza a cabo. Mas o cão Dick também ganhou sua promoção e hoje é conhecido como o Cabo Dick.

placa
Placa de bronze instalada abaixo do busto do Cabo Dick no Canil Central

O Cabo Dick morreu por complicações de saúde em 15 de junho de 1959, mas ganhou um busto e placa de bronze à porta do Canil Central da Polícia Militar do Estado de São Paulo no bairro do Tremembé.

Cabo Dick
Busto em homenagem ao cão policial Dick instalado no Canil Central da PMESP

A placa diz que o Canil foi fundado em 15-09-1950. É verdade, foi em 1950 que o Capitão Djanir Caldas voltou da Argentina, onde conheceu e estudou a cinotecnia, e o Canil da então Força Pública iniciou suas atividades com quatro cães pastores alemães, sendo que dois deles vieram da Argentina. Neste ponto poderíamos ter encerrado a história, mas…

Madrugada de julho de 1912.

Enfrentando a brisa gelada da Rua Santa Rosa um homem caminha de modo furtivo. É Serrinha, conhecido meliante, arrombador que dá preferência a depósitos e casas comerciais. Evitando ser apanhado pela fraca luz das luminárias, tira o pé de cabra que trazia e começa a forçar a porta de um depósito. De repente, escuta uma voz de comando, um rosnado feroz e se vira sentindo-se gelado também por dentro.

À sua frente, num elegante uniforme azul, o policial, armado somente com seu bastão, segura com certa dificuldade a corrente que prende um feroz cão pastor belga que parece disposto a pular em seu pescoço. Compreende que não há como resistir. Larga o pé de cabra e pede para o policial que não solte o cão. Outro soldado se aproxima e faz a revista à procura de alguma arma. A luz esverdeada do lampião de gás faz brilhar as iniciais GC bordadas em dourado no boné do uniforme. Lá se vão os soldados do 1o Corpo da Guarda Cívica com seu cão e o ladrão para a Central de Polícia do Pátio do Colégio.

Como vemos, 38 anos antes da inauguração do Canil do Tremembé já existiam cães auxiliando as atividades policiais de São Paulo. Então o correto seria dizer que o canil foi recriado, pois o uso de cães nas atividades policiais remonta a 1912, quando a primeira Missão Francesa esteve em São Paulo e trouxe cães adestrados da raça pastor belga.

Em 1913 a reportagem do jornal O Estado de São Paulo registra a chegada de mais seis cães policiais belgas “recolhidos ao canil provisório do Quartel da Luz”. Eram cães da raça Dinamarquesa trazidos pelo professor François Semal, que depois adotou o nome brasileiro de Francisco Carlos e tornou-se diretor do canil policial do Estado. Este canil tornou-se responsabilidade do 1o Corpo da Guarda Cívica da Força Pública, predecessor do 6o Batalhão de Infantaria criado em 1924, que passou a chamar-se Batalhão de Caçadores em 1934 e hoje corresponde ao 6o Batalhão da Polícia Militar.

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Jornal O Estado de S. Paulo de 18-08-1913

Em 1924, durante os distúrbios da Revolução o canil foi em parte destruído e os cães dispersos. Na época a Força Pública publicou até um edital solicitando à população que, no caso de abrigar algum cão pertencente ao canil da Força que o devolvesse ao Quartel da Guarda Cívica, o antigo Asilo de Alienados do Parque D. Pedro II. Neste ano o canil foi reorganizado e entregue aos cuidados do Veterinário do Regimento de Cavalaria. Foi também determinada a construção de um canil moderno no 6o Batalhão sob a direção do Major Juvenal de Campos Castro, que passou a dirigir o canil.

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Jornal Correio Paulistano de 14-08-1924

No biênio 1930/32, com as várias mudanças feitas na Força Pública, resultado das derrotas daquele período, o antigo canil acabou sendo extinto bem como as atividades com cães policiais em São Paulo.

Até 1950, quando os heróis de quatro patas voltaram ao serviço.

 

Notas

Canil da Polícia Militar e sua verdadeira história – in Revista A Força Policial, n. 30, ano 2001.

