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A Capela dos Enforcados – História, Tradição e Lendas.

Atual comparativo

Por Edison Loureiro

Seu nome na verdade é mais longo: Capela da Santa Cruz das Almas dos Enforcados, mas todos a chamam de Igreja dos Enfocados ou Igreja das Almas e fica na Praça da Liberdade. Sua criação vem de uma tradição antiga que existia, ou talvez ainda exista: Fincar uma cruz no local onde ocorreu uma morte violenta seja por crime ou acidente. Daquela simples cruz, às vezes nascia uma devoção e alguém construía uma capelinha cobrindo a cruz.

Em São Paulo existiam algumas capelas que surgiram dessa forma, a mais famosa talvez tenha sido a Capela da Santa Cruz do Pocinho, que ficava na atual Avenida Vieira de Carvalho, onde todo ano, no dia 3 de maio, era realizada a festa da Santa Cruz, muito concorrida. Hoje desapareceram as capelas e as festas. Só resta mesmo esta do título.

A história é antiga. Remonta ao ano de 1821 quando, em abril, D. João VI volta a Portugal com toda a corte. Existia nesta época uma rixa entre brasileiros e portugueses em especial nas tropas. Os portugueses recebiam soldos mais altos e tinham preferência na ordem de recebimento. Aos soldados brasileiros ficavam as sobras, que nem sempre eram suficientes e, com isso, ficavam sempre com o pagamento em atraso por meses, às vezes anos. D. João VI, numa tentativa de pacificar esta situação decretou a igualdade nos soldos e eliminou a ordem de preferência. Mas como obedecer ao decreto se na partida o rei raspou o fundo do Tesouro e deixou D. Pedro, príncipe regente, na penúria? Na prática tudo permaneceu como antes.

Em três de junho daquele ano os soldados do Segundo Batalhão de Caçadores, estacionado em São Paulo, se revoltaram e exigiram o recebimento dos soldos atrasados. A revolta não teve grandes consequências. Tudo foi resolvido com uma conversa enérgica e convincente dos líderes, que acabaram acatando a exigência dos revoltosos, a situação se normalizou e ninguém foi punido.

Alguns dias depois, em Santos, talvez pelo exemplo do sucedido em São Paulo, aconteceu coisa parecida, mas com graves consequências. Na noite de 28 para 29 do mesmo mês, uma sexta-feira, os soldados se amotinaram, arrombaram o arsenal, tomaram as armas e munições e saíram em revolta pela vila. Líderes políticos locais e o comandante do Batalhão foram detidos, conduzidos ao quartel e obrigados a fazer o pagamento dos soldos atrasados. Não satisfeitos os revoltosos espalharam-se pela pequena vila de Santos assaltando moradores e o comércio local. Houve luta com marinheiros portugueses, tiros, feridos, mortes e mesmo disparos de artilharia contra um navio português que se encontrava no porto. O caos prosseguiu por toda a semana aterrorizando a vila de Santos, até que se enviou a tropa estacionada em São Paulo, a mesma que se rebelara dias atrás, que acabou controlando a situação.

No inquérito que se seguiu dividiram-se os amotinados em dois grupos: o dos cabeças do motim juntamente com os que cometeram mortes e roubos e os outros menos culpados. Estes ficaram para ser julgados depois, mas foram separados em grupos e enviados para trabalhos forçados em obras nas estradas. Acabariam sendo perdoados por D. Pedro em 1822 e reincorporados à tropa.

Quanto ao primeiro grupo, após o Conselho de Guerra e revisão por uma comissão nomeada pelo Governo Provincial, do total de 33 réus, sete foram condenados à pena capital e os outros receberam outras punições. Decidiu-se também que aqueles nascidos no litoral, em número de cinco, seriam executados em Santos imediatamente, e os dois nascidos no Planalto seriam executados em São Paulo.

