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O Canudo do Dr. João Teodoro

Canudo 1898aO Mirante da Luz em 1898, popularmente conhecido como Canudo do Dr. João Teodoro

Por Edison Loureiro

Quando João Teodoro foi Presidente da Província de São Paulo (1872-1875), entre várias outras obras houve a reforma do Jardim da Luz, conhecido na época como Jardim Público. Durante esta reforma foi construído o mirante que vemos na foto. Não houve nenhuma intenção de fazer uma réplica paulistana da Torre de Pisa, o mirante saiu de prumo depois de algum tempo por pura incompetência do construtor, Antônio Bernardo Quartim, empreiteiro de obras da capital, conhecido por fazer obras caras e ruins.

Construído para ser um mirante, em 1886 foi nele instalado um observatório meteorológico que recebeu o nome de João Teodoro. O povo, no entanto o chamava de “Canudo do Dr. João Teodoro”. Em 1900, já abandonado e servindo apenas a encontros furtivos de casais acabou sendo demolido na gestão do prefeito Antônio Prado.

João Teodoro Xavier de Matos é considerado por muitos historiadores como o primeiro urbanista da cidade de São Paulo pelas importantes obras executadas na sua gestão. Hoje seu nome é homenageado em uma rua da capital, rua, aliás, aberta por ele. Outros historiadores tem opinião diferente, alegando que os projetos já existiam, porém não foram executados pela crônica falta de dinheiro na capital. Com a cultura do café prosperando na época de João Teodoro, este nada fez do que apoiar a Câmara Municipal. Como não sou historiador, não vou meter o bedelho nesta controvérsia.

Mas o que todos concordam é que João Teodoro era um tipo excêntrico. Numa época tão formal no trajar, João Teodoro costumava usar calças amarelas de brim, sobrecasaca, lenço preto no pescoço e cartola.

Mas as esquisitices de João Teodoro não ficavam somente nos trajes. Certa vez, ao meio-dia, foram levar-lhe um documento oficial no palácio, onde hoje é o Pátio do Colégio. O portador, entrando no gabinete presidencial encontrou João Teodoro de ceroulas, embrulhado num cobertor vermelho, sentado à mesa de trabalho, com as janelas fechadas e duas velas acesas, escrevendo um relatório.

– Que é isso, doutor.?

– Ah meu amigo, só sei trabalhar à noite. E como tenho pressa de terminar este relatório, vejo-me forçado a tomar estas precauções que me dão a ilusão da noite, mãe do sono e da morte, irmãos gêmeos, protetores do silêncio, do isolamento e da tranquilidade. Pode ir. Diga a seu pai que o documento está entregue e que em palácio é meia-noite.

João Teodoro fingia temer a imprensa oposicionista e as críticas que recebia da Assembleia. Assim, dizia que ouvia a “opinião pública” em todas as suas decisões. A sua versão de opinião pública era de um tipo todo particular. Certa ocasião um chefe político o procurou no palácio apresentando uma indicação para uma nomeação. João Teodoro pediu que o solicitante voltasse no dia seguinte para a reunião da “opinião pública”.

No dia seguinte o interessado voltou e encontrou a “opinião pública” reunida numa sala do palácio. O capitão Antonio Bernardo Quartim, eterno empreiteiro de obras públicas; o modesto alfaiate Mariano da Purificação Fonseca, que era seu oficial de gabinete; Valeriano Neves, que era o bedel da Academia; o ancião Goulartinho; Nhô Pica-Fumo; o Rafaelzinho; e como era um caso importante, também estava presente a Nhá Maria Café.

– Entre, meu amigo e ouça a opinião pública. – E voltando-se para seus amigos:

– Respeitável opinião pública! Aqui o nosso amigo e correligionário pede a nomeação de Fulano para tal cargo e deseja que se construa uma ponte no interior da Província. Que acham?

– Nós achamos que o “seu” Joãozinho deve atender ao Sr. Conselheiro.

– Pois assim será. Está servido, meu amigo, a opinião pública está ao seu lado.

Conforme o historiador, em casos como este era Deus no céu e Nhá Maria Café na terra. Ela, além de ser quituteira na Rua das Casinhas (atual Rua do Tesouro), era sogra de Mariano da Purificação Fonseca.

Devia ser um tremendo gozador este antigo governador.

Quando deixou o governo, João Teodoro voltou ao seu antigo emprego de professor da Academia, atual Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Morreu com 50 anos em 31 de outubro de 1878, em extrema pobreza como disse seu biógrafo.

É curioso saber que houve um tempo em que o Estado de São Paulo era chamado de Província, o Governador era Presidente e fazia relatórios de ceroula.

Mas, o incrível é saber que houve uma época em que políticos também morriam pobres.

Fontes

MOURA, Paulo Cursino de, São Paulo de Outrora, 1932, Editora da Universidade de São Paulo, 1980.

EGAS, Eugênio, Galeria dos Presidentes de São Paulo, Secção de Obras d’ “O Estado de S. Paulo”, 1926.

CAMPO, Sergio Romanello e BRIDI, Carmen Lucia, Dr. João Teodoro Xavier, Edição da Câmara de Mogi Mirim, 2002.

CAMPOS, Eudes, Melhoramentos públicos executados na capital paulista durante a presidência de João Teodoro, INFORMATIVO ARQUIVO HISTÓRICO MUNICIPAL, 5 (25-26): jul/out.2009 <http://www.arquivohistorico.sp.gov.br&gt;

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  1. 05/01/2016 às 09:56

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