Jornal Correio Paulistano de 09-08-1913, 14-08-1913, 14-08-1924 e 26-01-1914.

Jornal Folha da Tarde de 10-04-1956.

Jornal O Estado de São Paulo de 11-08-1913, 13-01-1914, 18-08-1913 e 21-04-1956.

O Canil Central da PMESP fica na Av. Júlio Prado Neves, 1111 – Tremembé, São Paulo.

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A Sinhá da Rua das Sete Casas

B-Paranapiacaba-1925Praça da Sé em 1925, à direita a R. Barão de Paranapiacaba

Por Edison Loureiro

A Rua Barão de Paranapiacaba teve, através dos tempos, várias denominações: Travessa do Padre Capão (início do século XIX), Rua “da Mexia” ou “do Mexim”, Rua das Sete Casas e, a partir de 28/11/1865, por proposta do vereador Malaquias Rogério de Salles Guerra, Travessa da Caixa D’Água (a antiga caixa d’água ficava na esquina com a Rua Quintino Bocaiúva). No dia 01/12/1907, o vereador Carlos Garcia solicitou a alteração desta denominação para “Barão de Paranapiacaba” e justificou: “Trata-se de um velho paulista, conhecido, tradicional nas letras brasileiras”.

Hoje é a “ruas das joias”, tamanha a quantidade de joalherias concentradas em seu curto trecho.

Devo a Affonso Schmidt (1890 – 1964), excelente cronista do passado a seguinte história sobre esta rua.

Por volta de 1850 existia na R. Barão de Paranapiacaba uma república de estudantes. Naquele tempo houve uma epidemia de tifo na cidade que causou várias vítimas.

Como podem imaginar médicos eram raros e escassos os medicamentos. Poucos se aventuravam a tratar dos doentes.

Certa manhã, quem nas redondezas estivesse, poderia ver uma Sinhá, aí pelos seus 55 anos, que residia num palacete da então Rua Alegre, atual Brigadeiro Tobias, adentrar apressada a tal república da Rua das Sete Casas, como ainda era conhecida. Tinha sido avisada que havia um estudante doente que morreria por falta de cuidados.

Diz o cronista que a tal senhora providenciou remédios e passou três dias e três noites cuidando do estudante. O curioso é que ela nem conhecia o estudante, somente depois é que ficou sabendo que seu nome era Affonso Celso de Assis Figueiredo, o futuro Visconde de Ouro Preto.

O nome da Sinhá?

Era Domitila, a nossa conhecida Marquesa de Santos, que morreu há 150 anos.

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A Pauliceia de 77

1872pb

O Mercado antigo na Rua 25 de Março em 1872.

 

Edison Loureiro

Este texto não é de minha autoria. Encontrei-o no jornal O Estado de S. Paulo de 31 de março de 1937 e seu autor não se identificou, assinou apenas com a inicial “A”. Mas eu achei tão interessante e curioso que resolvi transcrevê-lo na íntegra, somente atualizando a ortografia. Espero que gostem.

Seria difícil reconstituir com pormenores a capital de São Paulo no ano de 1877. No entanto, se algum leitor de oitenta anos, ou mais, quiser acompanhar-nos num passeio através da nossa cidade tal como ele era há sessenta anos, poderemos ativar-lhe a memória. O triângulo era constituído pelas ruas São Bento, Direita e Imperatriz, não oferecendo, portanto, grande alteração. Mas na Rua Direita ainda se via a Igreja da Misericórdia e, da Rua da Imperatriz, entre os sobradinhos de uma travessa, ainda se viam, em ângulo, a igreja do Colégio e o Palácio do Governo.

Quem chegava ao Largo do Tesouro e olhava para baixo, via a meio da Rua Municipal, a estação dos “bondinhos de burro” e, lá embaixo, a chácara do Gasômetro, tendo ao lado o antigo “Depósito de Imigrantes”. Nesse tempo o Mercado Velho era ainda Mercado Novo, ou melhor, Praça do Mercado. Na parte alta do sobradinho da Rua da Imperatriz n. 10 havia um escritório de advocacia que ficou célebre. Não tinha placa, mas São Paulo inteiro o conhecia: era de Luiz Gama.