Como não havia forca em Santos, os cinco condenados foram executados em uma das vergas do navio “Boa Fé”, o mesmo que havia sido alvo das cargas de artilharia dos revoltosos.

Os dois nascidos em São Paulo acompanharam o grupo daqueles que vieram cumprir suas penas de galés no Planalto. Aqui chegando foram presos na Cadeia Pública que ficava no Largo de São Gonçalo, atual Praça João Mendes. O prédio, que abrigava também o Senado da Câmara ficava exatamente onde hoje começa o Viaduto D. Paulina, ao lado da Igreja de S. Gonçalo.

Nesse meio tempo construía-se a forca em São Paulo, pois a que existira antes estava deteriorada por falta de uso. Era localizada no Morro da Forca, onde hoje é a Praça da Liberdade. O morro seria aplainado muitos anos depois e sua terra usada nos aterros da baixada do Glicério. Ficou pronta em sete de setembro daquele ano e as despesas todas montaram a 76. 620 réis. Entre as despesas, duas curiosidades: 640 réis para duas meadas de barbante para a corda e 480 réis ao barbeiro para afiar o cutelo. Não existia corda pronta para vender em São Paulo. Mas para que afiar o cutelo tratando-se de enforcamento? A explicação está na cerimônia macabra que era a pena capital. Após o enforcamento, a vítima era retirada da laçada e o carrasco a decapitava. O corpo então era enterrado no cemitério dos Aflitos, uma quadra e meia abaixo. A cabeça era salgada, colocada num caixão e levada para a cadeia. Depois seria transportada e exibida em outras vilas do interior da província como exemplo.

Os infelizes que subiram a serra para o suplício eram o cabo Francisco José das Chagas e Joaquim José Cotindiba. Este não era conhecido do povo de São Paulo, mas o primeiro era filho de pessoas estimadas e muito popular entre a pequena população da cidade. A família, humilde, residia numa casa simples da Rua das Flores, atual Silveira Martins, onde Chaguinhas, como era conhecido, passara a infância.

No dia 20 de setembro, após os condenados passarem o dia anterior em retiro espiritual no oratório da Cadeia com assistência de um sacerdote, colocaram as alvas, espécie de camisolões, e foram levados ao Morro da Forca. Uma caminhada de uns 200 metros.

O primeiro a subir foi Cotindiba. As mãos foram atadas às costas e depois de encapuzado foi ajustada a laçada ao pescoço. O enforcamento deu-se sem incidentes. Depois foi Chaguinhas que passou pelo mesmo ritual sinistro. Mas quando foi retirada a tábua que o sustentava e o corpo caiu no vazio, a corda arrebentou! O povo clamou por Misericórdia e os membros dessa Irmandade cobriram-no com sua bandeira para dar-lhe imunidade. Mas os apelos não surtiram efeito, as autoridades ignoraram a tradição e optaram pela pena exemplar. Mais uma vez Chaguinhas sobe ao patíbulo e enfrenta o ritual da morte. E mais uma vez, para surpresa geral, acorda se arrebenta. Outra vez clama o povo à Comissão do Governo pelo perdão tradicional. E mais uma vez é negado e desta vez, por ordem de Martim Francisco de Andrada, toma-se um trançado de couro no Matadouro à guisa de corda para o suplício. Chaguinhas é finalmente executado.

Ao povo consternado e convencido que um inocente havia sido supliciado só restou orar pela alma dos enforcados. Conforme o antigo costume alguém providenciou uma cruz que foi colocada ao lado da forca. Outros providenciaram uma pequena mesa onde sempre se acendiam velas pelas almas. Conforme o local ia se alterando e sendo habitado, a cruz e sua mesa forma sendo deslocados até o local onde hoje está a Capela atual.

Alguns documentos relativos a este processo estiveram extraviados por longo tempo. Historiadores do início do século XX não tinham certeza nem da data em que foi cumprida a pena. Assim muitas lendas foram sendo criadas para preencher os vazios da história.