Naquele tempo, como durante muitos anos, quer para trás, quer para frente, o delegado de polícia era o Conselheiro Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça, que morou no Largo da Glória, em casa que ao tempo tinha o número 40. A Câmara Municipal funcionava no edifício do Palácio, pavimento inferior, junto à Secretaria Militar e realizava suas sessões às sextas-feiras, das 10 às 14 horas. Era seu presidente o Dr. Antonio da Silva Prado que morava à Rua Senador Feijó.

Os viajantes tinham os seguintes hotéis: o Imperial, na Rua do Ouvidor, de propriedade de Agostinho Pucciarelli; o Grand Hotel de France, na Rua Direita, esquina do Beco da Lapa [sic], cuja proprietária era Amélia Fretin; no mesmo beco havia ainda o hotel de Ângelo Fenili e o Hotel Europa à Rua da imperatriz, n. 51 e 56, de Carlos Schorcht. O Albion já existia, era de propriedade do negociante James Porter; havia também um Hotel de Paris de mme. Rosalie Boudrot, à Rua São Bento, n. 31.

O Correio Paulistano, de Joaquim Roberto de Azevedo Marques, tinha a sua redação á Rua da Imperatriz n. 27; o Diário de São Paulo, de Paulo Delphino da Fonseca, à Rua do Carmo, 65; A Província de S. Paulo, de Francisco Rangel Pestana, Américo de Campos e José Maria Lisboa, `Rua da Imperatriz, 44; a Sentinela, de João Mendes de Almeida, no Largo de São Gonçalo; a Tribuna Liberal, de Herculano Marques Inglez de Souza e Joaquim Taques Alvim, à Rua da Princesa, n. 20; a Revista do Instituto Politécnico, de que era redator-chefe Elias Fausto Pacheco Jordão. Ainda contava São Paulo com outras publicações literárias e acadêmicas e o Indicador de Abílio S. Marques.

Os elegantes eram vestidos pelos alfaiates de fama: Bougarde, Hell, Lang & Worms, Guilherme Krioner e J. Pourraly. Alugavam-se mobílias na casa de José Rubim Cesar, na Rua da Cadeia, n. 45, notadamente cadeiras austríacas para reuniões políticas, récitas particulares e bailes improvisados. Havia também “armadores de anjos de gala para procissões”, representados por D. Maria Benta à Rua da Boa Vista e D. Maria do Carmo Silva à Rua da Boa Morte. O bauleiro da capital era Antonio Peixoto de Carvalho no Largo do Palácio. O paulistano, fora de casa, tomava banhos no estabelecimento da Ilha dos Amores e na Sereia Paulista de José Fischer, à Rua São Bento, n. 1. Cortava os cabelos e perfumava-se na casa de Aimeé Quillet, à Travessa da Quitanda, ou na de Eugênio Husson na Rua São Bento n. 48-A. A primeira aliava à navalha os frascos de extrato e o segundo um belo mostruário de joias. Mas além dessas, contavam-se numerosos barbeiros comuns por todos os cantos da cidade.

Para se dar um passeio à Rua da Mooca, que era a Avenida Paulista da época, alugava-se um cavalo no Adão, à Rua do Comércio, no Miguel Justo à travessa de Santa Tereza, ou então, no Nicolau Gomes Pereira, à Rua da Esperança. À noite ia-se ao teatro. Mas para isso alugava-se um tílburi no ponto principal que era o Largo do Colégio, das 9 às 21 horas. Quando não funcionava o Teatro São José, no Largo de São Gonçalo, ia-se ao Provisório, do desembargador Bernardo Gavião.

Mas o ponto da rapaziada era mesmo a Escola de Patinação, na Rua da Beneficência, canto da Rua Alegre. Era um divertimento caro naquele tempo, pois a entrada custava 1$000.Quem não tinha vitória ou caleça, voltava de bonde para casa, alta noite. Sim, porque debaixo dos anúncios de teatros lia-se sempre esta frase tranquilizadora: “depois do espetáculo haverá bondes para todas as linhas”.

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Há cem anos os cocheiros brigavam com os taxistas

Por luz-circulado-1908

Por Edison Loureiro

A foto mostra a Estação da Luz em cartão postal circulado em 1908. Em frente à estação, na rua que então recebia o nome de José Paulino,  podemos ver a fileira de tílburis aguardando passageiros. Muitas vezes os passageiros tinham que despachar suas bagagens por veículo separado por falta de espaço.

Em 1911, aproveitando a maior oferta dos novos veículos automotores, Frederico Zanardi criou a empresa Companhia Nacional de Auto-Transporte e obteve licença  para estacionar seus veículos na Estação da Luz, em concorrência com os cocheiros que lá faziam ponto. Obviamente os “chauffers” da empresa não foram nada bem recebidos pelos cocheiros.

O próprio Frederico Zanardi já havia sido agredido na Rua Mauá por cocheiros irritados. Em vista disso contratou um segurança particular para tranquilizar seus motoristas. Na época, seguranças particulares eram chamados de capangas e geralmente não tinham boa fama. A própria polícia reforçou a guarda da estação colocando policiais adicionais.

Mas no começo da noite de 24 de agosto de 1911, o cocheiro Antonio de Luca, mais conhecido como “Galo” foi tirar satisfação com o “capanga” chamado Francisco da Cunha e começaram um bate-boca. Não durou muito a discussão, O Galo puxou um revólver e disparou contra o peito de Francisco que ficou gravemente ferido. No tumulto que se seguiu, o cocheiro desapareceu e Francisco, após os primeiros socorros foi internado na Santa Casa de Misericórdia.

Até onde pude seguir esta história, Francisco da Cunha sobreviveu ao ferimento e Antonio de Luca foi indiciado por tentativa de homicídio. Dois anos depois se envolveria num rumoroso caso de homicídio relatado aqui.

Foi assim. Há mais de cem anos os cocheiros brigavam com os taxistas que lhes faziam concorrência. Hoje os taxistas brigam com o Uber pelo mesmo motivo. Mas não passou pela cabeça de nenhum deputado ou senador no Congresso Nacional propor nenhuma lei que tornasse inviável o serviço dos taxistas, deixando aos passageiros decidir pelo serviço que quisessem.

Fonte: jornal O Estado de S. Paulo de 26-08-1911 e 25-08-1911

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São Paulo higienizado, ou como 3 milhões cabem em um espaço para 100 mil.

Sempre amei São Paulo e passei a amar mais ainda depois das aulas de urbanismo que tive com o professor Jairo Ludmer na Faculdade de Belas Artes, onde me formei já vão décadas.

Jairo nos levava para o centro da cidade, à noite. As aulas eram in loco, seu ensino peripatético cravou na minha alma ainda mais o amor à história da cidade. Aprendi com ele como o tecido urbano ainda guarda elementos representativos de nossa história material e imaterial por meio de suas construções e, até mesmo, por meio da fala de seus espaços vazios que igualmente revelam tanto como os ocupados.

A Virada Cultural, com um público estimado em 3 milhões de pessoas, fazia dessa cidade, em horas antes mortas, o cenário a ser vivenciado e apreciado entre o deslocamento de um palco a outro, de um show a outro. O centro pulsava, revivia como na época dos grandes cinemas e espetáculos e de outros tempos em que tudo lá ocorria, antes que a nossa generosa geografia permitisse que São Paulo se espraiasse deixando para trás, como áreas necrosadas, espaços que não mais interessavam para a elite.

A atual gestão Haddad perdeu uma excelente oportunidade em juntar a Virada do Patrimônio a Virada Cultural. Mostrar e explicar melhor para a população que ali estava o que era tudo aquilo que viam, ou não. Perderam a chance de terem aberto o Terraço do Martinelli para se ver a cidade a meia-noite, terem o hall do velho Banco de São Paulo, melhor exemplo em arquitetura e decoração art-déco da cidade, ocupado com algum espetáculo. Isso para falarmos em apenas dois, das centenas de espaços possíveis e, quase, anônimos, que poucos viram e sabem do que estou falando.