Uma delas diz que o laço de couro utilizado por último foi tomado à força de um boiadeiro que passava pelo local. Outra diz que o laço de couro também se arrebentou e o infeliz foi morto a pauladas no chão. Por muito tempo imaginou-se que Chaguinhas foi substituído por um cadáver e tivesse escapado com ajuda de cúmplices indo viver em Campinas. Os documentos que esclareceram inclusive a data da execução somente foram localizados e tornados públicos em 1922, ou seja, após cem anos. Outra lenda diz que quando os laços arrebentaram por três vezes, o povo gritava “Liberdade, Liberdade!”, daí originou-se o nome do largo e do bairro. Na verdade o nome Liberdade originou-se do Chafariz da Liberdade que esteve no largo por um tempo e está relacionado com a abdicação de D. Pedro I. Dizem ainda que Chaguinhas foi o último enforcado, o que não é verdade. Muitos ainda seriam supliciados em São Paulo, principalmente escravos revoltados, até a extinção da pena de morte em 1889.

Apesar de algumas fontes indicarem a construção da capela em 1887, o Arquivo da Cúria Metropolitana registra a fundação em 1891, sendo sua primeira missa realizada em 1 de maio daquele ano.

O culto começou antes mesmo da inauguração da capela, em data incerta, com as festas promovidas por Olegário Pedro Gonçalves e Chico Cego, que viviam nos arredores. Mesmo antes da Abolição, Antonio Bento já ajudava a promover as festividades.

Chaguinhas capela enforcados Diário Nacional 19-08-1928 recorte
Foto publicada no jornal O Diário Nacional de 19-08-1928

A capela original, de taipa de pilão foi totalmente demolida em 1926, sobrando apenas a escadaria frontal e a grade. Uma nova foi construída e inaugurada em 1928. Esta segunda capela teve sua fachada e frontão reformados em data incerta, passando a ter a aparência mais próxima da atual.

DN 27-04-1932 recorte
Foto publicada no jornal Diário Nacional de 27-04-1932

Sua posição em relação à Avenida da Liberdade era mais recuada, no centro do quarteirão e ficava ao lado de uma antiga delegacia. Com o alargamento da Rua da Liberdade no final da década de 1940, a capela ficou mais próxima da atual avenida. Restou uma pequena faixa de terreno separando a capela da avenida onde era a delegacia. Em 1955 essa faixa de terreno foi cedida à cúria Metropolitana que aí construiu, em 1958, o pequeno edifício que lá se encontra. Também neste ano iniciou-se a reforma final na qual foi construída a torre e as configurações atuais.

Igreja da Santa Cruz das Almas dos Enforcados 1957
Foto de 1957, por Hiyoshi Hiratsuka, do acervo de Maria Lourdes Pereira

Fontes:

Sentenças sobre Chaguinhas, Djalma Forjaz, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Vol . 23 pag. 531.
Dois documentos sobre a sedição militar ou “levante” do 1 ° batalhão de caçadores da praça de Santos em 1821, Benedito Calixto, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Vol . 17 pag. 435.
Jornal Diário Nacional de 11-04-1928.
Jornal Diário Nacional de 19-08-1928.
Jornal Diário Nacional de 27-04-1932.
O Enforcamento de Chaguinhas, Nuto Sant’Anna em O Estado de S. Paulo de 30-07-1935.
Rebelião em Santos, Nuto Sant’Annna em Correio Paulistano de 19-02-1941.
A lenda do Chaguinhas, Paulo Cursino de Moura em São Paulo de Outrora.
Jornal O Estado de S. Paulo de 13-12-1955.

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  1. carlos alberto
    17/12/2019 às 10:18

    Excelente artigo, primorosa riqueza de detalhes!!! Parabéns!!!!!!

  2. Maria Petrilli
    22/12/2019 às 16:19

    Adorei à história e a copiei inteirinha em meu diário,
    Obrigada por compartilhar. Cultura é sempre bom.

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