Agora, o novo prefeito, que sonha com um parque no Jockey Club, em uma das áreas que mais tem opções de lazer de São Paulo, – ao contrário do Capão Redondo, onde as traves dos gols, quando existem, viram locais enlameados quando chovem -, anunciou que irá levar a Virada Cultural, de 3 milhões de pessoas, para Interlagos. Como fazer 3 milhões de pessoas caberem em um espaço que dificilmente cabem 100 mil não deve tirar o sono do atual alcaide eleito. Algum gráfico deve ter contentado o atual gestor, altamente capacitado para gerar uma das maiores metrópoles do mundo, após o seu merecido descanso em Miami, necessário após vencer a disputa eleitoral.

A cidade é vida, é pulsante, assim como a história, tecnocratas já tentaram domá-la, e falharam miseravelmente. Prestes Maia que o diga. Seu arrojadíssimo Plano Avenidas tornou-se defasado após alguns anos de implementado.  O alcaide eleito, ainda não empossado, além de domá-la quer higienizá-la, a começar pelo próprio centro a quem nega a vida levada pela Virada. Quer limpá-lo, quer trocar lâmpadas, limpar jardins, arrumar o que está quebrado e pintar tudo. Falta saber quando virá a cúpula de cristal Swarovski para cobrir e, assim, preservar, sem vida, o centro de São Paulo puro, lido e belo, como uma pintura de Romero Britto.

Paulo Rezzutti

A Igreja de São Gonçalo

P10809441936A Igreja de São Gonçalo em 2011 e 1936

Por Edison Loureiro

Quem chega à Praça João Mendes, vindo da Praça da Sé tendo à esquerda a Catedral, por onde era antigamente a Rua do Imperador, enxerga logo em frente uma Igreja amarela na direita de uma fileira de sobrados.

Tanto a igreja, como os sobrados parecem um tanto deslocados junto a edifícios de aparência tão séria.

Mas esta pequena igreja foi o marco inicial desta parte da cidade. Por muito tempo esta foi uma região isolada da pequena cidade de São Paulo, que ocupava vagarosamente os arredores do Pátio do Colégio. Esta região só começou a ser urbanizada a partir de 1757, quando uma pequena capela de pardos foi construída onde está a pequena igreja amarela.

Trata-se da igreja de São Gonçalo. São Gonçalo Garcia para esclarecer, já que existem dois santos de nome Gonçalo, este de quem estamos tratando e São Gonçalo do Amarante, este tão casamenteiro quanto Santo Antônio.

São Gonçalo Garcia era pardo e nasceu na Índia, filho de pai português e mãe indiana. Foi franciscano e morreu crucificado em Nagasaki, Japão em 1579, juntamente com mais 22 missionários. Foi beatificado por Urbano VIII em 1627 e canonizado por Pio IX em 1852.

Em 1724 foi formada na igreja de Santo Antônio a comunidade de Nossa Senhora da Conceição e São Gonçalo Garcia, que recebeu em 1756 a provisão do frei Antônio da Madre de Deus Galvão para a construção da capela a que nos referimos.

Foi dedicada à Nossa Senhora da Conceição pois Gonçalo Garcia ainda não havia sido canonizado. Com o tempo foi se deteriorando e por volta de 1840 foi construída esta igreja. Seu construtor foi Nicolau Alves da Fonseca, conhecido como Carranca. Existem registros mostrando uma disputa judicial com a Câmara, pois Carranca avançou em terreno os limites concedidos à irmandade. Esta disputa deve ter durado um bom tempo, pois o caso deixa de ser citado somente a partir de 1863.

A igreja passou por algumas reformas durante a segunda metade do século XIX e o frontispício que vemos hoje foi feito em 1881.

Em 1893, João Mendes de Almeida, que dá seu nome à praça, e morava ao lado, onde hoje é a Padaria Santa Tereza, reuniu recursos para uma última reforma na igreja, que neste mesmo ano passou a ser uma das poucas igrejas sob a guarda dos jesuítas.

Quando desabou o telhado da antiga Igreja do Pátio do Colégio, a Igreja de São Gonçalo recebeu o relógio e várias outras peças, inclusive a pedra que fica acima da porta de entrada. Tem uma certa lógica, pois o antigo Colégio foi fundado pelos jesuítas.

Em 15 de abril de 1966, D. Agnelo Rossi, cardeal-arcebispo de São Paulo, criou a Paróquia Pessoal de São Gonçalo especialmente para os japoneses e a confiou aos jesuítas. A igreja passou então a ser a Matriz da Paróquia. Todos os domingos às 8:00 h as missas são rezadas em japonês para a comunidade nipônica. O nome oficial hoje é Matriz Paroquial Pessoal Nipo-Brasileira São Gonçalo.

Sua companheira, a Igreja dos Remédios que ficava à esquerda, fechando a praça à altura da Avenida Liberdade já foi demolida no final da década de 1940, Mas S. Gonçalo continua firme no seu lugar oferecendo o pão que alimenta o espírito dos católicos. Como estes não são de ferro, podem aproveitar e dar uma passadinha ao lado, na Padaria Santa Tereza para um bom pão que alimenta o corpo e, de quebra, um cafezinho.

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Um passeio na praia em 1860

Por Edison Loureiro

Quem nunca fez um “bate-volta” de São Paulo a Santos? É só embarcar a família no carro ou no ônibus e, no máximo uma hora e meia depois, deixamos o planalto e estamos à beira da praia. Dá tempo para um bom almoço, uns passeios e voltar ao cair da noite. Bem… isso se não for um daqueles feriadões que lotam as estradas.

Como seria uma viagem dessas em 1860?

Bem, o tal “bate-volta” seria impraticável, pois carros e ônibus não existiam e a ferrovia São Paulo Railway, mais conhecida por Inglesa, que ligava Jundiaí a Santos, passando por São Paulo, só começou a operar após 1865, como já contei em outro artigo. Mas mesmo assim as famílias, pelo menos aquelas com mais recursos, também passavam férias na praia, já naqueles tempos. Vamos imaginar como seria uma viagem dessas com a família?

Não. Não precisamos imaginar nada. Existe um relato bem detalhado feito por Maria Paes de Barros em seu livro “No Tempo de Dantes” que vai nos ajudar, além de relatos de outros memorialistas e viajantes antigos.

Maria Paes de Barros nasceu em 1851 e em 1944, com 93 anos e uma perfeita lucidez, escreveu o livro citado que mereceu um prefácio de Monteiro Lobato e uma introdução de Caio Prado Júnior. Era filha do Comendador Luiz Antonio de Souza Barros e sobrinha de Francisco Antonio de Souza Queiroz, o Barão de Souza Queiroz. Casou-se com seu primo Antonio Paes de Barros. Faleceu em 1952.

O Comendador Souza Barros foi um próspero proprietário de fazendas de café e cana de açúcar em Campinas e Piracicaba.

Moravam num casarão da Rua de São João, construído no fim do século XVIII que pertenceu inicialmente a Francisco Ignácio de Souza Queiroz, tio da memorialista. Francisco Ignácio foi o protagonista da célebre “bernarda” que acabou trazendo D. Pedro I a São Paulo na época em que acabou proclamando a Independência. O casarão acabou se transformando na Pensão Milano, cuja história também já contei.

A viagem era feita a cavalo e mulas, e a família levava um grande número de escravos, mucamas e pajens, além dos tocadores de dois banguês para o transporte das crianças. Levavam o necessário para montar uma casa, pois eram minguados os recursos do vilarejo de São Vicente, onde alugavam uma casa para a temporada.

Com tudo pronto e empacotado a caravana saía da Rua São João, seguia talvez pela Rua São Bento até a Rua Direita depois para o Largo da Sé e daí pela Rua de São Gonçalo (ficava no lado direito de quem está de frente para a Catedral) até o largo de São Gonçalo (atual Praça João Mendes), passava pela passagem estreita que dava ao Largo Sete de Setembro e descia a Rua da Glória. Passando o casarão onde foi há muitos anos a Chácara dos Ingleses, atual Praça Almeida Júnior, já começava a Estrada do Mar, que passava pelos arrabaldes do Ipiranga, levava a São Bernardo e descia a Serra do Mar. Pelo caminho iam avistando, aqui e ali, pequenas casas de comércio que atendiam as tropas que por ali eram frequentes antes da ferrovia. Com a chegada da ferrovia a maior parte destes pequenos comércios fechou.

Banguê

A viagem era feita em duas etapas. Na primeira paravam no alto da serra, onde existiam duas pousadas, o do Rio Grande e do Zanzalá. Mas não vá imaginar grande coisa. Apenas umas alcovas com telhados de telhas vãs e algumas camas para os mais afortunados.

Na manhã seguinte começava a descida da serra, pela antiga Estrada da Maioridade cujo projeto começou com o marechal do Corpo de Engenheiros Daniel Müller, o mesmo que construiu o obelisco do Piques, e terminou já na administração de Rafael Tobias de Aguiar, sob a orientação de João Bloem em 1846. A Estrada da Maioridade substituiu a antiga Calçada do Lorena de 1792, que foi usada por D. Pedro I no episódio da Independência.

Era a parte mais bonita e divertida da viagem, mas também a mais perigosa. Afinal a estrada tinha 20 palmos de largura, cerca de 4 metros e meio e cheia de abismos. Era comum encontrar tropeiros pelo caminho, pois em 1860 o trânsito de mercadorias já era intenso. Aí o jeito era encostar os animais de montaria bem perto da montanha para dar espaço às mulas que subiam a serra carregadas, seguindo a “madrinha” que vinha na frente toda enfeitada, cheia de guizos e os tropeiros gritando e reunindo os animais com um longo chicote. Não era à toa que o Comendador Souza Barros chamava aqueles profundos vales, cobertos de mata atlântica de “cemitério de burros”, pois tantos já haviam despencado nas profundezas.

Hercule FlorenceDesenho de Hercule Florence mostrando a antiga Calçada do Lorena

Em algumas de suas 12 voltas podia-se admirar o panorama do mar ao longe banhando a costa, espetáculo poucas vezes visto pela maioria dos antigos paulistanos. A caravana então fazia umas paradas para descanso e beber a água de uma das várias bicas que existem na serra.

Completados os sete quilômetros de descida, chegavam à planície do Cubatão, onde havia um pouso de tropeiros. Aí todos apeavam para um descanso e jantar.

Aqui vamos abrir parêntesis.

Nesta época os horários das refeições eram bem diferentes dos atuais. O almoço era entre nove e dez horas e o jantar entre duas e três horas da tarde. Às oito, a ceia, que normalmente consistia de chá com alguns biscoitos caseiros ou bolos.

Fecham-se os parêntesis.

maria albertina pinheiro da silva mesquitaQuadro de D. Maria Albertina Pinheiro da Silva Mesquita mostrando o rancho em Cubatão

Após o jantar, quando invariavelmente pedia-se peixe ou camarão, pois pescados do mar eram raríssimos em São Paulo, seguia a caravana. Passavam pela ponte coberta que atravessava o Ria Cubatão onde havia uma barreira para a cobrança das taxas de passagens. Daí prosseguiam pelo Aterrado. À tardinha chegavam à única rua existente em São Vicente, onde já tinham uma casa previamente alugada.

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Tela de Benedito Calixto retratando Cubatão em 1826. À direita a ponte coberta.

Na manhã seguinte levantavam-se cedo para ir à praia, antes do sol nascer, pois acreditava-se que a exposição ao sol era prejudicial à saúde. Os pretos já tinham cortado alguns galhos bem enfolhados da mata e preparado a cabana para abrigo da família. Aí saíam todos vestidos com camisolões de baeta azul e tamancos de madeira, roupas de banho ainda levariam uns bons anos para entrar na moda.

Após o banho de mar e uma refeição, vinham os passeios pela praia. Se a maré estivesse baixa dava para ir até a ilha Porchat. À tarde passeios até a biquinha, que está lá até hoje, para beber água fresca.

biquinha final sec 19 paredão de 1850A Biquinha de São Vicente em foto do final do século XIX. O paredão indicava a data de 1850.

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Foto do autor em 2009

Entre passeios e banhos de mar os dois meses de veraneio passavam rápido e chegava a hora de fazer o mesmo caminho de volta.

Pois é, passar uns dias na praia era uma aventura…

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